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Vol. 41. Núm. 3.
Páginas 284-289 (Julio - Septiembre 2019)
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Vol. 41. Núm. 3.
Páginas 284-289 (Julio - Septiembre 2019)
Artigo original
DOI: 10.1016/j.rbce.2018.03.035
Open Access
Considerações acerca de representações de práticas corporais nas obras confucianas Registro dos ritos e Discursos
Considerations on the social representations of physical practices in the confucian works Discourses and Book of Rites
Consideraciones sobre las representaciones de las prácticas corporales en las obras confucianas Libro de los ritos y Discursos
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Carlos Alberto Buenoa,1,
Autor para correspondencia
carlosabrj@yahoo.com.br

Autor para correspondência.
, Du Jinxiangb, André Mendes Capraroc
a Universidade Federal do Paraná (UFPR), Departamento de Educação Física, Curitiba, PR, Brasil
b Universidade Normal da China Central (CCNU), Departamento de História, Hubei, China
c Universidade Federal do Paraná (UFPR), Departamento de Educação Física, Curitiba, PR, Brasil
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Resumo

Em meio às obras que tomam parte no corpo de conhecimentos produzido pelo confucionismo figuram o Registro dos ritos (Liji) e Discursos (Zhonglun). No presente estudo, buscamos investigar como manifestações da cultura corporal são apresentadas nas referidas obras e o que tais formas de atividades poderiam representar frente ao processo formativo de um indivíduo no contexto de produção desses escritos, conforme o prisma confuciano. Foram identificadas como relevantes para essa discussão informações a respeito da prática de arquearia, presentes no Registro dos ritos, assim como o conceito das Seis Artes, presente na obra Discursos.

Palavras‐chave:
Confucionismo
Cultura corporal
Arquearia
China
Abstract

Among the writings that constitute the body of knowledge produced by the Confucianism, one can mention the “Book of Rites” (Liji) and “Discourses” (Zhonglun). In this study, we aim to investigate how these books portray physical culture manifestations and what such type of activities could represent to the formative process of an individual, accordingly with the confucian approach, in the context in which these works were first written. We have considered as relevant issues for this discussion the information regarding the practice of archery included in the Book of Rites, as well as the concept of the “Six Arts”, included in the Discourses.

Keywords:
Confucianism
Body culture
Archery
China
Resumen

Entre las obras que forman parte del conjunto de conocimientos producido por el confucianismo se encuentran el Libro de los ritos (Liji) y Discursos (Zhonglun). En el presente estudio queremos investigar cómo las manifestaciones de la cultura corporal se presentan en estas obras y lo que podrían representar estas formas de actividades en el proceso formativo de un individuo en el contexto en que se escribieron estas obras, conforme al prisma confuciano. Se identificaron como relevantes para esa discusión informaciones acerca de la práctica del tiro con arco, presente en el Libro de los ritos, así como el concepto de las «seis artes», presente en la obra Discursos.

Palabras clave:
Confucianismo
Cultura corporal
Tiro con arco
China
Texto completo
Introdução

Confucionismo é um termo que se refere a uma antiga linha de pensamento chinesa, conhecida em mandarim como Rujiao, que poderia ser traduzida como ruismo1. Envolveu‐se na produção desse corpo de conhecimentos um grande número de pensadores, cujas obras têm como pedras angulares questões de ordem social e política. Dentre os temas abordados de forma recorrente por representantes dessa escola de pensamento, pode‐se citar a importância de determinados preceitos morais, as práticas cerimoniais e seu papel na ordem social e a busca de uma “governança pela virtude”.

A perspectiva confuciana constituiu o cerne da ortodoxia institucional de diferentes casas dinásticas durante a maior parte do período imperial na China, e símbolos dessa escola de pensamento tomaram parte no longo processo de constituição da visão de mundo do povo chinês. Ainda nos dias de hoje, elementos que podem ser caracterizados como códigos confucianos afiguram‐se de forma conspícua no contexto chinês2, e são inclusive encontrados em manifestações culturais de origem chinesa no contexto brasileiro3.

Em meio às obras que divulgam o ideário confuciano, figuram aquelas que abordaremos ao longo do presente estudo, quais sejam o Registro dos ritos (Liji) e Discursos (Zhonglun). A obra Registro dos ritos foi elaborada pelo erudito Dai Sheng em algum momento entre 73 a.C. e 49 a.C., a partir de escritos confucianos já existentes, e foi complementada posteriormente por pensadores como Ma Rong e Zheng Xuan4. Já a autoria da obra Discursos é atribuída ao pensador Xu Gan, que viveu no período Han Oriental5. Ao examinar conteúdos presentes nas referidas obras, intencionamos discutir como manifestações de práticas corporais são nelas apresentadas e o que tais formas de atividades poderiam representar frente ao processo de formação de um indivíduo no contexto de produção desses escritos.

No que se refere à estrutura do estudo, em um primeiro momento caracterizaremos brevemente o confucionismo e o uso de suas obras no âmbito educacional do período imperial chinês, e após essa etapa sobrevirá a apresentação e discussão de dados provenientes das fontes examinadas – o Registro dos ritos e Discursos. Com efeito, o estudo é centrado fundamentalmente no exame dessas fontes, e duas versões de cada uma das obras em questão foram usadas. A escolha das fontes está relacionada ao fato de que elas apresentam, em meio a seus conteúdos, informações que dizem respeito a determinadas formas da cultura corporal.

No que tange ao Registro dos ritos, uma das versões examinadas consiste de uma obra que reúne o Registro dos ritos e o Clássico da conduta filial, intitulada Registro dos ritos e o clássico da conduta filial em linguagem contemporânea (Liji Quan Yi, Xiaojing Quan Yi), publicada em 2009. De organização de Lu Youren, essa versão contém explicação em linguagem moderna e exegese de Lu Yongmei. A outra versão usada, publicada em 2000 com o título Registro dos ritos (Liji), foi organizada por Xu Chao e contém uma seleção de alguns trechos do texto original da obra, a par de uma explicação em linguagem moderna, assim como de uma tradução para o inglês feita por Lao An6.

Quanto à obra Discursos, uma das duas versões usadas foi organizada por John Makeham em 1985, escrita e comentada em inglês, ao passo que a outra, intitulada Discursos com notas explicativas (Zhonglun Jiegu) e publicada em 2014, compreende o texto original e inclui exegese de autoria de Sun Qizhi (Makeham, 1994; Xu & Sun, 2014).

Em meio às informações presentes nessas obras, foram identificadas como relevantes para nossa proposta aquelas que dizem respeito ao capítulo intitulado “O significado da arquearia” (Sheji), presente nas versões consultadas de Registro dos ritos, assim como as que se referem ao conceito das Seis Artes, presente na obra Discursos.

O confucionismo e o uso de suas obras pelo sistema educacional chinês no período imperial

A linha de pensamento da qual fazem parte as obras aqui estudadas é, na China, predominantemente denominada de Rujiao, que poderia ser traduzido como ruismo. Em línguas neolatinas o termo usado é confucionismo. A produção do ruismo, ou confucionismo, caracteriza‐se, de forma geral, pela valorização de determinadas características morais, da boa governança, das práticas rituais, assim como pela admiração de soberanos modelares do passado, e pelo respeito e deferência nas relações sociais, em conformidade com determinada ordem hierárquica.

Os escritos de muitos pensadores fizeram parte do corpo de conhecimentos do ruismo. Apesar do que à primeira vista possa parecer ao usar a expressão latinizada confucionismo, a hipótese de que Confúcio7, um influente pensador nascido em 551 a.C., teria criado esse sistema de pensamento é objeto de controvérsia entre estudiosos8. De acordo com a perspectiva de Gu Zhengkun, “ideias confucianas estiveram em circulação muito antes de Confúcio nascer” (Gu, 2012, p. 44). Para o autor, o confucionismo seria principalmente o resultado dos esforços combinados de muitas das elites culturais da antiga China:

como é entendido hoje, é efetivamente uma realização resultante dos esforços combinados de muitos (possivelmente centenas de) intelectuais e líderes políticos da antiga China, em particular da dinastia Zhou Ocidental. Ele representa os feitos de muitas pessoas. (Gu, 2012, p. 45).

No período em que as obras que aqui serão abordadas foram escritas, o sistema de pensamento do ruismo já havia sido instituído como a ideologia oficial governamental do império chinês, condição que viria a perdurar até o crepúsculo do período dinástico, no início do século XX9. Durante o período dinástico chinês, obras confucianas integraram o currículo educacional formal. Dentre essas obras, podem‐se destacar o Registro dos ritos, que fez parte tanto do conjunto dos Cinco clássicos (Wujing) quanto do conjunto dos Quatro livros (Sishu).

Os Cinco clássicos, cujo agrupamento é considerado como o cânone do antigo confucionismo, foram usados de forma institucionalizada no âmbito educacional por muitos séculos (FU, 1993, p. 50; Taylor & Choy, 2005, p. 184). O conjunto consiste das seguintes obras: Livro das mutações (Yijing), Livro dos cantos (Shijing), Livro de documentos (Shujing), Registro dos ritos (Liji) e Anais primavera‐outono (Chunqiu). O sistema educacional chinês esteve fundamentado no conjunto dos Cinco clássicos até o período Song (960‐1279 d.C.), quando os escritos do ruismo sofreram uma releitura e o conjunto dos Quatro livros veio, no século XIV, a substituir os Cinco clássicos como base do sistema educacional. Sua posição de destaque no âmbito educacional chinês perdura até o início do século 20 (Taylor & Choy, 2005, p.186). O agrupamento dos Quatro livros é composto por dois capítulos do Registro dos ritos, pelos Analetos (Lunyu) e pela obra Mêncio (Mengzi).

Os valores e as concepções de mundo do ruismo, cuja divulgação foi favorecida pela ideologia institucional de grande parte do período dinástico chinês, foram variáveis que incorreram no campo de tensões a partir de onde se disseminam determinadas representações sociais, representações essas que dizem respeito às diferentes dimensões do mundo social, o que inclui as percepções do corpo e das atividades físicas. A seguir, serão levantadas algumas considerações acerca da forma como atividades corporais ritualizadas são aduzidas em alguns dos escritos que tomam parte no corpo de conhecimentos produzido pelo ruismo, mais especificamente nas obras Registro dos ritos e Discursos.

Representações de atividades corporais na literatura confuciana: considerações a partir da obra Registro dos ritos

Neste subitem, apontaremos algumas considerações acerca da apresentação de símbolos relacionados às atividades corporais nos escritos de um dos Cinco clássicos – o Registro dos ritos.

No que tange à produção dessa obra, Xu & Lao (2000, p. 3,4) apontam que o erudito Dai Sheng iniciou sua elaboração em algum momento entre 73 e 49 a.C., com base em registros então disponíveis que tratavam de ritos e decoro10. Acredita‐se que o trabalho organizado por Dai Sheng foi complementado e finalizado por Ma Rong e por outros pensadores durante os últimos anos da dinastia Han Ocidental (206 a.C.‐8 d.C.). Mais tarde, durante a dinastia Han Oriental (25‐220 d.C.), Zheng Xuan (127‐200 d.C.) teria preparado sua exegese e a obra veio a ser conhecida como o Registro dos ritos.

O Registro dos ritos abrange um amplo espectro de conteúdos, dentre os quais figuram informações relacionadas a sistemas rituais e musicais, regras de decoro, convenções sociais quanto a determinadas situações da vida e registros de alguns tipos de atividades cerimoniais. Dentre as cerimônias tratadas, pode‐se citar a do casamento, a do banquete, a da visita amistosa entre soberanos, assim como a cerimônia da arquearia. O livro apresenta uma descrição dessas construções sociais, assim como traz elaborações acerca de seus significados (Xu & Lao, 2000, p. 2‐4). Afigura‐se‐nos que as informações presentes no capítulo intitulado “O significado da arquearia” (She Yi) sejam relevantes para a proposta do presente estudo.

O capítulo “O significado da arquearia” corresponde a um relato de cerimoniais centrados nas práticas de arco e flecha. Descreve‐se que apenas homens podiam tomar parte na cerimônia, que era feita a par da execução de músicas e de determinados protocolos. A prática da arquearia é, nessa obra, ilustrada como uma atividade que possibilita o autocultivo e como um meio de manifestação das virtudes. A respeito dela, afirma‐se:

Na arquearia há o caminho da humanidade (ren). Antes de atirar, o arqueiro deve assumir conduta e postura corretas, e somente então lançar a flecha. Ao falhar no acerto do alvo, não se deve ter ressentimento para com outro arqueiro que teve êxito, mas sim examinar a si mesmo. Confúcio disse “um homem virtuoso11 não tem competições a fazer, mas se assim for necessário, que seja na arquearia. Uma reverência é feita para com o adversário, para então ascender (ao local da prática de arquearia), e, ao finalizar, deve‐se descer e brindar12 – tal é a competição de um homem virtuoso” (Ibidem, p. 410).

O excerto apresenta esse espaço de práticas corporais ritualizadas como uma possibilidade de manifestação de qualidades dignas de um “homem virtuoso”. A princípio há uma aparente contradição – práticas competitivas não corresponderiam a algo apropriado aos homens virtuosos, no entanto disputas corporais ritualizadas são apresentadas como atividades adequadas para os mesmos. Pode‐se inferir que, dentre outros fatores, isso se deve à compatibilidade entre os aspectos valorizados no pensamento confuciano e a forma como essas atividades podiam ser organizadas. Essas promoviam, nesse contexto, condutas em consonância com determinados protocolos (como a “reverência” para com o adversário e o “brinde” após a partida), assim como o burilamento interno do praticante. A importância do autocultivo fica clara na passagem que afirma que seria necessário, caso haja falha na execução da técnica, um olhar introspectivo, ao invés de permitir a vazão de pulsões instintivas e a projeção de frustrações no adversário.

Respeitar os protocolos cerimoniais, disparar a flecha de acordo com o ritmo da música e acertar o alvo – somente aquele que aprendeu a se controlar, enfim, que passou por um processo de autocultivo, seria capaz. O texto menciona algumas palavras atribuídas a Confúcio: “Confúcio disse – Como pode o arqueiro atirar em sincronia com o que escuta? Atirar de acordo com a música, atirar e não errar o centro do alvo – apenas o virtuoso é capaz! Como poderia o não merecedor o fazer?” (Lu & Lu, 2009, p. 886).

O capítulo relata também que, em determinadas ocasiões, o “filho do céu” selecionava assistentes13 para a participação em importantes rituais sacrificiais e que essa seleção se dava por meio de observações das ações desses sujeitos nos rituais de arquearia. Isso porque, considerava‐se, seria possível observar a conduta e a integridade moral de uma pessoa durante a prática do arco e flecha. Aqueles cuja conduta mais se adequava às exigências da cerimônia, cujas ações eram feitas em conformidade com o ritmo da música e que eram capazes de acertar o alvo por mais vezes poderiam ser escolhidos para a participação em cerimônias sacrificiais, o que era tido como um privilégio. A essas pessoas poderiam também ser concedidas terras. Por outro lado, a repetição frequente de condutas e performances reprováveis no ritual de arquearia poderia significar a perda de territórios (Xu & Lao, 2000, p. 408‐411; Lu & Lu, 2009, p. 882‐885).

Elementos da cultura corporal são, portanto, apresentados em “O significado da arquearia” como compatíveis com os preceitos confucianos e também se associam a atividades de grande importância social. Por meio da prática da arquearia, acreditava‐se, qualidades tidas como virtuosas poderiam ser observadas e referenciais de distinção social (na forma de distribuição de terras, por exemplo) eram concedidos de forma legítima. Além disso, essas atividades físicas estão associadas a protocolos rituais, ao autocultivo e às virtudes características do confucionismo.

Afigura‐se‐nos relevante apontar que de acordo com informações do capítulo “O significado da arquearia”, o próprio Confúcio estaria engajado em atividades corporais ritualizadas. Mais especificamente, o envolvimento de Confúcio na organização de cerimônias nas quais eram feitas atividades de arquearia é mencionado: “Confúcio orientava o ritual de arquearia no jardim de Juexiang14, espectadores aglomeravam‐se à semelhança de uma parede” (Lu & Lu, 2009, p. 883). Em um diálogo presente na obra Registros históricos (Sima et al., 2008, p. 277), Confúcio também teria expressado interesse de praticar a condução de carros puxados por cavalos. Tanto a arquearia quanto a condução de carros puxados por cavalos figuram dentre as Seis Artes confucionistas. A obra Discursos, que será abordada a seguir, traz informações a esse respeito.

A obra Discursos e as práticas corporais ritualizadas como componentes constitutivos das Seis Artes confucianas

A obra confuciana Discursos (Zhonglun), foi originalmente escrita pelo erudito Xu Gan (170‐217 d.C.) no período Han Oriental (25‐220 d.C.). Nessa obra, Xu Gan discorre acerca de um amplo espectro de questões. Fala, por exemplo, a respeito da educação, do cultivo de virtudes e de qualidades morais, do discernimento, da governança e da escolha de aliados. Interessa‐nos tratar aqui do conceito das Seis Artes e de seu papel no processo formativo de uma pessoa, conforme apresentado por Xu Gan.

No primeiro capítulo da obra é possível observar que no pensamento confuciano a prática e o estudo de elementos da cultura corporal estiveram subsumidos em um conjunto de conhecimentos que seriam necessários para a formação de um homem virtuoso. Atividades como a arquearia e a condução de carros puxados por cavalos foram qualificadas dentre os componentes substanciais de um modelo confuciano de processo formativo. Ao abordar a importância do estudo e o papel da educação que a classe aristocrática recebia durante a gestão de soberanos modelares antecedentes a seu tempo, Xu Gan discrimina os conteúdos que considerava como ideais em um processo educacional:

Os homens virtuosos do passado alcançaram grandes virtudes e boa conduta. Os mesmos pereceram, no entanto não foi assim com sua fama, e por quê? Por conta do estudo. Através dele, o pensamento é ampliado. Para um sábio, é o que há de maior importância. No início, as pessoas foram cobertas pelo obscurantismo. Os tesouros se encontravam no escuro e, apesar de serem objetos de anseio dos homens, não puderam ser discernidos até que a luz os iluminasse. O estudo é a luz que ilumina a mente e foi por essa razão que os soberanos do passado estabeleceram uma categoria de educadores responsáveis por ensinar seus filhos e os dos altos dignitários, através da educação nas Seis Virtudes – a sabedoria, a benevolência, a sagacidade, a retidão, a lealdade e a harmonia; nas Seis Condutas – o caráter filial, amigável e pacífico, a cordialidade para com a família da esposa, a confiança e a beneficência; e nas Seis Artes – os ritos, a música, a arquearia, a direção de carros puxados por cavalos, a escrita e a matemática. É por meio destas três áreas que a completude do caminho do homem é alcançada (Xu & Sun, 2014, p. 1).

Nessa passagem, Xu Gan apresenta o estudo do conjunto de conhecimentos que compreende as referidas virtudes, condutas e artes, no qual se inscrevem algumas manifestações da cultura corporal, como um meio que possibilita a descoberta dos “tesouros”, ou seja, as virtudes desejáveis apontadas repetidamente no cânone confuciano.

Após abordar questões como a necessidade da educação e do cultivo moral, assim como da atenção para com a conduta, o autor volta a tratar das Seis Artes15, as quais incluem atividades físicas ritualizadas, no caso a arquearia e a condução de carros puxados por cavalos. Xu Gan descreve as seis artes como uma extensão da essência do homem, um meio que possibilita o desenvolvimento e a manifestação da natureza inerente humana, que é virtuosa: “As artes são os ramos e folhas da virtude, a virtude é a raiz e o tronco dos homens – as artes e a virtude não caminham separadas” (Ibidem, p. 112).

Para o autor, portanto, as virtudes já fariam parte da essência humana, e a exposição a determinadas práticas e ensinamentos poderia favorecer a sua externalização. Através da integração entre as virtudes intrínsecas e o conhecimento das referidas artes, uma pessoa teria condições, portanto, de manifestar sua natureza e tornar‐se um ser humano “completo”: “O cultivo das qualidades internas é somado à aquisição dos conhecimentos; o homem que manifesta sua natureza e os conhecimentos é aquele que encontra sua completude” (Ibidem, p. 115). Apesar da importância conferida às Seis Artes, Xu Gan critica a habilidade particular nessas atividades, por parte de um soberano, em detrimento daquelas mais diretamente relacionadas ao exercício da governança, tidas como prioritárias. Segundo ele, é na habilidade de distinguir o que é importante que reside a sabedoria de um soberano e o “caminho de governança” é fundamental (Makeham & Xu, 1985, p. 228‐233).

Apesar de Xu Gan apresentar uma noção de natureza humana de tom inatista, o que não está presente em obras atribuídas a Confúcio (nesse sentido, Xu Gan se aproxima mais de Mêncio), elementos em comum entre esses dois pensadores podem ser destacados. No que tange à noção de poder em Confúcio, destaca‐se a importância de instilar nas pessoas determinada conduta – o que se associa à performance de práticas rituais. Para esse pensador, por meio da educação é instilada a virtude, que está associada a ações compatíveis com o caminho (dao) que deveria ser seguido. Segundo essa perspectiva, um homem virtuoso que age espontaneamente de acordo com os ritos e com o caminho contribui para a manutenção de uma ordem social nos moldes daquela que teria sido vivida pelos antigos ancestrais chineses (Leezenberg, 2005, p. 139‐157). Segundo relato presente nos Analetos, Confúcio teria afirmado: “Guie‐se no caminho, ancore‐se na virtude e na humanidade e sinta‐se confortável nas artes” (Li, 1999, p. 82). A obra Discursos parece apresentar essa mesma noção de valoração das Seis Artes. Nela, as atividades corporais, juntamente com a escrita, a matemática, os ritos e a música, constituem conhecimentos que teriam uma função catalizadora, que facilitariam a manifestação das qualidades humanas, e, dessa forma, são apresentadas como práticas necessárias e valorizadas. Não obstante, Xu Gan afirma a preeminência das atividades relacionadas mais diretamente à governança.

Conclusão

No que tange à literatura confuciana, considerando as obras Discursos e Registro dos ritos, as manifestações da cultura corporal parecem ser apresentadas como atividades importantes, pois possibilitam o autocultivo e a observância dos protocolos rituais. Ademais, o estudo e o treinamento de determinadas práticas corporais fazem parte da formação de um homem virtuoso. No entanto, um envolvimento excessivo para com essas práticas não é bem visto, na medida em que isso poderia representar obstáculos frente às demandas da boa governança.

Os conteúdos presentes no capítulo “O significado da arquearia”, parte constituinte da obra Registro dos ritos, apontam que para o homem virtuoso, sintonizado com o ideal confuciano, não seria interessante a busca pelo engajamento em disputas competitivas, mas sim a disputa interna, que proporciona o autocultivo, o que pode ocorrer em espaços sociais apropriados, como nas práticas cerimoniais de arquearia.

Na obra Discursos, diferentes formas de cultura corporal – a arquearia e a condução de carros puxados por cavalos – figuram como elementos constitutivos das Seis Artes confucianas. O estudo de um conjunto de conhecimentos do qual as Seis Artes são parte integrante caracterizava o processo formativo de um homem virtuoso. Isso porque, segundo a perspectiva apresentada na obra, o aprendizado e o treinamento de determinados conteúdos, dentre os quais estão inclusas as referidas práticas corporais, possibilitam a manifestação das qualidades de um homem virtuoso, que seriam inerentes ao homem.

Isso posto, apesar de Xu Gan apontar para a preeminência das atividades mais diretamente relacionadas à governança, há muitos elementos nas obras Registro dos ritos e Discursos que apontam para uma consonância entre atividades corporais ritualizadas e o ideário divulgado pela escola confuciana.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesses.

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Ru é um termo que se refere a “erudição” ou “erudito”e que também caracteriza a escola de pensamento Rujiao. Jiao se refere a uma linha de pensamento, doutrina ou religião. O termo Rujiao é de difícil tradução. O termo confucionismo, que é usado em línguas neolatinas, pode levar a crer que Confúcio teria sido o criador dessa linha de pensamento, o que é objeto de debate entre estudiosos (essa questão será abordada no item “O confucionismo e o uso de suas obras pelo sistema educacional chinês no período imperial”). Talvez ruismo, como sugere Eno (1990, p. 7), seja uma tradução mais adequada para Rujiao.

Na China é possível observar, por exemplo, a circulação, dentre as expressões linguísticas usadas popularmente, de máximas oriundas de obras confucianas, como “não se impõe a outras pessoas o que não se deseja para si” (ji suo bu yu, wu shi yu ren), ou “três pessoas caminham, em meio a elas há meu professor” (san ren xing bi you wo shi).

Em sua dissertação “Shaolin à brasileira: estudo sobre a presença e a transformação de elementos religiosos orientais no kung‐fu praticado no Brasil”, Apolloni (2004, p. 146‐151) ilustra o direcionamento confucionista de alguns elementos iconográficos presentes em parte das academias de artes marciais chinesas no Brasil, como, por exemplo, por meio da apresentação de elementos constituintes da “placa da ética e da ancestralidade”, usada por professores brasileiros nesses espaços.

Os dados aqui presentes a respeito da elaboração da obra Registro dos ritos se fundamentam nas informações apresentadas por Xu & Lao (2000, p. 3,4) e serão retomados mais adiante neste estudo.

De acordo com Makeham (1994, p. xi), o pensador Xu Gan nasceu em 170 d.C. e viveu até os 47 anos, durante a dinastia Han Oriental (25‐220 d.C.).

Nos referimos aqui a Lu & Lu (2009) y Xu & Lao (2000).

Termo latino que corresponde a Kong fuzi 孔夫子, que significa “Mestre Kong”. A respeito da trajetória de Confúcio, ver Registros históricos, de Sima Qian (Sima et al., 2008, p. 208).

A obra Analetos, tradicionalmente creditada aos discípulos de Confúcio, que a teriam escrito com base em seus discursos, inclui passagens que relatam que ele próprio teria se apresentado como um transmissor de antigos conhecimentos, e não como um inovador, como ilustra a expressão shuerbuzuo, que denota a transmissão de tradições. Para Li (1999, p.81), Confúcio usou essa expressão para exprimir que seria apenas um narrador, um seguidor da história e da cultura dos antigos. Rosenlee (2006, p. 17‐20) e Yao (2000, p. 16‐21) citam indícios de que a expressão Ru, de Rujiao, “pode ter denotado uma classe que antedata o tempo de Confúcio, constituída por indivíduos que teriam se especializado em práticas cerimoniais”. Nas palavras de Rosenlee, havia “confucionistas antes de Confúcio”.

O pensamento confuciano se tornou a ortodoxia oficial do império chinês através de um decreto, promulgado em 136 a.C. pelo imperador Han Wudi, da dinastia Han Ocidental (206 a.C.‐24 d.C.), sob influência das recomendações do estadista confuciano Dong Zhongshu (Fu, 1993, p. 50).

Esses registros, em sua maioria, haviam sido escritos por confucionistas que viveram entre os últimos anos do Período dos Reinos Combatentes (475‐221 a.C.) e a Dinastia Han Ocidental (206 a.C.‐ 8 d.C.).

Junzi, aqui traduzido como “homem virtuoso”, é uma expressão recorrente em obras confucionistas, que indica uma pessoa cujos atributos são considerados valorosos.

De acordo com Li (1999, p. 33), ao finalizar esse tipo de cerimônia o ganhador, ajoelhado, oferecia uma bebida ao perdedor, que, também ajoelhado, a aceitava.

Eram selecionadas pessoas provenientes de determinados segmentos sociais, como soberanos regionais, ministros, oficiais, ou eruditos (Xu & Lao, 2000, p. 409).

A exegese de Lu Yongmei aponta que Juexiang se refere ao antigo nome de um local situado no território da atual província chinesa de Shandong (Lu & Lu, 2009, p. 883).

O capítulo sete da obra Discursos, intitulado “Registros a respeito das artes”, é dedicado às Seis Artes.

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