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Vol. 38. Núm. 3.
Páginas 220-226 (Julio - Septiembre 2016)
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Vol. 38. Núm. 3.
Páginas 220-226 (Julio - Septiembre 2016)
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DOI: 10.1016/j.rbce.2015.12.009
Open Access
Gregório Bezerra: professor de educação física, revolucionário, comunista e torturado nas duas ditaduras do Brasil
Gregório Bezerra: Physical Education teacher, revolutionary, communist and tortured in two dictatorships in Brazil
Gregório Bezerra, profesor de educación física, revolucionario, comunista y torturado en las dos dictaduras de Brasil
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Giovanni Felipe Ernst Frizzo
Universidade Federal de Pelotas, Escola Superior de Educação Física, Pelotas, RS, Brasil
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Resumo

O presente artigo busca recontar a história de Gregório Bezerra, cuja trajetória é marcada pelo seu envolvimento no movimento comunista ao longo do século XX, por meio de um aspecto singular de sua vida: o fato de ser professor de educação física, formado num período fortemente marcado pela tendência militarista. Com essa passagem do personagem central deste texto, buscamos relacionar o trato com a historiografia na educação física por meio de tendências e contratendências.

Palavras‐chave:
Educação Física
História
Historiografia
Militarismo
Abstract

This article seeks to retell the story of Gregory Bezerra, whose career is marked by his involvement in the communist movement throughout the twentieth century, through a singular aspect of his life: the fact of being a physical education teacher, formed a period strongly marked by militaristic trend. Through this passage the central character of this text, resignify the deal with historiography in Physical Education through trends and counter‐trends.

Keywords:
Physical Education
History
Historiografy
Militarism
Resumen

El presente artículo tiene como objetivo contar la historia de Gregório Bezerra, cuya trayectoria estuvo marcada por su implicación en el movimiento comunista a lo largo del siglo XX gracias a un aspecto singular de su vida: el hecho de ser profesor de educación física, formado en un período fuertemente marcado por la tendencia militarista. Por medio de esta experiencia del personaje central de ese texto, buscamos replantear el trato con la historiografía en educación física a través de las tendencias y las contratendencias.

Palabras clave:
Educación física
Historia
Historiografía
Militarismo
Texto completo
Introdução

Gregório Bezerra é um daqueles personagens da história política brasileira que fizeram de sua vida uma luta contínua e incessante por um projeto de sociedade opcional ao sistema do capital. Ainda assim, como outros tantos personagens que lutaram pelo povo brasileiro, Gregório permanece esquecido dos livros didáticos de História do Brasil, somente lembrado por aqueles que identificam na sua luta motivos para seguir seu legado histórico.

Em um primeiro momento, pode parecer estranho ao leitor que estejamos tratando com a temática biográfica de um militante revolucionário, comunista, preso e torturado nas duas ditaduras que ocorreram no Brasil durante o século XX – ditadura Vargas durante o Estado Novo (1937‐1945) e a ditadura empresarial‐militar de 1964 – em uma revista destinada à produção do conhecimento na área da educação física (EF), porém um aspecto bastante singular da trajetória de Gregório nos suscita a refletir sobre os aspectos mais gerais para compreender a história: ele era formado pela Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx) e trabalhou como professor em instituições militares no início da década de 1930. Certamente que esse fato não pode ser considerado como o mais expressivo e determinante na trajetória do militante comunista, porém para a análise histórica esse aspecto singular nos instiga por um caminho da historiografia da própria educação física e se diferencia de perspectivas que não compreendem relações de determinações recíprocas, e não unilaterais e lineares.

Sob essa perspectiva, o texto objetiva compreender a trajetória de um professor de educação física, militante comunista, que viria a tornar‐se um dos principais líderes revolucionários da década de 1930 e teve sua formação em uma instituição que mais expressava o caráter reacionário dos militares e dos fundamentos da educação física nesse período – conhecido como período da educação física “militarista” (Ghiraldelli Júnior, 1987).

Como instrumento de coleta de informações, usamos a análise documental e demos prioridade ao material produzido pelo próprio “personagem”. A fonte de pesquisa empírica foi a obra autobiográfica de Gregório Bezerra, organizada em dois tomos (Bezerra, 2011), que relata a sua prisão e tortura em 1964 (Bezerra, 1967), e uma entrevista publicada no jornal O Pasquim de 10 de outubro de 1980, em que faz um relato de sua vida até a sua prisão e tortura em 1964. Essa opção deveu‐se à compreensão de que a história contada pelo próprio personagem pode ser aprofundada por meio da produção do conhecimento no campo da história da educação física e permite relacionar elementos de fundamentação para essa mesma produção. Destacamos também o fato de que não há registro sobre sua trajetória de professor de educação física além de seus relatos pessoais indicados nas fontes usadas.

É possível afirmar que a história da educação física brasileira acompanha a sua formação social desde o século XIX (Soares, 1996) e o desenvolvimento do capitalismo originado ainda no período colonial – tal como demarca Caio Prado Júnior (1978). Sendo tema de uma vasta produção científica, diversos autores enveredaram pelos diferentes processos nos quais a educação física foi se metamorfoseando ao longo do século XX, acompanhando as mudanças na estrutura social brasileira e o caráter do Estado. Destacamos como estudos dessa natureza Castellani Filho (1988) e Goellner (1992). Porém, nos parece que a obra de Ghiraldelli Júnior (1987) nos oferece uma compreensão mais elaborada das principais tendências da educação física.

Nos seus estudos sobre a história da educação física, o autor sistematiza cinco tendências: higienista (até 1930), militarista (1930‐1945), pedagogicista (1945‐1964), competitivista (pós‐1964) e tendência popular (período atual). Ao tratar de tendências, o autor deixa claro que não são arbitrárias essas classificações, porque

elas procuram revelar o que há de essencial em cada uma dessas tendências. Também é necessário ressaltar que a periodicidade exposta deve ser entendida com cautela. Isso porque, de fato, tendências que se explicitam numa época estão latentes em épocas anteriores e, também, tendências que aparentemente desaparecem foram, em verdade, incorporadas por outras (Ghiraldelli Júnior, 1987, p. 16).

A primeira observação que fazemos a respeito dessa perspectiva é que se está operando com a lógica da negação da negação, em que as rupturas incorporam os elementos superados, continuidades e descontinuidades caminham juntos, mas não de forma estanque. Pelo contrário, estão em movimento.

Um segundo aspecto é que se está tratando de tendências, portanto não são imposições alijadas de qualquer opção imprimida pelos sujeitos e pelas organizações durante cada período. Ao sistematizar uma tendência é preciso levar em conta que há determinações expressas e manifestas de forma hegemônica, o que não significa que todos a reproduzam de maneira domesticada. Assim, a crítica de Oliveira (2002, p. 54) de que essa perspectiva historiográfica “desenvolveu uma estreita interpretação que imputa à educação física escolar uma função de reprodução do ideário oficial” perde o sentido, pois esse autor opera com a lógica formal ao interpretar as tendências. Chega ao ponto de afirmar que “essa visão [da história] está fortemente influenciada pela perspectiva de um a priori estrutural –economicista nas relações do governo com a sociedade, atua aquele como mediador dos interesses entre o capital e o trabalho, para garantir a acumulação ampliada do primeiro” (Oliveira, 2002, p. 54).

O Brasil e a EF nas primeiras décadas do século XX

A formação social, a estrutura de classes e o papel do Estado são três aspectos que nos ajudam a analisar determinado período da história e compreender as manifestações particulares. Assim, o início do século XX no Brasil é demarcado por modificações importantes, principalmente no campo político e econômico, que representaram saltos qualitativos no processo em curso iniciado já no período colonial de desenvolvimento do capitalismo. A partir de Prado Júnior (1978), a história brasileira foi remontada por um viés diferenciado dos historiadores que o antecederam, no sentido de compreender as continuidades e rupturas, os movimentos internos atrelados aos processos em escala globalizada. Isso é, a partir desse autor, vamos compreender que o capitalismo no Brasil se desenvolveu de uma forma “não clássica”, diferentemente do modo experimentado por Inglaterra e França. Prado Júnior (1978) aponta que o caráter original da economia brasileira não surgiu da manufatura e do desenvolvimento de uma burguesia nacional em oposição ao feudalismo, pois desde os tempos de colônia ou do “descobrimento” a economia política consistiu na estruturação da produção para o atendimento de necessidades voltadas essencialmente para o mercado exterior. Essa origem da produção constituiu a base da inserção e dominação imperialista no país. Por essa razão, essa forma econômica introduziu o Brasil desde o princípio no sistema internacional do capital, de forma desigual e combinada,1 o suposto “atraso econômico” (ou o subdesenvolvimento) articulado à totalidade do modo de produção se tornou necessário para o seu desenvolvimento (percebe‐se, aqui, uma perspectiva de relações entre tendência e contratendência no campo da economia política).

Na análise da estruturação das classes dessa época, a dominação externa e as exigências de produção de mercadorias para a Europa desenvolveram um sistema agrário de grandes propriedades e da monocultura (açúcar, café e pecuária, principalmente), sob a base do trabalho escravo e de um número residual de trabalhadores assalariados, cujos proprietários (dos latifúndios e dos escravos) constituíram‐se como classe dominante e exercenram seu poder por meio da coerção econômica e política com os aparatos criados pela colônia portuguesa e também pela própria elite agrária. No início do período republicano, embora tenha ficado conhecido pela política do “café com leite”, o papel da elite agrária de Minas Gerais, assim como do Rio de Janeiro, foi secundarizado em relação à força dos latifundiários paulistas do café, como demarca Prado Júnior (1978, p. 177): o “café deu origem, cronologicamente, à última das três grandes aristocracias do país, depois dos senhores de engenho e dos grandes mineradores, os fazendeiros de café se tornaram a elite social brasileira. E, em consequência (uma vez que o país já era livre e soberano), na política também”.

O desenvolvimento das forças produtivas no campo articulado ao início da produção industrial e a necessidade de constituir‐se agora como república produziram conflitos de significativo impacto na estrutura do Estado. A constituição da ainda inexpressiva burguesia nacional se lançava à disputas com a elite aristocrática por mais espaço no poder político do país, ao mesmo tempo em que a abolição do trabalho escravo foi, aos poucos, criando uma nova classe assalariada: o proletariado.

É por meio da organização dessa classe que Gregório teve o seu primeiro contato com as ideias comunistas: “Foi em 1917, em consequência do jovem movimento bolchevique na União Soviética [...]. Nesse período eu já era ajudante de pedreiro e participei de manifestações de rua por jornadas de trabalho de oito horas, por melhores condições de trabalho, aumento de salário e solidariedade ao jovem regime que surgia numa sexta parte do mundo” (O PASQUIM, 1979, s.p.).

Esse conflituoso período pelo qual passava o Brasil também foi de mudanças importantes no próprio modo de vida da população, no qual o discurso higienista e da eugenia ganhavam espaço. A educação física, sob forte influência dessa perspectiva, vai ser tratada como uma questão de saúde pública e “como um projeto de assepsia social que buscava excluir da sociedade os maus hábitos de saúde e moral. Portanto, através do esporte, da ginástica e dos exercícios físicos, buscava‐se disciplinar os corpos e as mentes em torno desse ideal do corpo robusto e livre de vícios que, supostamente, colocavam em risco a saúde pública e coletiva” (Ghiraldelli Júnior, 1987, p. 17).

A exacerbação do ufanismo nacionalista jogava para as instituições militares um papel importante não somente na “defesa da pátria”, mas também de controle ideológico coercitivo aliado à ideia de modelo de ser humano a ser seguido por toda a população, estreitando a relação entre as instituições militares e a introdução da educação física no Brasil já no começo do século XX. Para Castro (1997, p. 3), a “vinculação entre a EF e a defesa nacional era muito estreita. A EF era vista pelo Exército e por amplos setores do Estado e da sociedade como uma atividade militar”.

Em meio às transformações e disputas pelo poder político, a hegemonia burguesa da elite agrária de São Paulo buscou também consolidar‐se por meio do aparato militar. Em 1906 é contratada a Missão Militar Francesa2 para treinar a Força Pública de São Paulo. Essa Missão consistia em um pequeno exército francês com o objetivo de formar a polícia paulista com os preceitos existentes na Europa, dominados pela “nação em armas”, nos quais as forças armadas, além da defesa da pátria, deveriam ser uma espécie de “escola de nacionalidade” (Castro, 1997). Dentre as diversas ideias que os franceses trouxeram, a educação física era uma das propostas primordiais para a formação do caráter militarizado do indivíduo. Decorrente dessa relação, o Método Francês trazido pela Missão tornou‐se hegemônico na educação física brasileira nas primeiras décadas do século XX, tanto nas instituições militares quanto nas civis.

Sob essa influência, a Força Pública no Estado de São Paulo cria em 1910 a Escola de Educação Física, o mais antigo estabelecimento especializado do país (Castellani Filho, 1988). Ainda nessa estreita relação, em 1922 é publicada uma portaria do Ministério da Guerra que criava o Centro Militar de Educação Física (CMEF) junto à Escola de Sargentos de Infantaria, no Rio de Janeiro. No CMEF não foi possível a conclusão da primeira turma de instrutores, pois a instituição foi fechada ainda no mesmo ano em razão do levante do movimento tenentista no Forte de Copacabana.3 Em 1929 foi feito um curso provisório de formação em convênio com a administração do Distrito Federal (o Rio de Janeiro na época), no qual um dos principais responsáveis pelo curso foi Fernando de Azevedo, que exercia a função de Diretor de Instrução Pública do Distrito Federal. Embora civil, sua relação com os militares também se expressou no fato de que 20 professores da rede pública de educação foram selecionados à participar do curso militar de formação, junto a 10 oficiais e 28 sargentos. Em 1930, o CMEF é reaberto na Fortaleza de São João, na Urca, onde começa a oferecer os cursos de instrutor, de especialização e de monitor. É nesse ano que Gregório se matricula no curso de formação de sargentos instrutores de educação física, concluído somente em 1933, quando o CMEF passou a ser EsEFEx, reconhecidamente a primeira escola de formação em nível superior de educação física.

Esses primeiros cursos tiveram como principais expoentes alguns tenentes envolvidos com o movimento tenentista da década de 1920 (Melo, 2007) e que, aliados às forças políticas de Getúlio Vargas e à burguesia industrial, contribuíram para o golpe de 1930. Já se gestava o “embrião” do Estado Novo que viria a seguir, caracterizado pela centralização do poder, pelo nacionalismo exacerbado, anticomunismo e autoritarismo, preconizava para a educação física a ideia de que as práticas de ginástica, jogos e esportes tivessem a incumbência de formar um cidadão‐soldado, preparado para defender a pátria, estereotipava comportamentos e padronizava hábitos e atitudes que visassem à exaltação da pátria brasileira e de seu povo. É nesse contexto da relação entre militares, Estado e educação física que Gregório vai fazer seu curso de formação de sargento instrutor de educação física.

A formação do militante Gregório Bezerra e sua relação com a educação física

Descrito por Florestan Fernandes (Fernandes, 2011, p. 623) como um homem que “cresceu além e acima dos padrões humanos de integridade e grandeza da sociedade brasileira”, por Ferreira Gullar (Gullar, 2011, p. 628) como “um homem feito de ferro e flor”, Gregório Bezerra transcendeu o sofrimento, as dificuldades e a injustiça social e canalizou sua indignação na organização das massas e da luta. Viu e viveu as contradições do Brasil desde a sua infância no Agreste de Pernambuco (na cidade de Panelas), conviveu com a seca, a fome, o coronelismo, as mortes de flagelados (incluindo seu pai, que morreu no trabalho do engenho, e sua mãe, que morreu de doenças decorrentes do árduo trabalho na lavoura), dentre outros problemas do início do século XX.

Nascido em março de 1900, começou a trabalhar desde os quatro anos. Com 16 anos, após uma série de dificuldades, vai trabalhar como assalariado em Recife, se torna sindicalizado da indústria da construção civil e ali tem seus primeiros contatos com a luta dos trabalhadores. Participa de suas primeiras manifestações de rua em 1917 e “em consequência daquelas manifestações de rua também me entusiasmei. Esse movimentos sempre eram reprimidos pela violência da Cavalaria e como a violência da reação sempre gera a violência das massas, fui envolvido nisso, sendo preso e condenado a sete anos de prisão” (O PASQUIM, 1979, s.p.). Naquele momento, o movimento operário era dirigido pelo anarcossindicalismo e alguns desses dirigentes vieram a criar o PCB em 1922. Ainda preso, Gregório teve pouco contato com as ideias socialistas que chegavam ao Brasil devido à repercussão que a Revolução Russa de 1917 causara no mundo, somente tinha acesso a alguns jornais, porém sempre que era visto com eles era reprimido.

Cinco anos após sua prisão, foi novamente julgado e posto em liberdade. Conforme afirmamos, esse era um período em que se consolidaram as instituições militares no seio da sociedade, até com as primeiras medidas para a implantação do serviço militar obrigatório. Gregório percebeu isso ao sair da prisão e procurar emprego. Afirmou ele: “Quando saí não encontrei serviço com facilidade [...] quando voltei para trabalhar me exigiram a carteira de reservista. Isso me forçou a ir para a caserna e sentar praça no Exército. Depois de um ano fui transferido para o Rio [de Janeiro], onde completei minha carreira militar e fui licenciado” (O PASQUIM, 1979, s.p.). Com o PCB recém‐organizado e logo posto na ilegalidade, aliado ao fato de que os militares eram proibidos de participar de qualquer organização política, Gregório pouco tomava conhecimento da conjuntura política.

Ainda não sabia ler nem escrever, matriculou‐se na Escola de Sargentos de Infantaria, no Rio de Janeiro, para ser alfabetizado e se tornar sargento instrutor, isso já em 1925. Note‐se que a Escola de Sargentos, como dissemos anteriormente, ficava no mesmo quartel que o CMEF e, embora não houvesse alunos matriculados nos cursos de educação física, as instalações eram usadas pela Escola de Sargentos. Por seu desempenho satisfatório no curso, Gregório tornou‐se instrutor da Companhia de Metralhadoras Pesadas no 2° Regimento de Infantaria e também Instrutor de Esportes.

Em uma passagem de suas Memórias afirmou que foi em 1927 que teve o primeiro contato com as leituras comunistas, por meio do jornal A Nação, o primeiro jornal do PCB. Embora funcionasse legalmente e tivesse grande prestígio entre setores populares, o jornal era proibido nos quartéis e logo foi fechado em virtude de o PCB ter sido ilegalizado. Assim Gregório relatou a situação:

Um dia, viajando num trem da Central do Brasil, [...] um operário metalúrgico me perguntou se eu havia lido A Nação.

– Que Nação? – perguntei. – É um jornal comunista, feito para o povo.

Eu ainda não tinha lido o jornal e não o conhecia. Perguntei se ele era comunista. Respondeu‐me afirmativamente e deu‐me um jornal para ler quando chegasse ao quartel. Li e reli várias vezes, procurando compará‐lo aos demais jornais burgueses. Achei uma grande diferença no conteúdo, na linguagem, em tudo [...] Uma semana depois, no mesmo trem, na mesma hora e no mesmo empurra‐empurra, reencontrei o meu já conhecido operário metalúrgico. Ele foi logo me perguntando:

– Então, gostou do jornal?

– Gostei!

– Aceita outro?

– Claro! (Bezerra, 2011, p. 204)

Com o intuito de ficar perto de sua família, Gregório pediu transferência para Recife e incorporou‐se ao 21° Batalhão de Caçadores. Dentre suas tarefas na Companhia, também foi instrutor de educação física e auxiliar de esportes. Foi em Recife que sua aproximação com o PCB se tornou orgânica, não somente por ter encontrado militantes que contribuíram para sua formação política, mas também pelo fato de conseguir entender as contradições da realidade brasileira e mobilizar‐se na luta por sua superação.

[...] inspiravam‐me os exemplos heroicos dos bolcheviques, a consolidação do regime socialista soviético, levada a cabo pelo seu glorioso partido, e também a brutal exploração da classe operária brasileira, a escravidão da massa camponesa pelos latifundiários e o sofrimento do meu povo. E, depois de ter lido livros como A mãe, de Máximo Gorki, a História do socialismo e das lutas sociais e O Estado e a Revolução, do maior gênio político do século XX, o grande Lênin, mandei para os infernos todas as minhas vacilações e ingressei para valer nas fileiras do PCB em janeiro de 1930 (Bezerra, 2011, p. 212) [grifos do autor].

Suas primeiras tarefas dentro do Partido deveriam ser feitas com bastante cuidado, pois como era militar não poderia estar presente em atividade política ou mesmo alguma reunião pública. Sua tarefa seria de organizar a massa militar na caserna. Gregório teve problemas com seus superiores, que abriram processo para expulsá‐lo do Exército. A partir desse momento Gregório já começava a se desagradar com a vida militar: “Só continuava porque tinha um objetivo político” (Bezerra, 2011, p. 220). Em decorrência desse fato, teve de ser transferido, em 1930, para o 28° Batalhão de Caçadores, em Aracaju, onde continuou a desenvolver suas atividades de instrução para cabos e soldados e também foi responsável pela organização esportiva militar, no qual julgava ter tido êxito nas competições esportivas.

Além das instruções específicas aos soldados e cabos, preparei as competições esportivas do batalhão com a Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros e organizações esportivas e participei delas. O 28° BC conquistou os primeiros lugares em quase todas as provas, perdeu apenas na de futebol (Bezerra, 2011, p. 213).

Por seu interesse em esportes e educação física, no mesmo ano se matriculou no CMEF. Porém, teve de interromper o curso em virtude do golpe de Estado da Aliança Liberal em 1930, chefiada por Getúlio Vargas, que assumia o poder e colocava fim ao período da República Velha. Gregório teve de cumprir com suas obrigações militares, foi incorporado aos regimentos de infantaria e seguir foi para Minas Gerais. A companhia de metralhadoras da qual Gregório fez parte era comandada pelo tenente Laurentino Lopes Bonorino, que havia sido seu instrutor de educação física na Escola de Sargentos e que foi um dos 10 oficiais formados pelo primeiro curso de formação em educação física (curso provisório do CMEF de 1929). Além disso, Bonorino é reconhecidamente um intelectual destacado por elaborar as primeiras obras sobre a história da EF e também contribuir para a organização do primeiro curso especial de educação física, com o objetivo de formar normalistas especialistas no Estado do Espírito Santo.4

Após o término desses acontecimentos, Gregório retomou os estudos no Rio de Janeiro, concluídos em dezembro de 1931, e foi designado instrutor de educação física no Colégio Militar de Fortaleza, no Ceará. Gregório relata que “devido à minha especialização em esportes individuais e coletivos, granjeei boa popularidade no setor militar e civil, sobretudo no meio secundarista e entre agremiações esportivas” (Bezerra, 2011, p. 215).

No Colégio Militar, organizou uma célula do Partido e um círculo socialista, para aprofundar os estudos sobre o socialismo junto à pessoas que se interessavam. Quando já haviam alugado uma casa para ser a sede desse grupo, houve o Movimento Constitucionalista de1932, que obrigou todos os militares do Colégio Militar a retornarem à suas unidades de origem, inclusive Gregório, que ficou encarregado das instruções de educação física, ordem unida, combate e manejo de armas automáticas para uma companhia formada por “mais de oitocentos jovens saídos dos campos de concentração de flagelados do Ceará” (Bezerra, 2011, p. 218).

Como professor de educação física, Gregógio lograva êxito nas competições esportivas colegiais.

Além de instrutor de educação física dos alunos do quinto e sexto ano, era também encarregado do ramo esportivo do colégio. O Colégio Militar do Ceará levava uma enorme vantagem sobre os demais colégios secundaristas, inclusive sobre a Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros, os clubes esportivos e até sobre o 23° Clube de Caçadores (Bezerra, 2011, p. 215).

Nesse momento, dentro do Exército já se sabia que Gregório era comunista e frequentava atividades políticas junto a operários, professores e estudantes, inclusive públicas, que até então não lhe eram permitidas. Por esta razão, acabou transferido para o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) de Recife, onde desempenhou as funções de instrutor de educação física e de infantaria para os oficiais, isso já às vésperas do Levante de 1935 dirigido pelo PCB. O que antecedeu esse fato foi a organização da Aliança Nacional Libertadora (ANL), que “era uma ampla organização de massas, da qual faziam parte homens e mulheres de todos os partidos, de todas as camadas sociais, de todos os credos religiosos, inclusive militares das três armas. Foi a maior e mais ampla organização de massas criada no Brasil até então e tomou vulto a partir de abril de 1935” (Bezerra, 2011, p. 230).

Após a ilegalidade da ANL, o PCB seguiu organizando as massas populares também por dentro das instituições militares. O que permitiu com que o Levante Comunista de 1935 pudesse ser feito com armas e apelo popular, principalmente em Natal, onde o movimento foi vitorioso e estabeleceu por quatro dias o primeiro governo popular revolucionário da história brasileira. Diferentemente do que ocorreu no Rio de Janeiro e Recife, onde o movimento foi derrotado no primeiro dia pela força militar fascista de Vargas.

Gregório foi preso, junto com aproximadamente 30 mil revolucionários, mas como era uma das direções do movimento passou por uma “odisseia”, como ele mesmo chamava as sessões de tortura que sofreu na prisão. Conheceu assim, pela primeira vez, a repressão militar fascista e anticomunista, com seu relato de torturas que reproduzimos abaixo.

A pancadaria foi dentro do gabinete do Chefe de Polícia. Não sei por quanto tempo me espancaram. Depois me amarraram, me jogaram dentro de um carro e me levaram para as matas de um subúrbio, onde me espancaram por mais uma temporada até eu desmaiar. Acordei cerca de meio‐dia do dia seguinte, estendido num banco de madeira [...] Fui recolhido à prisão para ser levado em seguida à polícia, onde os espancamentos se sucederam várias vezes. Estava muito enfermo, muito doente, muito arrebentado. Chegou o momento em que passei por outra “sessão espírita”, como diziam [...] Não dormia, não comia, nem me davam água. Duas noites nessa situação [...] Me interrogaram a noite toda. Quando amanheceu o dia, o Chefe foi verificar meu depoimento mas eu havia me mantido naquilo e estava disposto a não dizer mais uma palavra. Aí me puxou pela perna e me mostrou dois companheiros da direção estadual: um, inchado de tanto cacete, o outro que apanhou tanto, o José Maria Abelardo, que morreria logo depois na Detenção do Recife. O Chefe de Polícia me arrastou pelas pernas, me deu mais um chute e disse: “Bandido, tu vai embora mas amanhã tu vai morrer. Já vistes teus companheiros como estão. Tu vai passar pela mesma situação”. Eu não tinha dúvidas de que ia e estava preparado psicologicamente para morrer (O PASQUIM, 1979, s.p.).

Gregório foi expulso do Exército e condenado a 28 anos de prisão. Porém, em 1945, com a derrota do nazifascismo na Europa, a ditadura perdeu força e Getúlio Vargas foi deposto. Gregório foi anistiado e colocado em liberdade, assim como o PCB voltou para a legalidade, foi eleito deputado federal, o candidato mais votado de Pernambuco em 1945. Acabara aí sua trajetória como professor de educação física, pois desse período em diante dedicou‐se à luta política comunista, tanto no Parlamento como na organização dos camponeses e operários do interior do Brasil.

Com o golpe empresarial‐militar de 1964, continuou a organizar as massas no interior de Pernambuco contra a ditadura que se instalara em 1?? de abril daquele ano. Foi preso na Usina Pedrosa em Ribeirão (PE) no dia posterior ao golpe. Sua prisão foi feita com extrema violência e sua “odisseia” de tortura mais uma vez se iniciaria. Ao chegar no quartel em Recife foi “recepcionado” pelo Coronel Villocq com “atitudes que apenas uma cabeça degenerada até um grau patológico extremo podia conceber” (Bezerra, 2011, p. 533). A violência de sua prisão e tortura foi tão extrema que é preferível reproduzir as palavras do próprio Gregório para entender.

[...] por várias vezes tentou introduzir a barra de ferro em meu corpo, mas não conseguiu, porque eu concentrava toda a minha força para defender‐me de semelhante ignomínia. Quando já estava todo machucado na cabeça e no baixo ventre, os dentes todos arrebentados e a roupa encharcada de sangue, despiram‐me [...] Villocq pisou na minha nuca e mandou seu grupo de bandidos sapatearem sobre meu corpo. A seguir, puseram‐me numa cadeira e três sargentos seguraram‐me por trás, enquanto Villocq, com um alicate, ia arrancando meus cabelos. Logo depois, puseram‐me de pé e obrigaram‐me a pisar numa poça de ácido de bateria. Em poucos segundos, estava com a sola dos pés em carne viva [...] Laçaram‐me o pescoço com três cordas e [...] assim fui arrastado pelas principais ruas do bairro Casa Forte [...] foi um desfile horroroso. O coronel sádico parou o desfile em frente ao CPOR e concitou oficiais, alunos e soldados a me lincharem. Não foi atendido, o que o deixou ainda mais furioso [...] Ninguém o aplaudiu. Ninguém o atendeu. Enfurecido, o coronel espumava pelos cantos da boca. Concentrava a raiva contra mim. Pulava na ponta dos pés para dar mais força aos seus golpes. Dizia a massa para apreciar o espetáculo, mas essa virava a cara (Bezerra, 2011, p. 533‐534).

O apelo popular para suspender o “circo de horrores” foi bastante forte, até porque havia emissoras de rádio e televisão que acompanhavam a tortura. O general Justino Alves Bastos foi comunicado do que estava acontecendo e obrigou‐se a dar fim àquelas cenas em praça pública. Gregório foi recolhido para a prisão da Fortaleza das Cinco Pontas e lá ficou aguardando para ser interrogado. Depois de mais tortura, houve seu julgamento em 1967, foi condenado a 19 anos de prisão. Porém, em 1969, foi um dos presos políticos libertados em troca do embaixador americano sequestrado. Ele saiu da prisão e viajou em exílio para México, Cuba e Rússia, onde ficou até o seu retorno ao Brasil no início dos anos 1980.

Dentre tantas atrocidades vivenciadas durante a prisão e tortura de Gregório, uma passagem de seus relatos merece destaque por ser bastante significativa do caráter do militante comunista e professor de educação física que era. No momento de sua prisão em Ribeirão, com os pulsos ainda amarrados, “estava o truculento coronel Ibiapina, que, ao vê‐lo, perdeu a compostura e ameaçou‐o na presença do próprio superior [general Justino Alves]: ‘General, esse Gregório Bezerra foi meu instrutor no Colégio Militar do Ceará, o melhor instrutor de EF, o homem mais estimado e mais querido dos alunos do Colégio. Hoje, metido no comunismo! Traiu a confiança de todos e da Pátria, esse Gregório! Hoje tenho nojo e ódio de ti”’ (Bezerra, 1967, s.p.). Nessa passagem, é possível identificar a presença de um traço demarcado da educação física do período que é o fato de relacionar a educação física, tanto nas instituições militares quanto civis, à ordem militar com caráter de reprodução ideológica. Ao mesmo tempo em que se considerava como o “melhor instrutor de EF”, se jogava por terra essa valorização pelo fato de ser comunista e, portanto, um “traidor” para as instituições militares.

Considerações finais

Fizemos esse último relato para compreender que Gregório foi um homem perseguido pela classe dominante e defendido pelo povo. Foram 23 anos de cadeia, cujas acusações e condenações que sofrera tiveram fundamento somente na sua convicção política, pois seu único crime foi defender o povo brasileiro contra as duas ditaduras que o país viveu no século XX, ainda que à custa de sua liberdade.

O que se buscou mostrar neste texto é uma peculiar passagem da vida desse importante personagem da história brasileira, pois, além de militante comunista, político e revolucionário, Gregório Bezerra também foi professor de educação física, um dos primeiros a serem diplomados no Brasil. Ainda que formado nas instituições militares, foi professor de educação física do Exército no Rio de Janeiro, em Recife e Aracaju, destaca‐se o fato de ele se considerar especialista em esportes individuais e coletivos, até com algum destaque em competições esportivas civis e militares. Além de trabalhar com essa disciplina no Ensino Primário e Secundário do Colégio Militar de Fortaleza.

A carência de fontes sobre sua trajetória como professor de educação física nas instituições militares dificulta análises mais aprofundadas acerca da sua relação com a educação física. Por essa razão, optamos por relacionar esse fato de sua história como um expressão relevante na compreensão da historiografia da EF no que diz respeito à relação entre tendências e contratendências.

No que diz respeito à historiografia da EF brasileira, pudemos identificar que mesmo durante o período da história em que há uma tendência à noção militarista da EF, é preciso compreendê‐la a partir de contradições, e isso nos permite entender que tendências não significam o mesmo que relações lineares, evolutivas e causais. Isto é, se operássemos com a lógica formal da história, seria impossível conceber a existência de pessoas como Gregório Bezerra, que se formaram no mais alto nível de rigidez e disciplina militar da educação física do Exército da década de 1930 e, mesmo assim, tornou‐se um dos mais importantes militantes comunistas.

Certamente que o fato de ser professor de educação física não foi o aspecto mais importante de sua vida, porém, ao contarmos as diferentes histórias de professores de educação física que ousaram enfrentar as tendências, estaremos também contando a história da própria educação física por meio de suas contratendências. Assim podemos caracterizar a vida de Gregório Bezerra, um homem de ferro e flor, que enfrentou a opressão do mundo e ajudou a construir a parte bela da história do Brasil.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
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[Castro, 1997]
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[Ghiraldelli Júnior, 1987]
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O método francês e a educação física brasileira: da caserna à escola.
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[Melo, 2007]
V.A. Melo.
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[O PASQUIM, 1979]
O PASQUIM. Entrevista de Gregório Bezerra. Rio de Janeiro: n° 500, 26 de janeiro a 1 de fevereiro de 1979.
[Oliveira, 2002]
Oliveira MAT. Educação física escolar e ditadura militar no Brasil (1968‐1984): história e historiografia. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 28, n.1, p. 51‐75, jan/jun 2002.
[Prado Júnior, 1978]
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História econômica do Brasil.
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[Soares, 1996]
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Educação física: raízes europeias e Brasil.
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[Trotsky, 2007]
L. Trotsky.
História da Revolução Russa. Tomo I.
Sundermann, (2007),

A lei do desenvolvimento desigual foi elaborada inicialmente por Lênin (1985), em O desenvolvimento do capitalismo na Rússia, e acrescida do caráter “combinado” por Trotsky (2007), na obra História da Revolução Russa.

Essa Missão Militar Francesa ficou no Brasil de 1906 até o fim da década de 1930, só foi interrompida entre 1914 e 1919, quando os militares voltaram à França para contribuir na Guerra.

Para precisarmos as datas, o Centro Militar de Educação Física foi criado em 10 de janeiro de 1922 e o levante do Forte de Copacabana foi em 5 de julho de 1922.

Esse curso é reconhecido como o primeiro curso de educação física civil, porém dirigido por um militar.

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