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Vol. 38. Núm. 1.
Páginas 26-33 (Enero - Marzo 2016)
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Vol. 38. Núm. 1.
Páginas 26-33 (Enero - Marzo 2016)
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DOI: 10.1016/j.rbce.2015.12.004
Open Access
O corpo híbrido: análise midiática da participação do atleta Oscar Pistorius no Mundial de Atletismo de 2011
Body hybrid: media analysis of the participation of the athlete Oscar Pistorius in the Athletics World Championship of 2011
El cuerpo híbrido: análisis mediático de la participación del atleta Oscar Pistorius en el Mundial de Atletismo de 2011
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Fabio Zobolia,
Autor para correspondencia
zobolito@gmail.com

Autor para correspondência.
, Cristiano Mezzarobaa, André Marsiglia Quarantab, Elder Silva Correiac
a Departamento de Educação Física, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, SE, Brasil
b Secretaria de Estado da Educação de Sergipe (SEED‐SE), Aracaju, SE, Brasil
c Curso de Licenciatura em Educação Física, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, SE, Brasil
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Resumo

O texto objetiva abordar questões pertinentes ao corpo híbrido – fusão natural/artificial –observadas no portal globo.com em relação à participação polêmica de Oscar Pistorius no Mundial de Atletismo/2011. Durante o evento identificamos 23 notícias relacionadas a Pistorius, analisadas‐as a partir do método da hermenêutica de profundidade. Constatamos um agendamento em relação ao referido atleta, pelo seu ineditismo e pela polêmica envolvida, ou seja, por ser ele um atleta biamputado que compete com próteses – que o caracteriza como um corpo híbrido – junto a atletas sem deficiência. A participação de Pistorius requer uma abertura para a percepção de diferentes níveis de realidade e percepção.

Palavras‐chave:
Oscar Pistorius
Corpo híbrido
Mídia
Mundial de Atletismo 2011
Abstract

The text aims at addressing issues related to the hybrid body–natural/artificial fusion–observed at Globo.com portal regarding the Pistorius polemic involvement in the 2011 World Championships in Athletics. During the event we have identified 23 news report related to Pistorius, analyzing them taking the depth hermeneutic method in consideration. We have found a scheduling in relation to the cited athlete for his originality and controversy, i.e., because he is a bi‐amputated athlete who competes with prosthesis–which characterizes a hybrid body ‐ along with athletes without disabilities. Pistorius’ participation requires openness to the awareness of different levels of reality and perception.

Keywords:
Oscar Pistorius
Hybrid body
Media
Athletics World Championship 2011
Resumen

El presente texto aborda cuestiones relativas al cuerpo híbrido –fusión natural/artificial– planteadas en el portal Globo.com en relación con la polémica en torno a la participación de Pistorius en el Mundial de Atletismo de 2011. Durante el evento, se encontraron 23 noticias relacionadas con Pistorius y se las analizó a partir de la metodología hermenéutica profunda. Se constató un seguimiento en relación con este atleta inédito y polémico, pues se trata de un deportista cuyas piernas habían sido amputadas y que competía con prótesis, por lo que se lo clasifica como un cuerpo híbrido, al mismo nivel de corredores que no presentan esa deficiencia. La participación de Pistorius exige llevar a cabo una reflexión sobre diferentes niveles de realidad y percepción.

Palabras clave:
Oscar Pistorius
Cuerpo híbrido
Medios de comunicación
Mundial de Atletismo de 2011
Texto completo
Introdução

O corredor sul‐africano Oscar Pistorius ficou conhecido no cenário esportivo mundial por não ter as duas pernas e usar próteses finas, feitas de fibras de carbono, para correr. Pistorius foi o primeiro corredor paraolímpico na história do atletismo a competir igualmente com corredores ditos “normais” em nível mundial. Esse feito ocorreu em 2011, em Daegu, na Coreia do Sul, quando esse paratleta conseguiu participar de um evento mundial de atletismo com atletas não deficientes, evento sob organização da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF) e da Associação Sul‐Coreana de Federações de Atletismo.

Tal acontecimento, entre 27 de agosto e 4 de setembro de 2011, marcou a história do atletismo. Enquanto muitos elogiam a participação do referido atleta no Mundial, outros criticam e acabam gerando uma polêmica em relação à sua classificação para tal campeonato, devido às suas próteses, que configuram Pistorius como um ser híbrido na fusão de seu corpo (natural) com a prótese (artificial) – carne e silício.

A escolha de Oscar Pistorius para mediar as interlocuções midiáticas que faremos neste texto se deve ao fato de o atleta polemizar a questão epistemológica que ronda os estudos do corpo na modernidade no que diz respeito à transformação ontológica do humano, colocada em xeque com a ruptura do limiar entre o natural e o artificial – o corpo híbrido.

Nesse sentido, o presente texto pretende investigar os modos como a mídia – aqui circunscrita à esfera digital por meio do portal de internet Globo.com – trouxe informações e tematizou as questões concernentes à participação de Oscar Pistorius no evento analisado. Identificamos 23 reportagens específicas com Oscar Pistorius, tais dados foram coletados em um mês, de 15 de agosto de 2011 (12 dias antes do evento) a 15 de setembro (11 dias depois do evento).

Se considerarmos que tal atleta não é um representante brasileiro na competição e o “detalhe” de ser um atleta com deficiência numa competição para “superatletas”, podemos considerar que a quantidade de aparições de Oscar Pistorius no materiai produzido e publicado pelo veículo midiático pesquisado é algo que nos chamou a atenção.

Metodologicamente, tal investigação se caracterizou como um estudo de abordagem qualitativa, pois procurou trabalhar com os “achados” da pesquisa em sua articulação com o “universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes” (Minayo, 2010, p.21). Em relação ao tipo de estudo, trata‐se de uma pesquisa descritivo‐exploratória (Triviños, 2010), pelo desejo de trazer à tona fatos da realidade sem a pretensão de cientificização ou “busca de uma verdade” (ou comprovação), e sim a descrição e as características daquilo que pode ser evidenciado no que foi veiculado sobre Oscar Pistorius e sua deficiência/excepcionalidade, o que amplia nosso olhar em torno de tal problemática.

Poderíamos classificar, ainda, que este estudo, a partir do que vem sendo pesquisado e difundido em âmbito nacional em relação a estudos midiáticos, trata‐se de uma análise de produto midiático, ou seja, os veículos midiáticos (televisão, internet, jornais impressos e online, revistas impressas e online, bem como portais de informação – como o escolhido para esta pesquisa) nos trazem, cotidianamente, uma produção em massa de material sobre as diversas dimensões do próprio humano (política, sociedade, entretenimento, esporte, economia, meio ambiente, cultura, lazer etc.) e, com isso, podemos apurar nosso olhar para o que é produzido e veiculado pela mídia, a partir de diversos recursos metodológicos ou de técnicas de análises de dados, desde abordagens mais positivistas ou quantitativas até abordagens mais fenomenológicas ou mesmo estruturalistas, de cunho qualitativo.

Com os dados já coletados, usamos a hermenêutica de profundidade1 (THOMPSON apud Teixeira, 2008) para tratá‐los, com o objetivo de explorar seus sentidos e significados, tanto pelo que está nos textos escritos como nas imagens divulgadas pelo portal pesquisado, isto é, como ocorreu a produção de sentido em relação ao atleta Pistorius.

Na sequência do texto, então, inicialmente tratamos do sujeito Oscar Pistorius, tido como um corredor híbrido, para, em seguida, abordarmos a problematização no que tange às discussões da fusão do homem com a tecnologia, a partir do que é visto em Pistorius. Finalmente, analisamos os dados coletados em nossa pesquisa.

Oscar Pistorius: breves considerações

Pistorius nasceu na África do Sul em novembro de 1986 e ficou deficiente aos 11 meses, quando teve suas pernas amputadas na altura do joelho. A amputação se deu devido a um problema detectado pelos médicos no ato de seu nascimento: Oscar Pistorius não tinha a fíbula (perônio), ou seja, não tinha um dos ossos do corpo que dá suporte aos músculos da perna. Por tal motivo foi necessário fazer a amputação de ambas as pernas de Oscar.

Antes de chegar ao atletismo, Pistorius praticou outras modalidades esportivas: tênis, rúgbi e lutas olímpicas. Porém, foi no atletismo que ele se encontrou e se firmou como atleta paraolímpico. No decorrer de suas participações em competições de atletismo para pessoas com deficiência, ficou conhecido como o atleta paraolímpico mais rápido do mundo. Mas desde que Pistorius começou no atletismo, tinha o desejo de participar de competições com atletas que não fossem deficientes.

Sua trajetória como atleta paraolímpico foi de muitos recordes, vitórias e medalhas. Ele conquistou quatro medalhas de ouro nos Jogos Paraolímpicos, três delas nas Paraolimpíadas de Pequim em 2008. Ele também é recordista mundial nos 100, 200 e 400 metros rasos na classe T44.2

Devido ao seu desejo de participar de uma competição com pessoas sem deficiência, ele tentou classificação para competir nas Olimpíadas de Pequim em 2008, mas foi vetado pela IAAF (Associação Internacional das Federações de Atletismo), que se colocou contra a participação dele nos Jogos, devido às suas próteses de fibras de carbono. Segundo a IAAF, o uso dessas próteses daria vantagem a Pistorius sobre os demais competidores, ou seja, alegararam que seria desigual competir caso o referido atleta usasse essas próteses. Depois desse fato, Pistorius ficou conhecido mundialmente. A partir desse episódio, Oscar Pistorius travou uma grande batalha para conseguir a aprovação da IAAF para competir junto com atletas sem deficiência em eventos mundiais.

Como a IAAF não conseguiu provar cientificamente que as próteses de Pistorius lhe conferiam vantagem, a Corte Arbitral do Esporte (CAS) anulou o veto da IAAF e deu razão a Pistorius. Com muita insistência e dedicação, ele conseguiu a permissão para competir com pessoas sem deficiência. E o Campeonato Mundial de Atletismo realizado em Daegu em 2011 foi o palco no qual se viu Pistorius quebrar o tabu da segregação de eventos desportivos “deficientes” versus “normais”.

Em 2012, Pistorius mais uma vez fez história ao participar dos Jogos Olímpicos de Londres entre os “normais”, na equipe sul‐africana de atletismo. Alguns dias depois dos Jogos Paraolímpicos, também em Londres, Oscar Pistorius foi superado na prova de 200 metros para amputados pelo brasileiro Alan Oliveira. Sua mítica e simpatia são postas em questão quando Pistorius, numa atitude deselegante, não aceita a derrota para o brasileiro e exigiu análise das próteses de Alan. Alegou que elas eram longas demais, o que lhe conferiria uma vantagem em relação aos seus oponentes.

Aqui vale mencionar que já em 2007 Pistorius competia em provas de atletismo de cunho regional em seu país com atletas “normais”’. Porém, isso não repercutia no âmbito internacional, logo não se tinha a visibilidade que hoje temos das questões que mediavam os jogos tensivos da inclusão/segregação. Por isso, o Mundial de Atletismo de 2011 em Daegu e a Olimpíada de 2012 em Londres são considerados, dentro da história do esporte, como os momentos em que um atleta com deficiência rompe com a lógica da segregação para competir com os “mais normais”’, ou “menos diferentes/deficientes”.

Pistorius: um corredor híbrido

Oscar Pistorius assume centralidade no âmbito esportivo da atualidade,3 pois, mesmo não tendo duas pernas como os ditos “normais”’, adquire o direito de ser tratado como tal, conquista marcas nas pistas que lhe dão o direito de participar de eventos feitos para o público “normal” – não deficiente – ou seja, com suas pernas protetizadas, Pistorius corre tão rapidamente quanto os normais bípedes intactos de membros inferiores. Sua participação no contexto não segregado causa incômodo, na medida em que são mediados discursos de que o atleta não seria suficientemente humano para competir com os “normais”, pois suas próteses de fibra lhe atribuem características híbridas da fusão homem/máquina.

É como menciona Goellner e Silva (2012, p.199): “Com seu corpo eugenizado pela biotecnologia, Pistorius assusta ao reivindicar o direito de competir junto aos obsoletos corpos, meramente humanos”. Ao fundir sua carne ao silício e ao carbono de suas próteses, Pistorius coloca em xeque a natureza humana no sentido de metamorfosear seu corpo com o artificial. Aliado aos estigmas históricos de um corpo com deficiência, soma‐se o nascente estranhamento do homem que se funde com o artificial, ou seja, com a natureza híbrida oriunda da tecnologia.

Como território de múltiplos significados e transgressões, este corpo – meio monstro, meio ciborgue – carrega o emblema hegemônico da diferença e desliza contemporaneamente entre as fronteiras de sua materialidade. Um corpo diferente, marcado, ao mesmo tempo, pela deficiência, pela performance e pela tecnologia (Novaes, 2009, p. 170‐71).

Pela manipulação por meio da técnica, o corpo cada vez mais foi sendo alvo de domínio da técnica. O corpo se transformou sob as condições que as ciências/tecnologias lhe oportunizam para transcender sua natureza. O ser humano não aceitou o corpo que Deus lhe deu, na busca de transcendê‐lo ele criou a ciência, que oportunizou técnicas para superá‐lo. Assim, a técnica/tecnologia constantemente está buscando dominar e ultrapassar as fronteiras do corpo humano, tornando‐o “[…] escaneado, purificado, gerado, remanejado, renaturado, artificializado, recodificado geneticamente, decomposto e reconstruído […]” (Le Breton, 2003, p. 26). Assim, cada vez mais a biotecnologia está visando penetrar/invadir/metamorfosear a organicidade do corpo, não mais normalizando suas funções, mas sim ampliando, transpondo, potencializando, transcendendo essas funções. Ou seja, pela técnica busca‐se sanar a precariedade do corpo enquanto natureza.

Em meio a essa simbiose “corpo/tecnologia”, o ser humano vai incorporando realmente em seus corpos essas tecnologias, resultando em novas configurações – o híbrido. São corpos virtualizados via informática, corpos reconstruídos por meio de próteses biônicas de última geração, corpos modificados geneticamente, em suma, corpos híbridos. Nesse sentido, compactuamos com Tadeu (2009) quando menciona que uma das características mais notáveis de nossa era é precisamente o promíscuo acoplamento do ser humano com a máquina. “Do lado do organismo: seres humanos que se tornam, em variados graus ‘artificiais’. Do lado da máquina: seres artificiais que não apenas simulam características dos humanos, mas que se apresentam melhorados relativamente a esses últimos”’ (Tadeu, 2009, p. 11).

Sendo assim, cabe‐nos deixar claro ao leitor que neste estudo o “corpo híbrido” é caracterizado pela fusão corpo/tecnologia, seja ela dada no âmbito da virtualização, robótica (produção de sistemas capazes de comportamentos autônomos), biotecnologia (manipulação de componentes dos seres vivos) e nanotecnologia (fabricação de dispositivos moleculares). Amparados nessa hibridação do corpo/natural com a tecnologia/artificial, percebemos o uso em nosso redor de expressões tais como biocibernético, ciborgue,4 corpo protético, pós‐orgânico, pós‐biológico, dentre outros. Para Haraway (2009, p. 37), “no fim do século XX, neste tempo, um tempo mítico, somos todos quimeras, híbridos –teóricos e fabricados – de máquina e organismo; somos, em suma, ciborgues”.

Não podemos negar que essas novas tecnologias ligadas ao corpo estão causando polêmicas no que tange às fronteiras do humano, confundindo até sua ontologia, afinal o que caracteriza a máquina nos faz pensar naquilo que caracteriza o homem. Essa realidade vem fomentando estudos epistemológicos que giram em torno do corpo e sua ontologia. Afirmamos isso sustentados em Contreras (2011, p. 139), quando menciona que a hibridação do corpo “corresponde a toda una ontología e una epistemología, que hunde sus raíces en los câmbios en la representación de los objetos de la natureza y de la tecnologia–los seres vivos y las máquinas”. Ainda nesse sentido, Santaella (2004, p. 31) cita que:

A mistura crescente entre o vivo e o não vivo, o natural e o artificial, permitida pelas tecnologias, atinge hoje um tal limiar de ruptura que faz explodir a própria ontologia do vivo[…]. Eis, portanto, a considerável ruptura filosófica e cultural que enfrentamos. Quando o corpo e todos os seres vivos tornam‐se informação codificada, o que permite a manipulação e replicação da própria vida, é a transformação ontológica do humano que está em jogo.

O corpo híbrido fez nascer novos binários: natural/artificial, carne/silício, real/virtual, homem/máquina. Binários esses que vêm não só se somar a tantos outros já históricos; muito mais do que isso, eles vêm ressignificar os mesmos: corpo/mente, natureza/cultura, sujeito/objeto. Alguns deles já são descritos como sepultados ou jogados ao lixo: “complexos híbridos de carne e metal que jogam conceitos como ‘natural’ e ‘artificial’ para a lata do lixo. Essas redes híbridas são os ciborgues e eles não se limitam a estar à nossa volta – eles nos incorporam” (Kunzru, 2009, p. 24). O filósofo francês Michel Serres compactua com tal entendimento, na medida em que, ao versar sobre o corpo híbrido, ele anuncia que esse soluciona o velho problema do acordo ou da síntese entre natureza e cultura:

Nada mais “natural” do que o gesto de instalar um equilíbrio distante de uma antiga estabilidade, e isso porque a palavra natureza significa, justamente, um nascimento, e o processo em questão descreve o nascimento da própria vida a partir do inerte preso na armadilha do segundo princípio da termodinâmica; mas a repetição do processo projeta a história, essa mesma história que nos separa da evolução vital, bacteriana, vegetal ou animal. A cultura começa pela natureza; ela é a própria natureza, cuja continuidade se dá por outros meios. Por isso, a cada etapa, ela se torna irreconhecível. Não teríamos jamais nos transformados nos homens que somos sem o treinamento (Serres, 2003, p. 46).

Sob esse viés, é inerente o entendimento de que essa ideia de potencializar o corpo pela tecnologia não é recente, ela “compõe o imaginário de diferentes culturas que, há muito tempo, buscam superar a finitude, a condição de animalidade e a precariedade do corpo e da vida”. Não podemos reduzir a ideia de tecnologia de potencialização de corpos humanos simplesmente aos fios de silício e a próteses de carbono, nem às intervenções de cunho genético que fazem de nossa “herança divina”’ um mito em desconstrução, nem tão somente as cirurgias plásticas de modelagem ou reparação funcional ou estética.

A era do ciborgue é aqui e agora, onde quer que haja um carro, um telefone ou um gravador de vídeo. A era do ciborgue não tem a ver com quantos bits de silício temos sob nossa pele ou quantas próteses nosso corpo contém. Tem a ver com o fato de Donna Haraway [assim como qualquer outra pessoa] ir à academia de ginástica, observar uma prateleira de alimentos energéticos para bodybuilding, olhar as máquinas para malhação e dar‐se conta de que ela está em um lugar que não existiria sem a ideia do corpo como uma máquina de alta performance (Kunzru, 2009, p. 23).

A fusão com a tecnologia faz nascer novas significações sobre o pensar/agir e sentir o corpo. “Al transformar la naturaleza, el hombre no solo produce cosas, sino que también produce de cierta forma sus proprios sentidos, les da nuevas propiedades, produce sus sentidos como sentidos humanos” (Contreras, 2011, p. 131). Nesse sentido, acreditamos que se faz necessária uma ressignificação do olhar no que tange à visualização dessas novas manifestações corporais que se apropriam do humano. Mudar as estruturas de significação nos modos de concebê‐lo é também parte de um processo de mudar suas relações.

Esse movimento de ressignificar acontecerá na medida em que as novas metáforas forem dando bases para que o híbrido não nos cause mais espanto e se naturalize – afinal ele é artefato humano. Acreditamos que em breve esse estranhamento será exaurido e aos poucos se perderá na medida em que for não só algo subjetivado, mas também quando se tornar uma constante nas suas mais variadas manifestações e nos seus mais variados contextos. Afinal, o corpo só existe enquanto linguagem e signo. Dessa forma, na medida em que a ciência e os seus coadjuvantes técnicos avançam no sentido de criar novos sentidos para o corpo, cabe a nós humanos sempre ressignificar a resposta à pergunta: o que é corpo? Pois, como alerta Serres (2003, p. 41):

O que é corpo? Ele não existe; existia, mas não existe mais, pois vive inteiramente na modalidade do possível. Apenas uma lógica modal permite apreendê‐lo; ele sai da necessidade para entrar no possível. Eis a melhor definição que se pode dar: o corpo é um virtual encarnado.

Dialogando com os dados

A partir de agora, trazemos para discussão os dados encontrados no portal Globo.com, no qual foram encontrados 23 registros jornalísticos sobre Oscar Pistorius de 15 de agosto a 15 de setembro de 2011. Em todas as reportagens veiculadas com Pistorius se fazia alusão ao corpo híbrido. Sem exceção, todas as reportagens se dirigiam ao atleta a partir de sua condição corporal híbrida.

Para uma exemplificação, abaixo apresentamos três recortes de nossa coleta de dados:

“[…] Pernas metade humanas e metade artificiais.” Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/08/pauta‐das‐principais‐noticias‐da‐afp‐681.html. Acesso: 13 de Julho de 2012.

“Oscar Pistorius, que teve as pernas amputadas e corre com próteses de fibra de carbono.” Disponível em: http://extra.globo.com/esporte/oscar‐pistorius‐faz‐historia‐se‐classifica‐para‐semifinal‐dos‐400‐metros‐do‐mundial‐de‐atletismo‐2540847.html. Acesso: 13 de Julho de 2012.

“O atleta de 24 anos que corre com próteses de fibra de carbono no lugar das pernas amputadas.” Disponível em: http://oglobo.globo.com/esportes/brasileiro‐vai‐disputar‐final‐da‐prova‐dos‐200m‐no‐mundial‐de‐atletismo‐2703618. Acesso: 13 de Julho de 2012.

Assim, Pistorius, com seu corpo híbrido, dissolve as barreiras entre carne e próteses, homem e objeto técnico:

A heterogeneidade de que é feito o ciborgue [corpo híbrido – Pistorius] – o duro e o mole, a superficialidade e a profundidade – invalida a homogeneidade do humano tal como o imaginamos. A ideia do ciborgue [híbrido], a realidade do ciborgue […] é aterrorizante, não porque coloca em dúvida a origem divina do humano, mas porque coloca em xeque a originalidade do humano (Tadeu, 2009, p. 13‐14).

Até por seu hibridismo Pistorius é metaforicamente chamado de Blade Runner, que significa “corredor lâmina”’. Essa caracterização se deve ao fato de suas pernas de fibra de carbono se assemelharem a duas lâminas. Em quatro das 23 reportagens identificamos essa metáfora para caracterizar e dar nome ao atleta. Outra expressão usada também por quatro vezes nas notícias foi: um “estranho” em meio aos “normais”.

Por conta da biotecnologia, Pistorius teve seu “destino” modificado. De um corpo com deficiência a tecnologia fez nascer um atleta que atinge marcas dignas de participação em competições em nível mundial com atletas considerados normais. Assim, o corpo do atleta Oscar Pistorius:

Tornou‐se alvo de investimento e, na articulação entre várias áreas do saber, deu origem a um ser híbrido de carne e fibras de carbono. Aos moldes da eugenia do século XIX, o atleta sul‐africano jamais se tornaria um emblema de “homem puro‐sangue”, sobretudo porque nasceu marcado por uma malformação congênita. Entretanto, sob os imperativos da neoeugenia, sua mazela foi extirpada e sua “deficiência” suplantada pela tecnociência. Pistorius é o emblema da neoeugenia ao potencializar seu corpo para além de suas condições “puramente” humanas (Goellner e Silva, 2012, p.197‐98).

Um dos motivos que geram polêmica no âmbito do atletismo em relação ao corpo híbrido de Oscar Pistorius é exatamente o fato de suas próteses se assemelharem a duas lâminas, o que supostamente pode causar risco aos demais atletas. Duas matérias noticiavam esses possíveis perigos na medida em que houvesse um contato físico de Pistorius com outro atleta.

Foi exatamente por isso que no revezamento 4·4005 Pistorius correu como “primeiro atleta” de sua equipe. Na prova de revezamento 4·400, o primeiro atleta corre dentro de sua raia, o segundo corre os 100 primeiros metros raiados para depois correr em raia livre. A partir de então, o segundo, bem como o terceiro e quarto atletas, correm em raia livre. Essa caracterização da regra explica o motivo de a Federação Internacional de Atletismo (IAAF) ter liberado o atleta para fazer o revezamento com a equipe sul‐africana somente na condição de primeiro corredor, já que sendo primeiro atleta não teria contato com os demais pela restrição das raias.

No entanto, as polêmicas que mais atingem o hibridismo de Pistorius estão ligadas às vantagens de suas próteses. Nas 23 reportagens foram detectadas seis que mencionavam que Pistorius tinha vantagens devido ao uso das próteses – vale mencionar que duas das seis reportagens simplesmente anunciavam que Pistorius tem vantagem ao correr com suas pernas protetizadas, no entanto não explicitavam o motivo que gera tal vantagem. As outras quatro reportagens se referiam a três tipos de vantagens, vejamos:

  • a)

    uma reportagem alegav que Pistorius teria maior velocidade ao fazer uso das próteses;

  • b)

    duas reportagens anunciavam que Pistorius teria vantagem de 10 segundos aos correr com suas próteses, porém sem anunciar os motivos;

  • c)

    uma nota aludia a que Pistorius, ao correr com pernas mecânicas, usava 25% a menos de oxigênio que os demais atletas.

Todas as vantagens acima descritas poderiam enquadrar Oscar Pistorius num contexto de doping tecnológico e é exatamente por conta disso a dificuldade de se estabelecer acordos no sentido de deixá‐lo competir com atletas normais. Miah (2008, p. 53) enumera outros eventos históricos em que a tecnologia foi vista como eticamente problemática no âmbito esportivo, no que diz respeito ao doping tecnológico e ao uso de materiais:

Na década de 1980, o desenvolvimento da vara de fibra no salto com vara levou a situações em que outros atletas tinham o benefício de uma vara melhor do que os outros que não tinham […] uma regra semelhante foi feita com relação ao design da bicicleta superman, que ajudava na corrida por ter uma posição do assento mais aerodinâmica […]. As roupas de natação FastSkin da Speedo despertaram controvérsias parecidas nas vésperas dos Jogos Olímpicos de Sidney em 2000 […].

As contradições que envolvem esse tipo de doping sofrem de argumentos muito frágeis e por vezes até contraditórios: se o esporte está pautado na lógica do rendimento máximo, por que o doping – que potencializa tal rendimento – é ilegal? O mito do doping está fundado na pureza natural, logo, “não é possível pensar o impuro se não face ao puro” (Perera e Gleyse, 2005, p. 62). No contexto de nosso escrito, o impuro vem mascarado sob a roupagem do artificial – as próteses de Pistorius. Ou seja, não há como se falar em doping na modernidade sem estabelecer as tensões entre o binário natural/artificial.

Essa é uma questão bastante controversa se for considerado que o uso de alguma tecnologia –droga, manipulação genética, prótese/material – parece ser imprescindível para o esporte de alto rendimento e que nele há pouco do que se poderia chamar de “natural” no que se refere à relação com o corpo – como se pudéssemos delimitar o que seria uma natureza “livre” dos condicionantes culturais da tecnologia (Vaz, 2005). Além do mais, “Não parece fácil responder por que é lícito fazer uma cirurgia plástica para aumentar a beleza, mas não intervir cirúrgica ou quimicamente para aumentar a performance esportiva”. (Vaz, 2005, p. 34)

Assim, aqui novamente perguntamos: o que seria uma vantagem tecnológica? Os limites entre natureza e cultura, como analisamos acima, já foram superados, até porque “não existe nada mais que seja simplesmente ‘puro’ em qualquer dos lados da linha de ‘divisão’: a ciência, a tecnologia, a natureza puras; o puramente social, o puramente político, o puramente cultural. Total e inevitável embaraço” (Tadeu, 2009, p. 11).

Arriscamos afirmar que o esporte é mediado na sua totalidade pela tecnologia, ao mesmo tempo em que serve de laboratório para ela. O corpo e o esporte estão fadados a uma progressão tecnológica irreversível. Material esportivo (bolas, raquetes, pistas de atletismo, gramado de campos de futebol), vestimentas (camisas, calçados, aparelhos de segurança), suplementação alimentar e fármacos (uso racional de anabólicos e hormônios, proteínas e carboidratos de alta absorção). “Vencer os jogos olímpicos na era do ciborgue não tem a ver simplesmente com correr mais rápido. Tem a ver com a interação entre medicina, dieta, práticas de treinamento, vestimentas e fabricação de equipamentos, visualização e controle de tempo” (Kunzru, 2009, p. 23).

Dessa forma, acreditamos não ser mais possível parar a tecnologia e nem perceber os limites onde começam as máquinas e onde terminam os humanos, pois “[…] é no confronto com clones, ciborgues e outros híbridos tecnoculturais que a ‘humanidade’ de nossa subjetividade se vê colocada em questão” (Tadeu, 2009, p. 10).

Assim, pensar a relação entre o corpo e a máquina, entre sujeito e objeto, e buscar entender de que forma se estabelecem identidades e significados sociais e culturais, que não desfrutavam da visibilidade hegemônica, remete‐nos a olhar para práticas e fenômenos sociais que, apesar de terem uma inegável dimensão cultural, parecem residir em uma zona de pouca visibilidade e aceitação (Novaes, 2009, p. 166).

Permanecer preso ao dualismo “natural/artificial” só nos faz “analfabetos” neste nosso momento histórico (modernidade) – no contexto do corpo híbrido. Logo, a metáfora de Jean Baudrillard é perfeita para transcendermos tal episteme:6

Como na história do ilusionista forçado, no palco, a tornar artificialmente mecânicos os seus gestos para diferenciar‐se do autômato com o qual divide a cena, cujo comportamento perfeito impede a distinção entre homem e a máquina (Baudrillard, 2011, p. 150).

Como tal, perceber que ambos – ilusionista e autômato – fazem parte de um só movimento é transcender a ideia do dualismo para o uno fundido. No entanto, reinventar tais epistemes ontológicas que envolvem o corpo é parte da criação de novas metáforas para se olhar para o mesmo – uma reeducação do olhar. Isso tudo, porém, é próprio/inerente da condição humana, condição que reiteramos só existir na e pela linguagem.

Podemos afirmar que só nós temos corpo, e este está na linguagem, no mundo (não é um “dado”). É possível assim termos vários corpos, e eles se constituem para nós em conquista, da mesma forma que o homem conquista o seu próprio ser (Fensterseifer, 2004, p. 293).

Levando isso em consideração, entendemos o corpo aqui como uma sede de signos – aquilo que representa e cria na mente da pessoa outros signos equivalentes ou mais desenvolvidos. Nesse sentido, o corpo, apreendido como signo pela mente, apresenta a essa última enigmas a serem decodificados e possibilidades a serem codificadas e inscritas na matéria. O corpo, assim, transmite sentido, ou significações, se considerarmos aqui que não conseguimos apreender o sentido em si, considerando que essa (significação) é o “poder de vir a ser” do sentido; de que a mente cria, a partir de signos externos, outros signos equivalentes ou mais desenvolvidos.

Considerações finais

Um sujeito fadado à “incapacidade” figurando entre atletas que são vistos e anunciados como sendo o ápice da perfectibilidade humana em questões de rendimento – técnica, força e velocidade – só é possível graças à potencialização humana gerada pelas biotecnologias que dão oportunidade ao corpo de fazer coisas das quais a sua própria estruturação biológica/natureza não seria capaz. Porém, será que as novas configurações humanas geradas por essas biotecnologias já encontram os esquemas de percepções à altura de seu tempo?

Nessa instigante possibilidade urge a necessidade de acompanhar essa relação inaugurada por Oscar Pistorius. Como já citado, em 2012 o atleta sul‐africano também participou dos Jogos Olímpicos de Londres, o que certamente gerou novos fatos explorados pelos meios de comunicação de modo geral.

A participação de híbridos em meio aos “normais” pode ser vista como mais uma ferramenta a contribuir para a construção da cultura e do ethos inclusivo. Para tal, a diferença precisa ser um dos mais nobres pilares para a convivência humana. Além do mais, o discurso ético e moral do corpo, do esporte e do doping passa por questões que envolvem o entendimento dos limites ontológicos sob os quais entendemos o ser humano e nesse sentido Pistorius também é central.

O caráter aparentemente enigmático que Pistorius veio dar ao desporto ao misturar deficiência com a ressignificação do humano com a máquina/tecnologia requer de nós muito mais do que um simples “aceitar”. Requer uma abertura para a percepção de diferentes níveis de realidade e de diferentes níveis de percepção.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Para se conseguir fazer esse “desvelamento” do que é produzido pela mídia, a partir da hermenêutica de profundidade, duas fases são essenciais. A primeira, compreender como as notícias são produzidas, transmitidas e recebidas em condições sociais e históricas específicas. A segunda fase consiste na questão formal ou discursiva da hermenêutica de profundidade, ou seja, entender que os objetos e expressões que circulam nos campos sociais são, também, construções simbólicas complexas que apresentam uma estrutura articulada, elas “dizem a respeito de alguma coisa”, seja por imagens, seja por textos.

Usa‐se essa expressão T44 para identificar a classe referente a cada deficiência. O T (track) = pista, ou seja, ele corre em pista e a numeração 44 é para indicar o grau de comprimento motor do atleta.

Aqui é importante frisar que a pesquisa foi feita antes do acontecimento que está repercutindo no começo de 2013, ou seja, a acusação à qual Pistorius responde na África do Sul – o homicídio culposo de sua namorada.

O termo ciborgue deriva de cyborg, que é a abreviatura de cybernetic organism. Kybernetes vem do grego, que significa “o homem que dirige”.

Na prova individual de Pistorius, os 400 metros rasos, ele não tem o problema do contato físico, já que as provas de atletismo até e inclusive 400 metros são todas corridas em raias, ou seja, a regra não permite que o atleta avance para a raia adversária exatamente para que não obstrua os demais competidores, e também para que não tenha vantagem de percurso.

Na menção de Veiga‐Neto (2004), Michel Foucault designa a episteme como categoria que usamos para definir e dividir o mundo social, constitui verdadeiros sistemas que nos permitem pensar, ver e dizer certas coisas, ao mesmo tempo em que impede de ver e dizer tantas outras. A episteme funciona informando as práticas (discursivas e não discursivas) e dando sentido a elas. Ao mesmo tempo, a episteme funciona também em decorrência de tais práticas.

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