Prédio: Escola Superior de Educação Física de Goiás
Sala: Sala 04
Data: 2009-06-11 08:30 – 08:45
Última alteração: 2009-06-08
Resumo
PERCURSOS E OLHARES: DO TEXTO AO CONTEXTO – UM ENSAIO SOBRE A FORMAÇÃO CULTURAL NA EDUCAÇÃO FÍSICA
Michelle Ferreira de Oliveira
RESUMO: As transformações em curso na sociedade brasileira, decorrentes das mudanças técnico-organizacionais no mundo do trabalho, estão fazendo ressurgir, com muita ênfase, debates relativos a temas e problemas que nos remetem às relações entre trabalho, qualificação, educação, e especialmente a formação profissional. Os estudos que envolvem tais questões nos remetem a vários campos das ciências sociais - economia, sociologia, história, antropologia - passando também a se constituir em objeto de preocupação de educadores e de todos aqueles que se preocupam com as questões relativas ao homem e às suas metamorfoses. Tais temas não só estão na ordem do dia dos estudiosos, como também fazem parte da agenda dos principais protagonistas sociais envolvidos nos processos de mudança e transformação social em curso. O modo como compreendemos esses conceitos implicam em posicionamentos relativos aos processos formativos e à construção social dos significados que acompanham essas definições que são elaboradas e construídas ao longo da história do indivíduo. Compreender o homem e sua diversidade cultural faz-se necessário na tentativa de contemplar suas realizações e feitos, analisando aquilo que tem sido produzido. Nesse sentido, o presente trabalho inicia um diálogo histórico-sócio-cultural sobre a formação docente em Educação Física.
Palavras-chave: formação docente, culturas, saberes e práticas pedagógicas.
O professor possui saberes e conhecimentos que vão sendo adquiridos ao longo de sua história. Estes, por sua vez, têm origem diversa e não decorrem diretamente da ciência, ou simplesmente da formação acadêmica, embora a base científica seja imprescindível. Tais saberes constituem-se num conhecimento em ação, ou seja,
os saberes de um professor são uma realidade social materializada através de uma formação, de programas, de práticas coletivas, de disciplinas escolares, de uma pedagogia institucionalizada, etc, e são também, ao mesmo tempo os saberes dele. (TARDIF, 2002:16).
Quando analisamos a prática de qualquer docente, é notável a existência de conhecimentos e saberes disciplinares, pedagógico-didáticos e a presença de diversas culturas. Tais saberes têm uma forte conotação experiencial, abarcada de traços que efetivamente são do professor, daquilo que ele vive e viveu e dos seus talentos pessoais. Decorre daí, a usualidade de se dizer que os professores ensinam não só o que sabem, mas também o que são. Tardif (2002), abordando a questão da origem do saber, afirma que esse
é sempre o saber de alguém que trabalha alguma coisa no intuito de realizar um objetivo qualquer. Além disso, o saber não é uma coisa que flutua no espaço: o saber dos professores é o saber deles e está relacionado com a pessoa e a identidade deles, com a sua experiência de vida e com a sua história profissional, com as suas relações com os alunos em sala de aula e com os outros atores escolares na escola (TARDIF, 2002:11).
Ao pensarmos as diferentes culturas dentro da Educação Física, podemos perfazer um percurso histórico para compreender as definições que estão sendo estabelecida atualmente nesse campo, pois, sabemos que essa, na atualidade tem delineado, ou pelo menos grande parte de seus teóricos discursam como sendo, seu campo de investigação a cultura corporal, que envolve as relações corpo-sociedade. Nesse sentido, destacam a possibilidade da Educação Física desenvolver uma intervenção social a partir das manifestações corporais da cultura brasileira. Embora não haja consenso nesse ponto, analisar a história pode nos levar a entender a Educação Física como está posta atualmente.
No que diz respeito à função social e a razão social da Educação Física, podemos perceber através do Coletivo de Autores, que sua principal função no início era
desenvolver e fortalecer física e moralmente os indivíduos (...). Outra forte razão era o seu caráter científico dado a partir do referencial oriundo das ciências biológicas (...). Constrói-se, nesse sentido, um projeto de homem disciplinado, submisso, profundo respeitador da hierarquia social. (COLETIVO DE AUTORES, 1992: 52-53)
Como podemos observar no trecho acima, a Educação Física, estava estreitamente ligada às práticas que visavam desenvolver a aptidão física, ou mesmo a de manter o corpo com saúde, afinal, no auge do desenvolvimento da industrialização e do sistema capitalista, era necessário à nova classe social no poder, investir na higienização dos corpos buscando com tal medida o aumento de produtividade, acreditando que, através da atividade física, além da higienização seria possível o controle ideológico da classe trabalhadora.
Segundo Medeiros (1998), no período de 1930 a 1964,
A implantação da Educação Física nas escolas teve uma motivação de caráter notadamente higienista, para depois ir tomando corpo os ideais de formação de homens fortes e ágeis. Estava presente o caráter eugênico desta área, entendendo eugenia a ciência que se preocupa com o desenvolvimento das qualidades hereditárias dos indivíduos, isto é, o aprimoramento da raça (MEDEIROS, 1998: 21).
Em seus estudos, Medeiros (1998) cita o raciocínio estruturado por Castellani (1988), afirmando que este explica o sentido da inserção da Educação Física escolar, como sendo aquele que formaria homens e mulheres saudáveis, pois “mulheres fortes e sadias teriam mais condições de gerarem filhos saudáveis, os quais, por sua vez, estariam mais aptos a defenderem e construírem a Pátria” (CASTELLANI apud MEDEIROS, 1998: 21).
Observando pormenorizadamente esse período, não é difícil compreender porque a Educação Física acabou tomando sobre si traços com certa conotação militar, afinal, essa instituição esteve envolvida estreitamente ao estabelecimento da Educação Física nas escolas, aspirando à cultura militar.
O fato dessa disciplina, ao longo da história, ter sido desenvolvida e aplicada sob interesses, ou como mais uma arma, que tinha como finalidade alienar o indivíduo e manter a estrutura social vigente, “desenvolver e fortalecer física e moralmente os indivíduos” (COLETIVO DE AUTORES, 1992: 52), demonstra o valor atribuído à mesma, que atendia às expectativas de conservação social. E, quando pensamos na aquisição de conhecimentos e saberes, notavelmente os valores assumidos nesse período, estão voltados à manutenção de corpos saudáveis.
O contexto histórico dos anos subseqüentes, na década de 60, a missão era de
treinar o indivíduo a executar determinada tarefa” e passa a consumir a idéia de educar como o sinônimo de adestrar. Por influência direta do positivismo e por direcionamento do tecnicismo, passa a perceber o corpo como uma máquina capaz de produzir trabalho. (MEDEIROS, 1998: 25).
Entretanto, é na década de 60, com o golpe militar, que é inaugurada uma longa fase que, “reprimiu com violência qualquer tipo de reação contrária aos seus valores e tratou de produzir, através da educação, uma geração que fosse, ao mesmo tempo, passiva, acrítica e produtiva” (MEDEIROS, 1998: 23).
Nesse período os intelectuais a serviço do governo teriam gestado as políticas públicas para a educação, impondo padrões de referência para a prática de Educação Física no interior da escola.
O esporte codificado, normatizado e institucionalizado respondeu de forma bastante significativa aos anseios de controle por parte do poder, uma vez que sua tendência era estabelecer padrões para as ações, tanto do professor quanto do aluno; e ainda, se afirmar como fenômeno cultural de massa contemporâneo e universal, sendo considerado um elemento educacional privilegiado. Este, aliado à interferência governamental no desenvolvimento da Educação Física escolar, tornava-se referência praticamente exclusiva para a prática de atividades corporais.
Assim, o conjunto de práticas corporais passíveis de serem abordados e desenvolvidos no interior da escola resumiu-se à prática de algumas modalidades esportivas. As práticas escolares de Educação Física passaram a ter como fundamento primeiro a técnica esportiva, o gesto técnico, a repetição, enfim, a redução das possibilidades corporais a algumas poucas técnicas estereotipadas.
Mas é “nas décadas de 70 e 80 surgem movimentos “renovadores” na educação física” (COLETIVO DE AUTORES, 1992: 55), que tentaram romper com a essência tecnicista, ou seja, a Educação Física do alto rendimento, voltada para competições, onde o objetivo era superar recordes, além de romper também, com a essência biológica e higiênica vivenciada até o momento. Buscaram assim, desenvolvê-la, dentro de uma concepção da cultura corporal, sendo que
nessa perspectiva da reflexão da cultura corporal, a expressão corporal é uma linguagem, um conhecimento universal, patrimônio da humanidade que igualmente precisava ser transmitido e assimilado pelos alunos da escola. A sua ausência impede que o homem e a realidade sejam entendidos dentro de uma visão de totalidade. (SOARES et al, 1992: 42)
Contudo, é fundamental certa criticidade, que não seja apenas discurso ou manuscritos, mas que vá além da teoria, para perceber que, as atividades corporais foram construídas em determinadas épocas históricas, como resposta a determinados estímulos, desafios e necessidades humanas. A reflexão pedagógica sobre o acervo das formas de representações do mundo que o homem tem produzido no decorrer da história, exteriorizadas pela expressão corporal podem ser identificadas como formas de representação simbólica de realidades vividas pelo homem, historicamente criadas e culturalmente desenvolvidas, atendendo a determinados interesses.
Compreendendo tal historicidade e tais definições culturais da Educação Física, é preciso antepor a necessidade de pensar a discussão estabelecida até o presente momento, relacionando o desenvolvimento das concepções culturais, saberes docentes e o próprio homem.
Por sua vez, o que nos inquieta, consome, assusta, é que muitas vezes o professor de Educação Física, na atualidade, é capaz de decorar todo o movimento histórico da Educação, mas, não consegue romper com o mesmo. Tem-se uma gama de elementos advindos da história da Educação Física, foram absorvidos tantos conceitos, que hoje, indubitavelmente, podemos dizer que vivemos um multiculturalismo dentro da Educação Física.
Quando nos deparamos com a prática nessa área, percebemos que, o ânimo que os professores levam consigo nos primeiros anos de exercício docente na escola, aos poucos (ou muito rapidamente) vai se dissipando.
Muitas vezes, atentando o olhar para esse fato, indagamos o porquê isso ocorre. Todavia, o que podemos perceber é que são culturas diferentes e concepções diversas presentes na Educação Física no Brasil hoje. Pelo que pudemos perceber trata-se de uma concepção, um entendimento que é fruto das experiências e das transformações sociais ocorridas tanto no cenário brasileiro, quanto em nível mundial.
Quando trouxemos o recorte histórico do percurso da Educação Física, o intuito era mostrar a gama de influências e interferências sócio-histórico-culturais que a mesma recebeu durante décadas. Assim como o homem vai mudando seus conceitos e vai mudando sua forma de agir e pensar, a Educação Física – que é pensada por homens, também vai sendo modificada. Aliás, não somente esta, mas também todos os conhecimentos e saberes sistematizados: tanto nas áreas biológicas, quanto nas exatas, quanto nas humanas.
Do higienismo à esportivização, ao humanismo, e mesmo ao “criticismo”, podemos averiguar a presença dos diferentes elementos culturais, característicos de cada época.
O que peculiarmente atrai nossos olhares é a direção que esse campo foi tomando. Perpassando tantos momentos históricos e culturais, e assumindo diferentes conotações, hoje deságua em uma quantidade enorme de tendências e conhecimentos e, as vezes até mesmo se perde diante da multiculturalidade que nela encontramos.
Decorre desse ponto a observação às famosas aulas de “rolling ball[1]”, que se constituem nas aulas aonde os professores chegam e simplesmente lançam a bola, para que os alunos ‘brinquem’ durante quarenta minutos.
Ora, essa é uma estagnação dentro da presente área, visto que, a bola pela bola, ou o jogo pelo jogo, não possuem significado algum, em vista da gama de conhecimentos abarcados pela Educação Física.
É necessário então, atentar para a prática que vem sendo realizada nas aulas de Educação Física, e ir além do que tem sido feito.
Transferir as responsabilidades ou procurar um culpado para a desestruturação da presente disciplina, não é o caso. É preciso assumir que foram várias as transformações culturais, mas também que os elementos presentes hoje, podem e deveriam estruturar uma discussão com embasamento teórico.
Há a possibilidade de essa assumir um papel na sociedade de reflexão, de maneira que não seja apenas uma área onde se aprenda a técnica, mas que exponha a realidade social, de forma que ocorra uma contextualização social e a análise crítica do movimento. E ainda, que não fique apenas no discurso crítico, mas que apresente os elementos técnicos inerentes à própria Educação Física.
Embora na atualidade ocorram discussões sobre o objeto de estudo da Educação Física e até mesmo sobre sua razão de existir, dentro da escola ou em campos não-formais de atuação, é nítida a presença de traços da cultura deixados por gerações anteriores que viveram a Educação Física tecnicista. Todavia, sabemos que a Educação Física faz bem para o corpo, quando estamos tratando do biológico. Nesse caso, há diversas provas científicas sobre o assunto, mas não podemos deixar-nos levar pela indústria da estética e da beleza, já tão presentes e tão comuns no século XXI, e transformar a prática física em mais um elemento da sociedade consumista, e nem deixar que ela caia na simples prática pela prática.
Mas, há necessidade de romper a cada dia com as visões tradicionais da prática pedagógica, a fim de que passemos a vivenciar aquilo que a maioria de nós defendemos, ou seja, uma Educação Física crítica, que estimule a ludicidade e a capacidade criativa, buscando desenvolver autonomia e capacidade crítico-reflexiva na formação do sujeito.
Nessa perspectiva, repensar a cultura, dentro desse campo: a Educação Física é repensar o resgate da sensibilidade humana, do destino da humanidade. Quando o homem, em seu processo de formação compreende e valoriza a cultura, resgata o sentido da Ética e sua função de resguardar a vida, reconhece o diferente como o outro homem semelhante, facilitando o seu processo de humanização.
As informações sejam elas internas ou externas sempre passam por um processo de filtragem, organização, estruturação e tem seus produtos mediados pela linguagem, gestos, atitudes, imagem corporal e outras formas de expressão as quais o professor não deve deixar que passem desapercebidas. É necessário tomar certos cuidados para não reincindir no erro da privação a cultura ou privilégio de conteúdos aos quais os alunos tenham mais afinidade, esquecendo que o individuo em todos os momentos de sua vida está em continua aprendizagem e que estas podem levar a mudanças futuras que se tornarão permanentes. A fim de que, não se tornem alunos seres mecânicos e desumanizados.
Nessa infatigável busca pela liberdade cultural busca-se instigar a capacidade de pensar – a Educação Física possibilite de condições para que o educando, consigo mesmo, de dentro para fora, seja capaz de criar, colocando em diálogo a capacidade de manter a integridade e de colocar-se em diálogo com o outro, além de ser capaz de aceitar ou rejeitar aquilo que tem sido imposto pelas práticas tradicionais.
REFERÊNCIAS
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A Educação como Cultura: Campinas, Mercado das Letras, 2002.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. No melhor da festa. In Festas populares brasileiras. Ed. Pioneira, 1987.
COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do Ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.
GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC – Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., 1989.
GUIMARÃES, Valter Soares. Formação de Professores – Saberes, Identidade e Profissão. 2ª Ed.Campinas: Papirus, 2005.
LUDKE, Menga e ANDRÉ, Marli E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986.
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento; tradução Eloá Jacobina. – 4ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
RICHTER, Ivone Mendes. Interculturalidade e estética do cotidiano no Ensino das Artes Visuais. Campinas: Mercado de letras, 2003.
SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura. São Paulo: Brasiliense, 2003. (Coleção Primeiros Passos).
TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002.
Michelle Ferreira de Oliveira
e-mail: michelle.ufg@gmail.com
fone: 81132749
[1] “Rolling ball” termo utilizado por acadêmicos para designar as aulas onde o professor simplesmente chega, joga a bola e deixa os alunos fazerem o que quiserem, sem ministrar conteúdo algum.