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Vol. 40. Núm. 4.Octubre - Diciembre 2018
Páginas 337-444
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Vol. 40. Núm. 4.Octubre - Diciembre 2018
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DOI: 10.1016/j.rbce.2018.03.024
Open Access
Estudo descritivo sobre a ocorrência de teses sobre o esporte nos programas de pós‐graduação no Brasil
Descriptive study about the occurrence of theses on the sport in postgraduate programs in Brazil
Estudio descriptivo sobre la incidencia de las tesis sobre el deporte en los programas de posgrado en Brasil
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Adroaldo Cezar Gayaa,
Autor para correspondencia
acgaya@esef.ufrgs.br

Autor para correspondência.
, Anelise Reis Gayaa, Alberto Reinaldo Reppold Filhoa, Vinícius Denardin Cardosob, Jorge Olímpio Bentoc
a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Escola de educação física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil
b Universidade Estadual de Roraima (UERR), Boa Vista, RR, Brasil
c Universidade do Porto (UP), Faculdade do Desporto, Porto, Portugal
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Tabela 1. Ocorrência de teses por áreas do conhecimento
Tabela 2. Ocorrência de dissertações e teses por cursos de Pós‐graduação na área das ciências sociais humanas e pedagógicas
Tabela 3. Ocorrência de dissertações e teses por cursos de pós‐graduação na área das ciências biológicas e da saúde
Tabela 4. Ocorrência em valores absolutos e percentuais de teses por disciplinas nos cursos de doutorado em educação física
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Resumo

Sobre o olhar analítico às teses de doutorado sobre esporte entre 2010 e 2015 no Brasil o objetivo deste artigo é investigar se há indicadores que permitem visualizar a configuração de saberes científicos que ultrapassem as fronteiras disciplinares. É um estudo descritivo. No banco de teses da Capes e da Biblioteca Digital Brasileira (IBICIT), selecionamos 93 teses. Os resultados sugerem que embora identifiquemos em alguns cursos de doutorado das ciências humanas, sociais e da educação a flexibilização das fronteiras disciplinares, as análises não permitem sugerir a hipótese de que estejamos constituindo conhecimentos transdisciplinares. O conhecimento mantém‐se numa abordagem multidisciplinar, portanto, isolado nos limites entre as fronteiras de seus objetos de estudo.

Palavras‐chave:
Esporte
Pós‐graduação
Conhecimento
Abstract

Over analytical look to doctoral theses on sport in the period between 2010 and 2015 in Brazil, the aim of this paper is to investigate if there are indicators for viewing the configuration of scientific knowledge beyond disciplinary boundaries. It is a descriptive study. The bank of theses from CAPES and the Brazilian Digital Library (IBICIT), we selected 93 theses. The results suggest that although identify in some doctoral programs in the humanities, social and education the flexibility of disciplinary boundaries, the analyzes do not suggest the hypothesis that we are constituted transdisciplinary knowledge. The knowledge remains a multidisciplinary approach so, isolated within the limits of the boundaries of its objects of study.

Keywords:
Sport
Postgraduate
Knowledge
Resumen

En relación con la observación analítica de las tesis de doctorado sobre deporte en el período entre 2010 y 2015 en Brasil, el objetivo de este artículo es investigar si hay indicadores que permitan visualizar la configuración de saberes científicos que sobrepasen las fronteras disciplinarias. Se trata de un estudio descriptivo. En el banco de tesis de la CAPES y de la Biblioteca Digital Brasileña (IBICIT) seleccionamos 93 tesis. Los resultados sugieren que, aunque identificamos la flexibilización de las fronteras disciplinarias en algunos cursos de doctorado de ciencias humanas, sociales y de la educación, los análisis no permiten sugerir la hipótesis de que estamos formando conocimientos transdisciplinares. El conocimiento se mantiene en un enfoque multidisciplinario, aislado en los límites entre las fronteras de sus objetos de estudio.

Palabras clave:
Deporte
Posgrado
Conocimiento
Texto Completo
Introdução

A partir do olhar analítico às teses de doutorado sobre esporte entre 2010 e 2015 no Brasil, os objetivos deste artigo são os seguintes: (1) descrever as áreas do conhecimento, as principais linhas de pesquisa, as disciplinas, os cursos; (2) investigar se há indicadores que permitam visualizar a configuração de um saber cientifico que ultrapasse as fronteiras disciplinares.

Interessa‐nos, sobretudo, identificar se há algum indício de complementaridade entre as áreas do conhecimento. Vamos denominar esse processo de hibridização de saberes.

A relevância desse processo de hibridização de saberes parte de nosso entendimento de que o esporte é uma manifestação cultural da maior relevância na sociedade contemporânea, é um fenômeno essencialmente antropológico. Assim, exige, para ser devidamente interpretado pelo conhecimento científico, ligar‐se a todas as dimensões do homem, tanto à dimensão biológica como às dimensões cultural, social, histórica e pedagógica. Entretanto, produzimos esse modelo híbrido de conhecimentos?

Procedimentos metodológicos

Trata‐se de um estudo descritivo e especulativo. Transita entre a ciência e a filosofia. As teses de doutorado sobre o esporte defendidas no Brasil, entre 2010 a 2015, foram selecionadas no Banco de Teses do Portal da Capes e da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertação (IBICIT). As buscas foram efetivadas a partir das palavras‐chave “esporte e esportes”. Foram encontradas 123 teses, todavia apenas 93 delas relacionavam‐se diretamente com conteúdos sobre o esporte (acesso em 22/07/2015).

Vamos proceder às análises em dois momentos distintos, mas complementares. No primeiro vamos analisar e interpretar o perfil da produção científica nas diversas áreas do conhecimento. Tratamos de identificar a dimensão multidisciplinar na produção científica sobre o esporte. No segundo momento vamos analisar detalhadamente as teses dos programas e cursos de doutorado em educação física1. Tratamos de delinear o perfil de sua produção científica para identificar como se desenha sua identidade epistemológica.

Principais resultados (o mapa da multidisciplinaridade)

Nesse contexto analisamos as teses de doutorado provenientes das diversas áreas do conhecimento. Nosso olhar foi panorâmico e nosso objetivo foi descrever a ocorrência das teses sobre esportes provenientes dos cursos de doutorado no Brasil. Constituímos as seguintes áreas do conhecimento: educação física; ciências sociais, humanas e da educação; ciências biológicas e da saúde; administração, gestão e direito; ciências da computação; planejamento energético e desenvolvimento tecnológico.

As áreas de conhecimento foram construídas a posteriori. Após termos identificado as teses sobre esporte, constituímos as áreas pelo critério de afinidade (sintonia de ideias, objetivos e abordagem). A educação física constitui‐se em área específica, por entendermos que as características dos cursos de doutorado seriam mais propícias a atender preocupações relativas às ciências aplicadas ao esporte.

Perfil multidisciplinar das teses sobre esporte no Brasil

A tabela 1 e a figura 1 descrevem em valores absolutos e percentuais a ocorrência de teses por áreas do conhecimento classificados a partir dos programas ou cursos de doutorado no Brasil.

Tabela 1.

Ocorrência de teses por áreas do conhecimento

Áreas do Conhecimento  Valores Absolutos  Valores Percentuais 
Educação física  38  40,86 
Ciências sócias, humanas e pedagógicas  31  33,33 
Ciências biológicas e da saúde  18  19,35 
Administração/gestão e direito  3,22 
Ciências da computação  1,07 
Planejamento energético  1,07 
Desenvolvimento tecnológico  1,07 
Figura 1.
(0,08MB).

Ocorrência em valores percentuais das teses por área disciplinar.

À primeira vista, os resultados sugerem que as teses sobre esporte, embora a maioria seja oriunda dos cursos de doutorado em educação física (40,86%), atravessam um conjunto de subáreas do conhecimento. A transversalidade da produção das teses por diversos campos disciplinares fica mais evidente quando descrevemos a ocorrência das teses por cursos de doutorado nas áreas das ciências humanas, sociais e educação (tabela 2).

Tabela 2.

Ocorrência de dissertações e teses por cursos de Pós‐graduação na área das ciências sociais humanas e pedagógicas

Pós‐graduação  Valores absolutos  Valores percentuais 
Educação  22,58 
Antropologia  6,45 
Sociologia  12,90 
Psicologia  16,10 
Serviço social  6,45 
Comunicação  6,45 
Teologia  3,22 
História  12,90 
Letras/linguagem  9,67 
Artes  3,2 

As ocorrências das teses sobre esporte nos cursos de doutorado na área das ciências humanas, sociais e da educação são razoavelmente frequentes. Observa‐se que os cursos de educação e psicologia produziram em torno de uma tese por ano entre 2010 a 2015. Todavia, é importante salientar que a maior parte dessas teses é produzida por professores de educação física que, por diversos motivos, optaram por fazer seus doutorados nesses cursos. Além da educação e da psicologia, têm representatividade os cursos de história e sociologia com pouco menos de uma tese por ano entre 2010 e 2015.

Esses dados permitem duas interpretações:

  • (1)

    Sugerem que o esporte é considerado um tema que se reveste de relevância para os pesquisadores das ciências sociais, humanas e da educação. Ao constituir‐se num fenômeno cultural de enorme repercussão em nossa sociedade contemporânea, com ampla divulgação nos meios de comunicação, como tema de debate cotidiano no seio das populações, como instrumento de educação e desenvolvimento humano, como manifestação artística, o esporte tem tido um razoável reconhecimento como tema das pesquisas nos cursos de doutorado nas ciências sociais, humanas e da educação.

  • (2)

    Ainda, os dados sugerem que o fenômeno esporte tem sido tema de teses em áreas do conhecimento mais abrangentes, como, por exemplo, nos cursos de serviço social, artes, teologia, letras e linguagem. O mapa da produção científica sobre o esporte em relação ao mapa de 20 anos atrás (Gaya,1994) ganha novas abordagens disciplinares.

A tabela 3 apresenta a ocorrência de dissertações e teses por cursos de doutoramento das ciências biológicas e da saúde no Brasil. Nessa descrição, em princípio, nos surpreende o fato de que a ocorrência das pesquisas biológicas e da saúde, manifestadamente tão forte quando se analisam artigos publicados em periódicos (Lazzaroti Filho, Silva, Nascimento e Mascarenhas, 2012; Rosa e Leta, 2010; Souza, 2011; Lüdorf, 2002), fica aquém (um pouco mais da metade) da ocorrência das pesquisas nas ciências sociais, humanas e da educação. Esses resultados, de certa forma, contradizem o senso comum que recursivamente atribui às ciências da saúde e biológicas uma maior relevância e maior ocorrência de estudos no âmbito das ciências aplicadas ao esporte.

Tabela 3.

Ocorrência de dissertações e teses por cursos de pós‐graduação na área das ciências biológicas e da saúde

Pós‐graduação  V. Absolutos  V. percentuais 
Medicina e Ciências da saúde  38,88 
Bioquímica  22,22 
Biológicas  16,66 
Saúde pública  11,11 
Genética  5,55 
Nutrição  5,55 

Em relação às demais áreas do conhecimento: na área de administração e gestão localizamos três teses, duas na Fundação Getúlio Vargas e outra na UFPR, duas delas tratam do tema marketing esportivo e outra dos modelos de governança em organizações esportivas. Nas ciências da computação identificamos uma tese sobre análise de jogo na Universidade Estadual de Campinas.

Hibridismo disciplinar nas teses sobre o esporte no Brasil

Definimos como hibridismo disciplinar o processo de mistura, junção ou transferência de diferentes matrizes disciplinares, caracterizado pela mistura de culturas e pluralizaço de conhecimento. Em outras palavras, com a expressão hibridismo disciplinar pretendemos demonstrar que as fronteiras das disciplinas científicas e áreas do conhecimento são permeáveis e, como tal, permitem o livre trânsito de pesquisadores entre as disciplinas. Os conceitos de hibridismo e fronteiras disciplinares têm referências em autores como Dussel (2002); Canclini (2003); Burke (2007) e Gadini (2013).

Portanto, a questão a investigar é a seguinte: qual a dimensão da hibridização nas teses sobre esporte no Brasil? Vejamos algumas evidências, primeiramente analisaremos áreas das ciências sociais, humanas e da educação e posteriormente as áreas das ciências biológicas e da saúde.

Analisemos os conteúdos das teses sobre esporte dos cursos de doutorado em educação. São sete: quatro da história de instituições esportivas; duas abordam políticas públicas em pequenos municípios e uma sociologia do esporte.

Especificamente sobre pedagogia do esporte, absolutamente nada. Aliás, a reduzida produção de pesquisa científica na área pedagógica do esporte já fora detectada por Rufino e Darido (2011) em alguns dos principais periódicos nacionais. Portanto, seria o doutorado em educação o espaço mais adequado para a produção dessas teses? Ou deveremos considerar como positivo esse trânsito entre fronteiras? Nos programas de antropologia identificamos duas teses, uma delas bem demarcada no âmbito da antropologia social e uma terceira tese que se relaciona muito proximamente com as políticas públicas. Nos cursos de história, as quatro teses analisadas estão bem identificadas com a área de conhecimento. Nos cursos psicologia das cinco teses analisadas duas tratam de conteúdos relacionados claramente à sociologia e uma delas trata da história da psicologia. No curso de artes visuais uma tese sobre surfe é bem identificada com a área do conhecimento.

Na área das ciências biológicas e da saúde não identificamos o fenômeno da hibridização, as teses estão bem localizadas em sua área de conhecimento. O mesmo ocorre com as quatro teses dos cursos de bioquímica, duas em saúde pública, uma em genética e nutrição. A hibridização, da mesma forma, não se manifesta nas áreas da administração e computação.

Portanto, concluiu‐se dessas observações que o fenômeno de hibridização disciplinar é uma característica dos cursos de doutorado em educação e, com menor ocorrência, nos cursos de antropologia e psicologia. No entanto, talvez caiba ressaltar uma constatação interessante: entre os autores das teses sobre esportes nos cursos de doutorado em educação, antropologia e psicologia predominam profissionais de formação de graduação em educação física, o que, provavelmente, pode estimular o processo hibridismo disciplinar.

Provavelmente professores de educação física, que por algum motivo não ingressam nos cursos de sua especialidade, são acolhidos nesses programas. Por sua vez, esses programas permitem uma ampla abordagem de temas sobre o esporte, que, todavia, vão além de suas fronteiras disciplinares. O fato de professores de educação física produzirem tese, por exemplo, em políticas públicas sobre o esporte pode ser confirmado pelo estudo de Ferreira et al. (2013) que demonstra que os estudos sobre sociologia do esporte não são publicados nas revistas de sociologia, e sim nas revistas da área da educação física.

Por suposto, especulando a partir dos resultados até aqui descritos, parece pertinente inferir que: (1) a produção das teses sobre os esportes nos diversos cursos, nos quais, todavia, não incluímos os cursos de educação física, é uma prática marcadamente multidisciplinar. Embora haja indícios de que o esporte tem se constituído tema de interesse num leque de disciplinas mais abrangentes, podemos conjecturar que seus resultados limitam‐se a produzir conhecimentos específicos relacionados exclusivamente às disciplinas de origem; (2) Não obstante, constatamos na área das ciências sociais, humanas e da educação uma maior permeabilidade entre as fronteiras disciplinares, na medida em que alguns cursos, como educação, psicologia e sociologia, acolhem estudantes cujas teses não se enquadram claramente como objeto de estudo dessas disciplinas. Todavia, é difícil avaliar até que ponto essa permeabilidade traz vantagens à produção do conhecimento complexo ou se representa apenas uma abertura para que alguns pesquisadores atravessarem as fronteiras disciplinares, sem, no entanto, abrir mão de sua identidade disciplinar (passaporte) de origem.

Hibridismo disciplinar nas teses sobre o esporte nos cursos de doutorado em educação física no Brasil

Oliveira, Castro & Lüdorf (2012), tendo como referência o doutorado em educação física da Universidade de São Paulo, referem que as teses sobre esportes correspondem a 20% da produção científica. Embora não possamos assumir os dados da USP como representativos dos programas de doutorado do Brasil, acreditamos que são bons indicadores para expressar a relevância do esporte como objeto de estudo científico nos doutorados em educação física.

A figura 2 apresenta os resultados em valores percentuais das teses de doutorado sobre esporte dos cursos de educação física no Brasil por áreas de conhecimento.

Figura 2.
(0,08MB).

Ocorrência em valores percentuais das teses por área disciplinar.

A prevalência relativa de teses sobre o esporte nos cursos de doutorado em educação física no Brasil é proveniente da área das ciências humanas, sociais e da educação. É um resultado que surpreende os autores, tendo em vista que nos debates acadêmicos normalmente se afirmam discursos que supervalorizam as áreas biológicas e da saúde (Lazzaroti Filho, Silva, Nascimento e Mascarenhas, 2012; Rosa e Leta, 2010; Souza, 2011). Embora, considerando que nosso estudo esteja limitado a análise das teses de doutorado, os resultados contradizem os dados de Rosa e Leta (2010) sobre a produção em periódicos nacionais, nos quais, segundo os autores, predominam os artigos em fisiologia. Da mesma forma contradizem os resultados de Souza (2011), que até anunciava o fim das humanidades no campo científico da educação física.

Nota‐se que as teses sobre esporte oriundo das áreas biológicas e da saúde correspondem a 1/3da produção das áreas das humanidades, sociais e da educação. Por outro lado, a área do treinamento esportivo, uma área típica das ciências aplicadas ao esporte, surpreende pela baixa ocorrência de teses.

As áreas de gestão e tecnologia surgem como áreas emergentes e com temas bem delimitados. A emergência das pesquisas em gestão foi também demonstrada por Amaral, Ribeiro & Silva (2014). A tabela 4 apresenta os resultados em valores absolutos e em percentagens das 38 teses provenientes dos cursos de doutorado em educação física por área disciplinar.

Tabela 4.

Ocorrência em valores absolutos e percentuais de teses por disciplinas nos cursos de doutorado em educação física

Disciplinas  Valores absolutos  Valores percentuais 
Sociologia  23,68 
Psicologia  18,42 
Pedagogia  10,52 
Antropologia  5,26 
História  2,63 
Fisiologia  13,1 
Biomecânica  5,26 
Treinamento Esportivo  5,26 
Genética  2,63 
Saúde  2,63 
Tecnologia  2,63 
Gestão  5,26 

Na área das ciências humanas, sociais e da educação dos cursos de doutorado em educação física os estudos sociológicos são predominantes (23,68%), abordam temas como políticas públicas, gênero e imaginário social. Temas em psicologia (18,42%) tratam de investigar construtos como motivação, autodeterminação nos esportes e imagem corporal. Em pedagogia (10,52%) as teses tratam do esporte como conteúdo da educação física escolar, efeitos do feedback visual, a formação profissional. Os estudos em antropologia (5,26%) referem‐se as concepções sobre o corpo e na história (2,63%), estudos biográficos.

Na área das ciências biológicas e da saúde predomina a fisiologia (13,5%), com temas relacionados a respostas fisiológicas ao exercício, efeitos da suplementação de leucina, efeitos agudos de suplementação de L‐argina, desempenhos de exercícios físicos em ambientes termoneutros e quentes. Em biomecânica (5,26%), estudos sobre calçados esportivos e cinemática em esportes. Em genética (2,63%), estudos sobre polimorfismo e desempenho esportivo. Em saúde (1%), estudos sobre perfis populacionais e hábitos de vida saudável. Em treinamento esportivo, uma área específica das ciências aplicadas ao esporte (5,26%), estudos sobre a eficácia de modelos distintos de programas de treino.

A primeira constatação importante que se pode inferir da análise dos dados sobre as teses que tratam do esporte nos cursos de doutorado em educação física no Brasil é a falta de uma matriz epistemológica bem demarcada dos cursos de doutorado. Tais cursos, pelo que se pode deduzir de sua produção científica, não apresentam uma clara identidade epistemológica. As teses feitas nos doutorados em educação física poderiam, em grande número, ser apresentadas aos cursos de doutorado em educação, sociologia, antropologia, psicologia, história e fisiologia.

No âmbito do esporte, por exemplo, era de se esperar que as teses tratassem de questões específicas sobre as práticas esportivas. Tratassem prioritariamente das práticas pedagógicas, das habilidades motoras relacionadas às técnicas esportivas, da estrutura de programas de aprendizagem esportiva e do treinamento esportivo. Enfim, que as questões relacionadas ao desempenho esportivo tivessem prioridades. No entanto, não é o que pudemos verificar. Das 38 teses, apenas duas investigaram treinamento esportivo e duas pedagogia do esporte, as demais migram para temas e objetivos que, embora tenham o esporte como espaço de pesquisa, tratam de temas de interesse das disciplinas de origem (a sociologia, a psicologia, a fisiologia, a antropologia, a gestão etc.).

A segunda constatação interessante refere‐se ao fato de que a produção de teses sobre o esporte nos cursos de doutorado em educação física é predominantemente apresentada na área das ciências humanas, sociais e pedagógicas. Esse resultado nos surpreende, posto que, nos programas de doutorado em educação física no Brasil há um dualismo muito presente entre as áreas biológicas e da saúde com as áreas das humanidades, sociais e pedagógicas e o discurso dominante tende a supervalorizar as áreas biológicas e da saúde (Souza, 2011; Lazzaroti Filho, Silva, Nascimento e Mascarenhas, 2012; Rosa e Leta, 2010). Considere‐se que os programas de doutorado em educação física situam‐se na área 21da Capes, inserida na área da saúde. Portanto, essa evidência nos permite conjecturar que nas pesquisas nas áreas das ciências biológicas e da saúde nos cursos de educação física o esporte não ocupa lugar de relevância como objeto ou espaço de investigação científica. Esses resultados, por outro lado, são fortes argumentos para justificar a hipótese de que os cursos de doutorado em educação física no Brasil não apresentam uma clara demarcação epistemológica.

Conclusão

A partir dos dados e das interpretações que enunciamos no decorrer deste ensaio, concluímos:

as teses sobre esporte, embora a maioria seja oriunda dos cursos de doutorado em educação física, estão presentes em diversas áreas do conhecimento. Principalmente na área das ciências humanas, sociais e da educação e na área das ciências biológicas e da saúde. No entanto, além dessas áreas, que são tradicionalmente vinculadas às pesquisas sobre esportes, identificam‐se novas abordagens disciplinares, como teses em genética, administração, marketing, teologia, computação, assistência social, comunicação, letras, artes e planejamento energético.

A ocorrência das pesquisas sobre esporte é significativamente maior nos cursos filiados às ciências humanas, sociais e da educação em comparação com as ciências biológicas e da saúde.

Nos cursos de doutorado em educação, sociologia, psicologia e antropologia verifica‐se o trânsito de pesquisadores entre diversas disciplinas. O hibridismo disciplinar. Nesses cursos, as fronteiras das disciplinas científicas e áreas do conhecimento são mais permeáveis e são, na maioria dos casos, de autoria de professores de educação física, que fazem seus doutoramentos em áreas das ciências humanas, sociais e da educação, fato que, talvez, possa justificar essa hibridização disciplinar.

Em relação às teses especificamente apresentadas aos cursos de doutorado em educação física, observa‐se a predominância das teses filiadas às ciências humanas, sociais e da educação em relação às teses das áreas biológicas e da saúde. Essa evidência talvez permita conjecturar que o tema esporte não ocupe lugar de relevância como objeto ou espaço de investigação científica nas ciências biológicas e da saúde.

Os resultados encontrados podem justificar a hipótese de que os cursos de doutorado em educação física no Brasil, quando tratam de investigar sobre o esporte, não apresentam uma clara demarcação epistemológica. Como referiu Reppold Filho (2000), as ciências aplicadas ao esporte sequer se constituem num modo distinto de propor, testar e responder questões. Não compõem um sistema integrado de teorias e procedimentos relacionadas ao esporte. Não delimitam um campo específico de investigação científica. O esporte parece ser apenas o lócus no qual pesquisadores exercitam seu fazer científico disciplinar, todavia sem efetiva colaboração com os temas diretamente relacionados ao esporte.

Por fim, as análises sobre os temas e conteúdos não permitem sugerir a hipótese de que constituímos conhecimentos complexos, ou seja, em movimento, com a capacidade de tradução e reconstrução, análise e síntese, como afirmam Morin (2003) e, especificamente sobre o tema das ciências do esporte, Gaya (1994, 2014) e Cunha e Silva (1999). O conhecimento se mantém numa abordagem multidisciplinar, portanto isolado nos limites de seus objetos de estudo, tal como há 20 anos.

Financiamento

O presente trabalho contou com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) na modalidade Bolsa Produtividade.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Neste ensaio subentende‐se por teses provenientes da área da educação física aquelas também oriundas dos cursos em ciências do movimento humano, ciências da motricidade humana, ciências do esporte, ciências do exercício físico etc.

Idiomas
Revista Brasileira de Ciências do Esporte

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