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Artigo original
DOI: 10.1016/j.rbce.2018.10.005
Open Access
Disponible online el 25 de Diciembre de 2018
O Departamento Físico no projeto formador das Associações Cristãs de Moços, no Brasil (1893‐1929)
The Physical Department in the formation project of the Young Men Christian Associations, in Brazil (1893‐1929)
El Departamento Físico en el proyecto de formación de las Asociaciones Cristianas de Jóvenes (ACJ) en Brasil (1893‐1929)
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Anderson da Cunha Baíaa,
Autor para correspondencia
andersonbaia@yahoo.com.br

Autor para correspondência.
, Andrea Morenob
a Universidade Federal de Viçosa (UFV), Departamento de Educação Física, Programa de Pós‐Graduação em Educação, Viçosa, MG, Brasil
b Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Faculdade de Educação, Programa de Pós‐Graduação em Educação, Belo Horizonte, MG, Brasil
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Resumo

Este estudo tem como objetivo compreender o lugar do Departamento Físico no projeto formador das Associações Cristãs de Moços (ACM), no Brasil, de 1893 a 1929, a partir do investimento institucional na formação física, intelectual e moral‐religiosa. As fontes mobilizadas foram: revistas e documentos institucionais – panfletos, cartilhas, estatutos, atas. Os momentos iniciais de implantação das ACMs no Brasil foram de poucos investimentos na constituição do Departamento Físico, no entanto, no decorrer da consolidação da instituição, alteram‐se os discursos no que tange às exigências na formação do sujeito, inseriu‐se o Departamento Físico de outra forma no projeto acmista.

Palavras‐chave:
História
Educação
Educação física
Associação Cristã de Moços
Abstract

This study aims to understand the place of the Physical Department in the formation project of the Young Men Christian Association (YMCA) in Brazil, in the 1893‐1929 period, based on the institutional investment on physical, intellectual and moral‐religious formation. The sources mobilized to enable this project were: magazines and institutional documents ? pamphlets, letters, statutes and minutes. The early stages of implementation of the YMCAs in Brazil were few in investments for the constitution of the Physical Department, however, in the course of the institution's consolidation, the speeches were altered related to the demands on the subject formation, inserting the Physical Department otherwise in acmista project.

Keywords:
History
Education
Physical education
Young Men Christian Association
Resumen

Este estudio tiene como objetivo comprender el papel del Departamento Físico en el proyecto de formación de las Asociaciones Cristianas de Jóvenes (ACJ) en Brasil durante el período de 1893 a 1929, a partir de la inversión institucional en la formación física, intelectual y moral‐religiosa. Las fuentes movilizadas para esta encuesta fueron: periódicos y documentos institucionales, como folletos, cuadernillos, estatutos y actas. Las primeras etapas de la implementación de la ACJ en Brasil conllevaron pocas inversiones en la constitución del Departamento de Física. Sin embargo, en el curso de la consolidación de la institución, los discursos se modificaron respecto a las exigencias de formación del individuo, por lo que el Departamento Físico, por lo demás, acabó incluyéndose en el proyecto acmista.

Palabras clave:
Historia
Educación
Educación física
Asociaciones Cristianas de Jóvenes
Texto completo
Introdução

Este estudo aborda o lugar do Departamento Físico no projeto de formação das Associações Cristãs de Moços (ACM) brasileiras. Tal instituição surgiu em 1844, na Inglaterra, por iniciativa de George Williams1. A sua formação religiosa, presbiteriana, marcaria, sobremaneira, sua atuação no trabalho comunitário. A ACM constituiu‐se, nos primeiros anos, como um lugar específico de formação espiritual dos jovens trabalhadores, permeada pelos evangelhos e “animada pelo espírito de fraternidade humana e cristã” (Associação Cristã de Moços, 2002, p. 05).

A Associação rapidamente expandiu‐se. A implantação de uma Associação Cristã de Moços no Brasil foi parte desse investimento expansionista, desembarcou no Brasil, em 1891, na cidade de São Paulo, o missionário americano Myron Augusto Clark. No Brasil, presbítero da Igreja Presbiteriana e Secretário Geral da ACM do Rio de Janeiro, implantou as sedes do Rio de Janeiro (1893), Porto Alegre (1901) e São Paulo (1902).

Myron Clark iniciou sua missão com um projeto de formação, orientado pelo Modelo dos Estatutos de uma Associação Cristã de Moços, publicado em 1893 pela Comissão Internacional das Associações Cristãs de Moços, em Nova York, e trazido para o Brasil pelo missionário. O propósito central era promover o “desenvolvimento” do “caracter christão” dos associados e a “utilidade dos seus membros” assim como “promover o bem physico, intellectual, social e espiritual dos moços” (Associação Cristã de Moços, 1893, p. 02).

Myron Clark, em 1903, escreveu um texto intitulado Em prol da mocidade, em que detalhou as diretrizes de um projeto acmista. Nesse documento, ele afirma que, “primeiro que tudo, Ella é uma Associação Christã”, e que, se não prevalecesse a religião como eixo da formação, a instituição descumpriria seu propósito primeiro, seria até melhor extinguir‐se do que continuar com uma formação que não daria “bons frutos” (Clark, 1903). Com as primeiras ações da sede carioca coordenadas por Myron Clark, percebe‐se uma ênfase nas ações religiosas. Somente no início do século XX, momento de criação de outras ACMs no Brasil, pode‐se perceber o aparecimento, com maior intensidade, de ações referentes à Instrução e à Formação Física.

Essa centralidade nas ações religiosas nos instiga a pensar: “Por que nos primeiros anos de ACM no Brasil não havia um Departamento Físico para tratar das ações que contemplavam a dimensão física/corporal?” “Qual o papel de um Departamento Físico no projeto de formação das ACMs?” “Que vínculo é possível observar entre Departamento Físico e o propósito de formação religiosa?”

Orientados por essas questões, temos como propósito compreender o lugar do Departamento Físico no projeto formador das Associações Cristãs de Moços, no Brasil, de 1893 a 19292.

Para dar conta desse estudo, apoiamos em Certeau (2006, p. 81), para quem em história tudo começa com o gesto de separar, reunir e transformar em documentos certos objetos distribuídos de outra maneira. O Departamento Físico da ACM foi tomado como eixo e ponto de partida, direcionamo‐nos, na procura pelos documentos necessários a esta pesquisa, à Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro; à Federação Brasileira das ACMs, em São Paulo; ao Centro de Memória do Esporte, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre; e às diferentes sedes acmistas do Brasil, que foram implantadas no período estudado e ainda estão em atividade.

Acessamos panfletos, cartilhas, relatórios, atas e estatutos das diferentes sedes acmista; no entanto, uma importante fonte para esse estudo foi o periódico Mocidade: Revista Mensal das Associações Christãs de Moços no Brasil, que, como “órgão oficial das Associações Cristãs de Moços no Brasil”, funcionou como um instrumento estratégico na circulação de objetivos, métodos, saberes e práticas que diziam da constituição do esporte na instituição.

Nesse conjunto de fontes, foi possível perceber a estrutura, as ações e as prescrições que caracterizaram a construção de um projeto acmista de formação para o jovem brasileiro, especialmente no que tange a presença do Departamento Físico na formação física do acmista. Porém, esse projeto de formação física é pensado, quase exclusivamente, a partir de fontes da própria ACM. Assim, foi a partir dos fios e da procura dos rastros5 nas linhas e entrelinhas, nas contradições internas, nos interditos, que procuramos compreender a presença do Departamento Físico no projeto formador das Associações Cristãs de Moços.

O Departamento Físico nas ACMs brasileiras

A Associação Cristã de Moços no Brasil, desde sua criação, já apresentava, em seu projeto, a necessidade de uma formação física. No primeiro Estatuto da ACM carioca, em 1893, está contemplada, dentre seus fins, a promoção do “bem physico” (Associação Cristã de Moços, 1893, p. 03). Porém, não há indícios de uma comissão específica responsável pela implantação das ações necessárias para o alcance desse objetivo, ficou a tarefa a cargo da Comissão de Divertimentos (Associação Cristã de Moços, 1893, p. 07).

A ausência de uma comissão específica para o assunto manteve‐se nos Estatutos da ACM carioca (1898, 1901) e de Porto Alegre (1901), apareceu, inicialmente, no Estatuto da ACM de Porto Alegre, em 1904, como Comissão de Ginástica, e, posteriormente, no Estatuto da ACM do Rio de Janeiro, em 1907, como Comissão de Exercícios Físicos3. A oficialização da Comissão de Ginástica, em 1904, na ACM de Porto Alegre, foi uma ação institucional para efetivar a organização e a coordenação da ginástica, caracterizada como atividade que contribuiria para a formação física.

Nos momentos iniciais, era necessário obter meios efetivos para a oferta da ginástica, os quais incluíam o espaço, o material e um número mínimo de alunos. O espaço físico sempre foi um problema enfrentado pelas ACMs brasileiras, as quais, para se instituir, por vezes tiveram de se adaptar aos prédios alugados, os quais nem sempre atendiam às propostas das ações acmistas, que tiveram de se adequar ao espaço disponível. Na ACM de Porto Alegre, percebe‐se, em 1914, a inauguração de uma nova sede, considerada um “excelente local, onde o movimento tem aumentado bastante”. Porém, não é encontrada, na descrição da sede, a presença de um espaço próprio que atendesse à ginástica e aos esportes, ficou restrita aos jogos de passatempos.

Na ACM carioca, o Departamento Físico foi criado em 1903. Se, desde 1897, a ACM carioca conseguiu comprar uma sede própria, essa, para o projeto acmista, não apresentava as condições ideais. Constituía‐se em um espaço no qual os exercícios físicos poderiam ocorrer de forma improvisada: “As condições em que este departamento [de exercício físico] tem funccionado nunca foram excellentes devido ao facto do actual edificio não poder comportar perfeitamente um gymnasio” (Associação Cristã de Moços, 1918a, p. 02).

Se as práticas poderiam ocorrer nesse espaço improvisado, a reportagem de autoria do sócio Oswaldo Murgel Rezende, intitulada Educação Physica, publicada inicialmente em 1902 e reproduzida, na íntegra, em 1922, indica que não havia um investimento na oferta de exercícios físicos. O início da década de 1920 marca o momento da intensificação do debate que colocava o Departamento Físico no mesmo patamar de prioridade dos Departamentos Intelectual e Moral‐Religioso.

“Na nossa Associação todos se preoccupam muito com a educação religiosa, moral e intellectual da nossa mocidade, o que é louvável; porém, ninguem infelizmente se preoccupa com a educação physica que não é menos necessaria. Não é para estranhar este facto, quando é commum entre os brasileiros não se dar attenção ao desenvolvimento physico dos moços. Como é triste contemplar a mocidade de hoje, quase que exclusivamente formada de moços pallidos e rachiticos, doentios e fracos!” (Rezende, 1922, p. 17).

Em 1922, quase 20 anos após a criação do Departamento Físico, ainda se lutava pela criação de um espaço apropriado para a prática de exercícios físicos na ACM carioca, foi registrado, pelo sócio acmista Oswaldo Murgel Rezende, que: “no dia em que crearmos o nosso gymnasio, estou certo que a Associação será pequena para conter os associados” (Rezende, 1922, p. 18). Nesse momento, já havia uma ampliação da oferta de ações da Comissão de Exercícios Físicos, quando comparado a 1903. Encontrei no Estatuto da ACM carioca de 1914 que era tarefa dessa Comissão organizar as classes de ginástica, os jogos atléticos ao ar livre e todos os “sports licitos e convenientes” (Estatuto da Associação Cristã de Moços do Rio de Janeiro, 1914, p. 13)4.

Uma reportagem que circulou no periódico oficial das ACMs brasileiras, intitulada As origens da Educação Physica na ACM e adaptada de um livro americano por Henry J. Sims aponta que, no momento da gênese da YMCA, na Inglaterra, não havia ações que contemplassem a formação física como parte integrante das ações de formação do indivíduo. H. J. Sims, tradutor de diversas matérias acerca da educação física nos Estados Unidos, era formado em educação física pela Escola de Chicago, atuou por dois anos em uma YMCA e, como missionário no Brasil, coordenou o Departamento Físico da ACM do Rio de Janeiro a partir de 1912.

Segundo Sims, as primeiras associações criadas nos Estados Unidos, a partir de 1851, tomaram a mesma base da Associação inglesa, seja no “caracter”, seja no “objectivo”, serviram para “o melhoramento da condição espiritual dos moços empregados no commercio de roupas e outros artigos” (Sims, 1921a, p. 01). Somente em 1866 percebe‐se a incorporação da educação física na formação do acmista, no Estatuto da Associação Cristã de Moços de Nova York, que passava a apresentar como propósito “o melhoramento da condição espiritual, intellectual, social e physica dos moços” (Sims, 1921a, p.03).

H. J. Sims (1921a) afirma que foi a primeira vez que se incorporou a formação física no projeto de uma Associação Cristã de Moços, conseguiu‐se lentamente, mas de forma segura, um lugar de destaque dentre as atividades ofertadas pela YMCA, nos Estados Unidos. Luther Halsey Gulick, médico, instrutor de educação física e superintendente do Departamento de educação física da Escola de Formação Internacional da YMCA, em Springfield, Massachusetts, de 1887 a 1900, atuou ativamente em prol da educação física, no século XIX, defendeu a necessidade de se criar uma educação física científica, vinculada a outras esferas do conhecimento, como a fisiologia, a anatomia, a psicologia, a filosofia e a história. Contudo, a cientificidade da educação física passaria, obrigatoriamente, pelas teorias biológicas disseminadas naquele momento, especialmente se vinculadas às teorias da purificação da raça (Park, 2007).

A vinculação com a biologia e com a formação do caráter foi uma das formas encontradas para legitimar a educação física como essencial na formação acmista5. H. J. Sims traduz uma parte do livro Educação Physica, intitulou‐a Fins do exercício physico, e afirma que, apesar de a formação física ter sido inserida no projeto acmista americano desde fins da década de 1870, o objetivo e os princípios do Departamento de Educação Física da YMCA somente receberam “consagração official” a partir de 1892, quando Luther Gulick os estabeleceu (Sims, 1921e, p. 09). Eram eles:

“Primeiro: a saúde é fundamental para o desenvolvimento completo [...] Segundo: que o desenvolvimento completo do caracter christão e da varonilidade depende do exercício physico adequado [...] Terceiro: que se reconhecem diferenças physicas e mentaes fundamentaes nos indivíduos no vários estágios de desenvolvimento, que representam as importantes epocas da vida histórica da raça, e que, nestas occasiões, o indivíduo articularmente é susceptível a fortes influencias na formação de seu caracter e que a educação physica sabiamente ministrada offerece meios capazes de dirigil‐a. Quarto: que o exercício physico offerece os meios com que se superem subtil e viciosas tendencias da vida moderna, desenvolvidas por máos impulsos, com o provimento de diversões e recreações saudáveis para os moços. Quinto: além disso, o exercício physico é factor relevante no impedir os rebaixamentos dos padrões moraes e religiosos dos homens, produzidos pela diminuição da efficiência da resistência vital por meio da fadiga e das doenças preveniveis. Sexto: que o alistamento de homens no serviço voluntário em prol dos outros é princípio básico das Associações Cristãs de Moços”. (Sims, 1921e, p. 11‐12)

Noções similares aos propósitos atribuídos ao exercício físico pelo Departamento Físico acmista podem ser encontradas nos estudos históricos de Vago (2002, 2010), Moreno (2001), Soares (1994, 2005), Crespo (1990), Linhales (2006), Schneider (2004), entre outros. Esses autores, de forma geral, identificaram os discursos que sustentavam a relação entre os benefícios atribuídos ao exercício físico e à produção de um corpo preparado para a vida moderna.

Com diferentes ênfases e recortes, os estudos citados confirmam a circulação de representações do exercício físico como uma preciosa prática na disciplinarização do corpo, necessária para a conquista de uma atitude moral justa e equilibrada, contribuir para o aperfeiçoamento da saúde física, moral e intelectual. Era a concretização do mens sana in corpore sano, que colocava em evidência um projeto de formação que direcionava para a autonomia, para a capacidade de domínio próprio, para a superação dos defeitos e dos excessos, especialmente por meio da vontade individual.

Para a ACM, a eficiência do corpo – pensada intelectual, moral e fisicamente – dependeria da manutenção da saúde. O jovem, se gozasse de boa saúde, estaria preparado para atuar, com eficiência, nos diferentes espaços sociais. Em seu estudo, Vago (2010) identificou, na educação física, uma passagem do “primado da ortopedia” para o “primado da eficiência dos corpos” no processo de escolarização, em Minas Gerais, na década de 1920. Schneider (2004) observou esse mesmo deslocamento, no que tange ao sentido da educação física, na revista Educação Physica, nas décadas de 1930 e 1940. Mesmo que não seja propósito deste estudo analisar, a partir das ACMs brasileiras, o deslocamento ortopedia‐eficiência, percebe‐se que a eficiência é tema recorrente no discurso acmista nas diferentes sedes da instituição desde fins dos anos de 1910 e na década de 1920.

A Associação acredita que a efficiencia individual é determinada por elementos muito mais profundos e mais estáveis do que a força physica: mas não deixa de reconhecer o facto de que a efficacia desses elementos em qualquer homem depende em grande parte, do grau de perfeição em que ele mantém os seus músculos, a sua circulação, os seus nervos, e o seu apparelho alimentar. (Associação Cristã de Moços, 1918b, p. 04).

Na ACM, essa ideia de manutenção da vida estava atrelada à preparação do corpo como um instrumento de eficiência, pronto para servir da melhor forma, em qualquer situação. A tradução de um texto de Hopkins que expressava a necessidade do “corpo máquina”, eficiente, coloca ainda mais em evidência a importância do exercício físico na construção desse corpo.

“O valor de uma machina ou de um organismo se prova vendo‐o funccionar debaixo das exigências difficeis. A raça humana possui uma fonte de recursos magnificos e cada dia obtém novas victorias com o poder e efficiencia de seu organismo” (Mocidade, n° 321, nov. de 1920, p. 08).

Rabinbach (1990), ao estudar a máquina humana – metáfora de trabalho e energia que marcou os pensadores do século XIX –, indica que a ciência teve forte contribuição na construção de um conjunto de conhecimentos sociais que legitimava uma série de ações formativas, inclusive as relacionadas à dimensão física. Seu estudo confirma o surgimento de diferentes formas de trabalhar o corpo, evidencia a necessidade de alcançar um desempenho máximo, com uma maior economia de energia. Essas mudanças culturais foram legitimadas por diferentes projetos de formação.

Nas ACMs brasileiras, o discurso da eficiência contribuiu para legitimar a presença do Departamento Físico e a ginástica como uma prática necessária ao estabelecimento de um padrão corporal que atendesse aos interesses de seu projeto de formação.

Não devemos desconsiderar que a base religiosa imperava frente às outras ações acmistas. Com a parte física, não foi diferente. A instituição aconselhava que o professor de educação física apresentasse uma formação religiosa adequada, o que contribuiria para os investimentos na conversão do associado matriculado nas atividades do Departamento Físico. Uma matéria da revista Mocidade, intitulada H. J. Sims, de autoria desconhecida, apresenta esse missionário como um “typo nobre do norte‐americano, que tem a virtude por norma e o trabalho por satisfação”, como um homem puro na vida privada e na vida pública, um exemplo de saúde moral, corporal e social (Mocidade, n° 279, maio de 1917, p. 08).

H. J. Sims não foi o primeiro a atuar com a educação física nas ACMs brasileiras. Anteriormente a ele, na sede carioca, “em agosto de 1903”, “funcionou a primeira aula de exercícios physicos, dirigida pelo Sr. Guilherme de Abreu” (Mocidade, n° 343, set. de 1922, p. 14). Porém, credita‐se a Maurício Salassa o pioneirismo de professor internacional, com formação em educação física, para coordenar as atividades esportivas, chegou ao Brasil em 1911. E, em substituição a Salassa, que regressou aos Estados Unidos, em 1912, veio o missionário Henry J. Sims (Associação Cristã de Moços, 1912a, p. 30)6. Pode‐se ainda citar a presença de Frederico Guilherme Gaelzer e Renato Eloy de Andrade, brasileiros que foram para os Estados Unidos, nas décadas de 1910 e 1920 respectivamente, para ingressar no curso superior de educação física dos institutos vinculados à YMCA.7

Como diretor e professor do Departamento de Educação Física, H. J. Sims era apresentado como uma pessoa que sabia ensinar, conduzindo com “inteligencia” as dificuldades de cada caso, orientando o sócio em pequenos grupos, para estimular a atenção, ou recorrendo, muitas vezes, ao ensino individual: “para que o aluno ocupe a posição que merece por suas aptidões” (Mocidade, n°279, maio de 1917, p. 08).

“Não é somente um tecnico, um formador de musculos. O seu papel não é crear falso atleta de músculos hipertrofiados, que não pode cerrar os braços por causa de um biceps horroroso. Sendo um perfeito atleta, como o exige a ciencia moderna, isto é apto para tudo, e tudo fazendo sem recorrer à acrobacia, o Professor Sims, particularmente fallando, é um perfeito gentleman, e como homem público – um higienista social que executa e faz executar, que progride e faz progredir”. (Mocidade, n° 279, maio de 1917, p. 08)

A função de Sims extrapolava o cuidado com os “músculos”, ele atuava também como um orientador da moral, de forma que os associados estivessem mais preparados para tirar o máximo de proveito da vida (Mocidade, n° 279, maio de 1917, p. 10).

“Sabe valorisar a saúde dos seus alúnos; e, quando observa que esta não é proporcional ao esforço empregado, procura encontrar um defeito higienico ou alimenticio, às vezes falta de temperança, que paternalmente corrige. No departamento de educação física sabe‐se perfeitamente que um alúno aplicado deve ser um elemento eficiente, física, mental e moralmente falando; e, quando não se revelam estes resultados, existe uma causa a corrigir pelo Corpo Medico”. (Mocidade, n° 279, maio de 1917, p. 09‐10)

A presença de missionários americanos para trabalhar com a educação física nas ACMs brasileiras, recorrentemente, era motivo de euforia. Com a vinda de Salassa e, posteriormente, de Sims, surgiram novas ideias, como a expansão das ações físicas para a comunidade carioca em geral, montaram‐se “aparelhos do Campo Atlético e de Recreio” na Quinta da Boa Vista. Em 1911, o salão do 2° andar da sede social da ACM do Rio de Janeiro foi transformado em ginásio, o qual recebeu “banheiros modernos”, “novos armários para roupas”, assim como aparelhos de ginástica e aparelhos antropométricos. Isso foi visto pelos organizadores como um fato de causar entusiasmo e animação nos sócios e “por certo atrairá à Associação grande número de sócios” (Associação Cristã de Moços, 1912a, p. 09).

Porém, apesar da existência de um Departamento Físico funcionando na Associação Cristã de Moços do Rio de Janeiro desde 1903, havia um pequeno interesse do público nas atividades físicas, nos primeiros anos. Em 1912, com Salassa no cargo de diretor, o Departamento iniciou uma campanha para conseguir 100 alunos, o que indica uma pequena procura pelas atividades ofertadas. Em 1911, a receita total desse núcleo acmista foi de “805$000”, doados pela “Missão Central” para pagar o ordenado do professor, enquanto que a despesa foi de “6:087$040”, ou seja, não houve, em 1911, um montante arrecadado por meio de matrículas. Em 1912, com uma receita mais elevada devido ao acréscimo das verbas provenientes de matrículas e festas, o valor total arrecadado foi de “3:138$700”, apresentou‐se uma despesa de “7:017$620” (Associação Cristã de Moços, 1912a, p. 33‐34).

É possível afirmar que aconteceu uma assimilação lenta e processual da ginástica pelos sócios acmistas. Após quase dez anos sem a organização do Departamento Físico na ACM carioca, tem‐se a impressão de que 1911 e 1912 foram momentos de (re)estruturação, nos quais se investiu na aquisição de uma série de materiais, equipamentos e espaços necessários à prática da ginástica. Em 1914, agora um pouco mais organizado, o Departamento Físico contava com 193 alunos matriculados, com uma receita de “2:470$300” e uma despesa de “8:615$590”. Em 1915, o número de matriculados aumentou para 386, com uma receita de “4:544$000” e uma despesa de “6:347$640” (Associação Cristã de Moços, 1916a, p. 12‐14).

De 1912 a 1915, aumentou o número de pessoas vinculadas ao Departamento Físico, mas ainda permanecia uma defasagem entre receita e despesa, prosseguiu nessa linha até 1918, ano em que a receita foi de “2:426$000” e a despesa de “3:632$920” (Associação Cristã de Moços, 1918a, [s.p.]). Esses números financeiros, de 1911 a 1918, indicam que a instituição acreditava na importância de sustentar as ações do Departamento Físico, mesmo que, para isso, fosse necessário investir nele parte do recurso que poderia ser usado em outras ações, como as do Departamento Religioso, consideradas prioritárias no projeto acmista.

“Teríamos muito que dizer nesse parágrafo de Educação Physica. Mas para dar uma pallida idéa basta‐nos referir que essa secção começou organizando um orçamento de 114$900 no anno de 1906 emquanto que hoje elle apresenta um movimento financeiro de 32:750$000”. (Mocidade, n° 343, set. de 1922, p. 14)

Não encontramos indícios de que esse montante de “32:750$000”, observado em 1922, tivesse representado um resultado positivo entre receita e despesa. No entanto, ele permite inferir que houve um aumento considerável das ações ofertadas pelo Departamento Físico, juntamente ao aumento do número de associados que se vinculavam a esse Departamento. Nesse movimento crescente de ações e de associados, H. J. Sims e outros missionários americanos podem ser indicados como peças importantes na efetivação do exercício físico no projeto acmista brasileiro, principalmente por contribuir para a circulação de uma concepção de educação do corpo na qual a ginástica e o esporte eram destaques.

Considerações finais

As Associações Cristãs de Moços no Brasil foram espaços não escolares de formação. Guiadas pelo princípio de formar o “caráter cristão”, lançaram‐se na tarefa de promover o “bem físico”, “intelectual” e “moral‐religioso” dos sócios. Esses eram os elementos centrais usados na base do projeto formador. O Departamento Físico fez parte dessa estrutura e deve ser pensado na relação com os outros eixos do projeto formador. Se a separação do homem em partes (Intelectual, Moral e Físico) facilitava trabalhá‐las autonomamente, independentes nas ações, o discurso acmista encampava a inter‐relação delas.

A separação entre a formação física e as formações moral‐religiosa e intelectual dava‐se por uma linha tênue. Tratava‐se de uma separação estratégica, funcionalmente articulada para tornar mais eficiente a coordenação das ações direcionadas para cumprir os objetivos específicos de cada formação. Nesse caso, os saberes e as práticas que partiam do Departamento Físico vislumbravam objetivos formativos específicos de seu campo, porém não desconsideravam as relações desse campo de conhecimento das formações moral‐religiosa e intelectual.

O Departamento Físico sustentava o discurso da formação de um corpo viril, forte (mas sem exageros de hipertrofia), saudável, eficiente, preparado para o trabalho, passível de controlar as vontades, recatado e ainda formado a partir dos predicados morais que conduziam os ensinamentos cristãos. Afinal, o corpo era também lugar da moral, da religião e do aprendizado. O corpo deveria, portanto, ser tratado como tal. Além disso, a alimentação adequada, as formas de comportar e agir e as orientações de como deveria ser a atuação do esportista nos momentos de competições e pós‐competição eram elementos que conduziam a uma “reforma dos costumes” nos hábitos corporais dos brasileiros.

Percebemos, ainda, que a execução do projeto de formação das ACM's, no Brasil, privilegiou a formação moral‐religiosa. Isso nos possibilita compreender a falta de implantação de um Departamento Físico na primeira década da presença da instituição no país; ausência de materiais e espaços adequados para os exercícios físicos, direcionamento dos investimentos para outros eixos formativos em detrimento do Departamento Físico. No entanto, o Departamento Físico no início da década de 1920 ganha visibilidade dentro da instituição, em parte devido à circulação de conhecimentos referentes à educação física importantes dos Estados Unidos e veiculados na revista Mocidade e ao debate no campo da educação física que se fortalecia no país.

Acervos e fontes pesquisados

Associação Cristã de Moços. Modelo dos Estatutos de uma Associação Cristã de Moços do Rio de Janeiro. New York/Rio de Janeiro, 1893.

Associação Cristã de Moços. Signaes de Progresso: Relatório do Trabalho da Associação Cristã de Moços do Rio de Janeiro: Anos de 1911‐1912. Rio de Janeiro, 1912a.

Associação Cristã de Moços. Mais dois anos de serviço à comunidade. Rio de Janeiro, 1916a.

Associação Cristã de Moços. Pela Defesa Nacional: os primeiros 25 anos de serviço. Rio de Janeiro, 1918a.

Associação Cristã de Moços. Pela pátria preparando as forças. Rio de Janeiro, 1918b.

Associação Cristã de Moços. Os estudantes na Presente Guerra. Coimbra, 1916.

Clark MA. Em prol da Mocidade: instruções sobre os trabalhos das Associações Cristãs de Moços. Rio de Janeiro: Casa Editora Presbiteriana, 1903.

Estatuto da Associação Cristã de Moços de Porto Alegre. Porto Alegre, 1904.

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Rezende OM. Educação Physica. In: Mocidade, n° 328, 1922.

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Mocidade, Rio de Janeiro, 1898‐1925.

Apoio financeiro

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior ‐ Brasil (CAPES).

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
[Associação, 2002]
Associação Cristã de Moços. 100 anos da Associação Cristã de Moços de São Paulo (1902‐2002). São Paulo: Árvore da Terra; 2002.
[Baía, 2012]
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Associação Cristã de Moços no Brasil: um projeto de formação intelectual, moral e física (1890‐1929) Belo Horizonte.
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Esse estudo contou com contribuições da tese de doutorado desenvolvida na Faculdade de Educação da UFMG, identificada por Baía (2012).

O marco inicial toma como referência a implantação da ACM no Rio de Janeiro, em 1893. Na década de 1920, o movimento acmista no Brasil contava com quatro Associações implantadas, em fase de consolidação: Rio de Janeiro (1893), Porto Alegre (1901), São Paulo (1902) e Recife (1907). Ao se analisarem as edições da revista Mocidade, encontra‐se, a partir de 1924, uma ausência de informações referentes à sede de Recife. No mesmo sentido, na VII Convenção das ACMs no Brasil, realizada em 1929, não há sinais da sede de Recife. Dessa forma, mesmo que seja impreciso o fim das atividades da sede pernambucana, sua extinção revela um novo momento no projeto acmista brasileiro: fortalecia o investimento na consolidação das sedes existentes, abandonava as iniciativas de implantação de novas sedes no Brasil. É esse novo momento que adotamos como marco final deste estudo.

Usamos neste estudo a palavra “exercício físico” no sentido apreendido das fontes, representa indistintamente um conjunto de práticas, como ginástica, jogos atléticos, jogos de passatempos e esportes.

Não foi objeto deste estudo descrever minuciosamente as práticas que eram organizadas a partir dos Departamentos Físicos das diferentes sedes acmistas brasileiras. As fontes usadas apresentam indícios da presença da ginástica, do esporte e de jogos e passatempos nas diferentes sedes, em momentos distintos.

No periódico oficial das ACMs, encontra‐se que Salassa foi sucedido por D. P. Cross, que se afastou das atividades para se alistar no Exército inglês, na Primeira Guerra Mundial. Foi substituído por H. J. Sims.

Frederico Gaelzer chegou aos Estados Unidos em 1919; e Renato Eloy, em 1920. Cf. Relatório que Frederico Guilherme Gaelzer enviou de Chicago, em 1919, para a Diretoria da Associação Crista de Moços de Porto Alegre. Disponível para consulta na revista Mocidade (n° 319, set. de 1920). Sobre a trajetória de Renato Eloy, especialmente em Belo Horizonte, confira Silva (2009).

Idiomas
Revista Brasileira de Ciências do Esporte

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