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Vol. 41. Núm. 1.
Páginas 1-124 (Enero - Marzo 2019)
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Vol. 41. Núm. 1.
Páginas 1-124 (Enero - Marzo 2019)
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DOI: 10.1016/j.rbce.2018.04.002
Open Access
Profissionais de Educação Física de academias de ginástica do Rio de Janeiro e a pluralidade de concepções de corpo
Physical education professionals in fitness centers of Rio de Janeiro and the variety of conceptions of the body
Profesionales de educación física de gimnasios de Rio de Janeiro y la amplia variedad de concepciones del cuerpo
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Alan Camargo Silva
Autor para correspondencia
alan10@zipmail.com.br

Autor para correspondência.
, Diego Costa Freitas, Sílvia Maria Agatti Lüdorf
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Educação Física e Desportos, Núcleo de Estudos Sociocorporais e Pedagógicos em Educação Física e Esportes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
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Quadro 1. Perfil dos profissionais entrevistados. (Fonte: Dados originais da pesquisa)
Resumo

Os sentidos e os significados atribuídos ao corpo podem variar de acordo com o meio socioeconômico e cultural. Assim, objetiva‐se investigar e comparar como o profissional de Educação Física lida com a pluralidade de concepções de corpo que atravessam as academias de ginástica de diferentes portes e localidades do Rio de Janeiro. Por meio de entrevistas etnográficas feitas com 29 profissionais, foram identificadas peculiaridades acerca dos usos do corpo em distintas academias de ginástica, conforme o contexto social. Tais aspectos são potencialmente importantes para se pensar a intervenção do profissional de Educação Física.

Palavras‐chave:
Educação física
Academias de ginástica
Imagem corporal
Cultura
Abstract

Representations and senses attributed to the body could vary due to social and cultural conditions. The aim of this paper is to investigate and to compare how Physical Education professional deals with different body conceptions. Ethnographic interviews were applied to 29 professionals who worked in fitness centers of different sizes and in a variety of locals in Rio de Janeiro. Results indicated singularities according to the different social contexts that must be considered by Physical Education professionals according to the public.

Keywords:
Physical education
Fitness centers
Body image
Culture
Resumen

Las representaciones y los significados atribuidos al cuerpo pueden variar de acuerdo con el entorno social, económico y cultural. El objetivo del trabajo fue analizar y comparar cómo el profesional de educación física lidia con la amplia variedad de concepciones del cuerpo que se encuentran los gimnasios de diferentes tamaños y localidades de Rio de Janeiro. A través de entrevistas etnográficas feits a 29 profesionales, se identificaron peculiaridades acerca de los usos del cuerpo en diferentes gimnasios, de acuerdo con el contexto social. El profesional de educación física debe tener en cuenta estos aspectos potencialmente importantes en su intervención.

Palabras clave:
Educación Física
Gimnasios
Imagen corporal
Cultura
Texto completo
Introdução

Representativo no cenário brasileiro, há décadas o Rio de Janeiro tem se transformado nos seus aspectos sociais, econômicos, culturais e políticos. Nos últimos anos, sobretudo, tem adquirido mais visibilidade também no cenário internacional, muito em virtude de sediar grandes eventos, como algumas partidas da Copa do Mundo de Futebol, em 2014, e os Jogos Olímpicos, em 2016.

Longe de se fixar de forma inflexível nos atributos corporais compartilhados na cidade do Rio de Janeiro, o que poderia caracterizar um determinismo geográfico (Laraia, 2005; DaMatta, 2010), ressalta‐se que há uma significativa pluralidade de noções de corpo na cidade em função de distintas realidades socioeconômicas e culturais concernentes (mas não somente) às diferentes localidades (Gontijo, 2007).É nesse contexto complexo e instigante que as academias de ginástica do Rio de Janeiro constituem‐se como um dos principais locais onde os sujeitos negam, incorporam ou ressignificam inúmeros atributos corporais valorizados socialmente. Conforme Quelhas (2012), a cidade do Rio de Janeiro é um dos polos mais avançados do mercado do fitness, principalmente pela quantidade e diversidade de empresas do ramo1.

Alguns estudos detectaram que as representações de corpo nas academias de ginástica cariocas podem variar em função do perfil do público e da localidade (Santos e Salles, 2009; Silva, 2014). Pesquisas em academias da zona sul do Rio de Janeiro demonstram, por exemplo, que a preocupação com a aparência e o autogerenciamento da saúde são aspectos associados às práticas corporais (Malysse, 2007; Sabino, 2004). Já em regiões do Rio de Janeiro com cenário de baixo desenvolvimento econômico, privilegia‐se a malhação pesada, na tentativa de esculpir os corpos com formas mais volumosas e musculosas (Votre et al., 2008; Freitas et al., 2011)2.

O profissional de Educação Física tem adquirido cada vez mais relevância nesse cenário somático, pois é responsável por ministrar e gerenciar as práticas corporais para diversos propósitos, como saúde, bem‐estar, alcance de melhor aparência física, dentre outros. Trata‐se, portanto, de elemento central em relação às práticas corporais, no entanto ainda pouco estudado. Como esse profissional lida com as diferentes concepções de corpo? Haveria implicações para sua prática?

O presente estudo pauta‐se em alguns referenciais antropológicos, como a teoria social e o corpo. Ao mesmo tempo em que a sociedade tem estruturas objetivas que tendem a modular o pensamento e a ação dos sujeitos, se constitui de representações que os influenciam cotidianamente. Assim, reconhece‐se que há peculiaridades nos usos do corpo a partir de determinadas condições socioeconômicas e culturais (Bourdieu, 1983; Boltanski, 2004).

Nessa perspectiva, o presente estudo tem por objetivo investigar e comparar como o profissional de Educação Física lida com a pluralidade de concepções de corpo que atravessam as academias de ginástica de diferentes portes e localidades do Rio de Janeiro3.

Procedimentos metodológicos

Para efeito comparativo4, a investigação foi feita na cidade do Rio de Janeiro em academias de grande porte situadas na Zona Oeste da cidade e em academias de pequeno porte localizadas na Baixada Fluminense (Bertevello, 2006). A escolha por estudar essas regiões específicas se deve ao objetivo de analisar, teoricamente, realidades e públicos diferentes. As academias de grande porte estudadas têm ampla variedade de atividades, atendem diferentes públicos e oferecem serviços associados, como: nutrição, fisioterapia, lojas de roupas e acessórios esportivos, salão de beleza, entre outros. São frequentadas, em sua maioria, por um público de maior poder aquisitivo. Já as academias de pequeno porte têm poucos funcionários e apresentam apenas atividades mais tradicionais no meio fitness, como ginástica localizada e musculação, com mensalidades mais acessíveis.

O ponto forte da análise comparativa qualitativa é sua ênfase em uma compreensão conjuntural, visto que acarreta combinações de elementos produtores de resultados únicos, isto é, singulares (Becker, 2007).

Os critérios para seleção dos sujeitos foram: a) ser formado em Educação Física há pelo menos um ano; b) atuar com modalidades ligadas ao fitness, como ginástica (e suas variações) e/ou musculação.

Foram aplicadas entrevistas etnográficas, guiadas por questões relacionadas ao trabalho do profissional de Educação Física diante do corpo, a 29 profissionais de Educação Física5 de nove academias. Desses, 17 atuantes em quatro academias da Zona Oeste e 12 atuantes em cinco academias da Baixada Fluminense, vide Quadro 1:

Quadro 1.

Perfil dos profissionais entrevistados. (Fonte: Dados originais da pesquisa)

Sujeitos  Profissionais da Zona Oeste  Profissionais da Baixada Fluminense 
Sexo  5 do sexo feminino

12 do sexo masculino 
1 do sexo feminino

11 do sexo masculino 
Formação acadêmica  5 graduados

12 pós‐graduados 
4 graduandos (2 deles são provisionados)6
6 graduados
1 pós‐graduado 

O presente trabalho não se caracterizou por um clássico estudo etnográfico, mas a entrevista etnográfica (Beaud e Weber, 2007) foi adotada com o objetivo de apreender outros aspectos que enredam o pesquisador, como o local, as circunstâncias da entrevista e/ou comportamentos dos profissionais, que porventura poderiam auxiliar na interpretação da realidade estudada.

Os procedimentos empregados na pesquisa estão de acordo com os critérios éticos estabelecidos nos termos da Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.

Apresentação e discussão dos dadosBeleza ou belezas corporais?

Em termos gerais, os achados sugerem que a visão do profissional de Educação Física da Zona Oeste e da Baixada Fluminense acerca do corpo se vincula basicamente a determinados ideais de beleza, buscados pelos alunos nas academias de ginástica:

Emagrecimento. Todos querem. E hipertrofia também. Ninguém busca flexibilidade, condicionamento... falar que quer melhorar a saúde é disfarce para se chegar à estética. (PZO3)

Bom, acho que o que tem sido mais valorizado no corpo atualmente é o lado estético. (PZO4)

Ligado à estética porque o pessoal já há algum tempo tem falado sobre glúteo, sobre perna, mas na maioria o abdômen é sempre o vilão da coisa. [...] Então esse seria um ponto aonde todo mundo quer chegar. (PBF7)

A estética, no sentido de aparência física, emerge como categoria central ligada ao corpo e configura‐se como objeto de desejo e fonte de inspiração para homens e mulheres, mesmo em academias de ginástica de regiões aparentemente antagônicas. A importância dada à dimensão visual do corpo atualmente pode atravessar diferentes grupos humanos ligados por distintos marcadores sociais como de gênero, idade, classe social, etc. (Lipovetstky, 2009). Nesse contexto, as academias de ginástica adquirem relevância por fazerem parte da seara das modificações corporais (Featherstone, 1999; Crossley, 2005).

Entretanto, apesar da importância dada à beleza corporal em ambas as regiões e respectivos públicos, há nuances nesses usos do corpo e no conjunto de aspectos ligados ao corpo visto como bonito. Em termos gerais, embora haja uma semelhança entre a Baixada Fluminense e a Zona Oeste na busca do aluno por uma aparência aceita socialmente, particularidades existem no esquadrinhamento do corpo.

Os profissionais de Educação Física da Zona Oeste encontram frequentadores exigentes na modelagem das regiões corporais, privilegiando um corpo com musculatura definida, mas proporcional e discreto:

[...] nem muito forte, nem muito fraco, estar com um percentual de gordura pequeno, isso tem sido mais valorizado do que aquele corpo que o pessoal gostava muito, muito hipertrofiado, está caindo esse modelo. [...] o pessoal tá querendo ficar mais seco, diminuindo mais o percentual de gordura, um corpo mais modelado. (PZO9)

Rio de Janeiro, região de praia, o culto ao corpo é muito grande, aquele padrão de ter que ficar magrinho, saradinho, isso é muito complicado e em prol disso muitas pessoas fazem muitas coisas que não tem nada a ver. (PZO11)

Houve uma tendência de os profissionais da Zona Oeste da cidade, que atendem a uma clientela de maior poder aquisitivo, comentarem que o culto ao corpo passou de um ideal de beleza grande ou bruto para um modelo mais slim. Diminutivos como durinho, saradinho, bonitinho, certinho são recorrentes nos discursos dos profissionais indicando que “lá para a galera rica”, o corpo rústico ficaria em segundo plano:

A qualidade muscular vem crescendo bastante. No fim da década de 90, os padrões eram outros, homens enormes, bombadões e hoje é wellness. (PZO2)

As mulheres nunca estão satisfeitas. Acham que precisam perder dois quilos, [...] estão sempre buscando melhorar (para elas) perdendo peso, aumentando massa muscular, abdominal, condicionamento físico. (PZO4)

Esse achado implica de maneira direta na atuação dos profissionais de Educação Física, na medida em que são acionados primordialmente para elaborar programas de treinamento com vistas a reduzir o percentual de gordura, aumentar o gasto energético, indicar práticas corporais voltadas à aptidão cardiorrespiratória e recomendar produtos que colaborariam para a aquisição de um corpo mais definido, porém proporcional e discreto. Isso não significa afirmar que todos ajam da mesma maneira, mas, conforme os pesquisados, as demandas dos alunos desses locais tendem a focar nesses tipos de beleza:

O nosso objetivo aqui principal (academia) é saúde e estética, tenta modelar o corpo, focado na saúde, [...] trabalho de força e um trabalho de condicionamento aeróbio (esteira) é importante ter sempre os dois. (PZO9)

Hoje estamos falando muito na chamada tríade aeróbio, força e flexibilidade em equilíbrio, [...] e orientando também a parte de alimentação, procurar um profissional adequado, um nutricionista. (PZO11)

Aparentemente, de modo peculiar, na Baixada Fluminense emerge uma ideia da cultura da malhação pesada, como os profissionais de Educação Física apontam. Assim, a busca pelo culto ao corpo é vista de forma mais explícita:

O aluno, ele não vem com a ciência de ter, procurar o seu bem estar primeiramente. Ele não tá preocupado com isso, ele quer apenas ter resultado, independente do que vá fazer, se aquilo vai prejudicar ele ou não. (PBF8)

Às vezes chega uma pessoa, o professor não tem esse tipo de visão sobre a saúde, aí a pessoa vira e fala assim “eu sou magro, quero ficar forte”, aí o cara toma de tudo, incluindo anabolizantes e esteroides, para poder ficar forte. (PBF7)

Eles veem a gente aqui na academia, eles acham que a gente (o profissional de Educação Física) é uma farmácia, e pede: “O que pode passar para mim?”, “Uma parada para ficar forte”, “passa uma dieta para ficar forte”. (PBF10)

Parece que a hipervalorização das formas corporais mais volumosas na Baixada Fluminense deve ser exercida independentemente dos dispositivos para se chegar a um modelo de corpo considerado bonito. O culto ao corpo com formas e volumes mais destacados nessas academias indica que é possível chegar a determinados padrões de corpo acima de qualquer custo, que não seja somente o financeiro.

Um dado que auxilia a compor esse panorama foi observado quando das entrevistas etnográficas, em que o pesquisador presenciou o comércio, no interior do estabelecimento, de substâncias supostamente ilícitas, trazidas para alguns clientes. Entretanto, o corpo grande e “pra ontem” cultuado nessa região popular do Rio de Janeiro parece ser uma problemática para a atuação do profissional de Educação Física, pois manifestaram certa inconformidade ao verem suas atuações associadas a outros aspectos, por vezes de caráter duvidoso, que cercam a busca pela beleza corporal.

Assim, comparativamente, parece haver uma lógica de que na Baixada Fluminense existe uma relação instrumental com o corpo em si e, na Zona Oeste, uma estilização de vida mais ampla no sentido de fazer a prática corporal com menos força, resistência, sacrifício etc.:

Ele não quer saber de nada, se aquele exercício vai fazer mal, se aquele exercício vai prejudicar ele futuramente, não, ele quer ter resultado. (PBF8)

Que o aluno consiga fazer os exercícios de forma adequada, que consiga realmente ter benefícios numa execução, não exagerando na sobrecarga, que tenha um risco menor de se lesionar. De forma segura, com tempo de intervalo, recuperação, alimentação adequada que ele deva ter para que consiga atingir os objetivos físicos. (PZO16)

Essas variações de relações com o corpo, que poderiam ser denominadas de instrumental ou estilização de vida, apontadas por Bourdieu (1983) ao se referir ao modo como as diferentes classes usam o corpo, apresentam diferenças derivadas do contexto social em que estão inseridas e do capital cultural acumulado ao longo da vida.

Portanto, há indícios de singularidades no que se refere aos usos do corpo nas academias de diferentes portes, como visto em Hansen e Vaz (2006), ou entre e as classes mais altas e as populares, conforme Silva (2014). Embora haja diferentes concepções de beleza no interior dos mesmos grupos sociais, foi possível observar tendências de usos do corpo compartilhadas por determinada inserção socioeconômica e cultural (Boltanski, 2004).

Vendendo para clientes ou orientando alunos?

Em relação à maneira como os profissionais de Educação Física lidam com as múltiplas noções de corpo nas academias de ginástica dos contextos socioeconômicos e culturais estudados, foi observada também outra importante singularidade, em que pese a natureza comercial dos estabelecimentos. Foram detectadas duas perspectivas de atuação que, longe de ser reducionistas, emergem como instigantes focos de análise: a mercadológica, na qual há preocupação de se vender os benefícios das práticas corporais ao cliente; e a de orientação, na qual há preocupação em orientar de maneira “pedagógica” os alunos.

No caso das academias de ginástica da Zona Oeste, o aspecto financeiro parece sobressair na relação entre profissional e frequentador, marcada por um discurso de adesão do cliente:

De acordo com o desejo do cliente. Devemos levar a parte técnica para o aluno chegar ao objetivo dele. Ele compra o produto que nós vendemos e assim ele chega ao objetivo. (PZO3)

Na verdade, ali é um comércio, pois se não fizer o que ele quer, eu vou perder o aluno, e se eu perder o aluno eu vou perder dinheiro, tem que ter o bom senso e o jogo de cintura, para que ele faça tudo do jeito que eu quero, mas não deixando os objetivos dele de lado. (PZO17)

O aluno vem já com um objetivo para academia, cada um tem o seu objetivo, e nas avaliações já conseguimos ver isso, [...] temos que fazer um trabalho individualizado, pois o aluno é nosso cliente, então tem que deixar ele feliz para continuar na academia [...]. (PZO9)

Há indícios de que o apelo mercadológico mais representativo nas academias da Zona Oeste interfere diretamente na atuação do profissional de Educação Física. Os aspectos técnico‐científicos que respaldam a atuação dos profissionais de Educação Física são relativamente reproduzidos ou modulados a partir principalmente dos interesses do cliente. Muitas vezes, segundo os profissionais, as suas intervenções com as práticas corporais ficam em segundo plano ou se estabelecem de forma negociada com os mesmos.

O apelo à expressão “adesão ao cliente” nessas academias de ginástica de grande porte estudadas parece fazer parte da linguagem de marketing dos profissionais. Nesse sentido, a situação de interação entre profissional e cliente não se concretiza meramente por saberes biomédicos, mas também por um contexto de venda e compra de ideais de corpos que influencia significativamente o engajar‐se nas práticas corporais, como visto em Silva (2014).

Ao que o estudo indica, a academia assemelha‐se a um negócio para se obterem lucros e a qualidade do trabalho do profissional de Educação Física pode ser julgada pelo nível de aceitação do cliente (Coelho Filho e Votre, 2010; Furtado, 2007). Quanto maior o porte da academia de ginástica e o status socioeconômico que envolve os frequentadores, como nas academias de grande porte estudadas, possivelmente aumente também a chance de se consolidar a ideia de Furtado (2009) de que o frequentador é um cliente e o profissional de Educação Física, um vendedor.

O cliente das academias de grande porte transparece possuir um capital financeiro que o coloca em uma suposta relação de superioridade perante o profissional de Educação Física:

Academia hoje é empresa: se não fizer do jeito que eles querem, está despedido [...]. Quando você trabalha com classe A+, acham que você tem que ser submisso, que você é o motorista dele. Não acreditam no professor de Educação Física. Teve um caso aqui de um aluno que falou, na minha cara, que achava um absurdo um professor ganhar mais de 4 mil reais, [...] porque um engenheiro recém‐formado quando consegue ganhar isso é porque tem sorte. (PZO2)

[...] sabe que tem gente que não adianta. Ainda mais com o povo aqui da Barra. Tem muita mulher desocupada, ficam naquele negócio de silicone no peito, na bunda, botox nos grandes lábios, cada coisa que você não acredita! Vá você querer mudar a cabeça dessa pessoa. Não dá! (PZO1)

Desse modo, o profissional de Educação Física cria estratégias de convencimento em sua intervenção para não contrariar os anseios dos frequentadores. As ideias de Boltanski (2004) sobre a autoridade do médico e as formas de se expressar podem ser aplicadas, de maneira análoga, também entre o profissional de Educação Física e seus clientes. Nessas academias de ginástica, a ideia de profissional fica associada à de prestador de serviço que a todo instante se articula no sentido de legitimar o seu espaço de atuação com os clientes, a princípio, bastante informados sobre os cuidados do corpo. Assim, o processo de mercantilização das práticas corporais é uma das marcas da intervenção do profissional de Educação Física nas academias de grande porte investigadas, de bairros considerados nobres.

Nesse contexto, perante os diferentes propósitos dos alunos, mas, sobretudo, àquela aparência corporal menos rústica delineada pelas classes mais altas, os profissionais, a princípio, direcionam sua atuação para atender esses modelos de corpos. A busca de formas de fazer as práticas corporais que atendam aos interesses e às necessidades estéticas do cliente tende a estabelecer intervenções semelhantes que, segundo Fonseca et al. (2009), podem gerar certas formas de atuar como profissional de Educação Física em academias de ginástica de grande porte. No ponto de vista de Quelhas (2012, p. 117), “[...] o trabalho deste profissional reduz‐se e restringe‐se em termos técnicos‐profissionais e amplia‐se em termos sócio‐afetivos [...] para a continuidade (fidelização) do cliente na academia”.

Já nas academias de ginástica da Baixada Fluminense, parece existir uma relação de maior proximidade na relação entre profissional e frequentador, mais precisamente no sentido do orientar ou até mesmo, em alguns casos, de educar esse frequentador a um trabalho mais adequado, no ponto de vista do profissional:

[...] muitos têm um conhecimento, tanto de mídia quanto de que “ah, alguém falou isso comigo”, então a gente, claro que o professor não sabe tudo, mas dentro do conhecimento que a gente tem, a gente vai tirando essas dúvidas. [...] Então, o aluno começa a realmente te escutar. [...] A partir do momento em que eles querem saber é porque eles confiam em você [...] (PBF3)

As pessoas chegam com uma mentalidade, muitas das vezes uma mentalidade errada. A minha função, dentro daquilo que eu aprendi, que eu absorvi e tô absorvendo cada vez mais porque a gente nunca deixa de aprender, né, é tentar mudar essa visão para uma visão melhor. (PBF8)

Embora as academias de ginástica dessas regiões consideradas mais populares do Rio de Janeiro estejam também ligadas à noção de clientela, foi possível observar que há certa tendência dos profissionais de Educação Física de considerar os frequentadores essencialmente como alunos. Na Baixada Fluminense, o lugar de profissional responsável por lidar com as práticas corporais assume também a contratação de professor, na medida em que há uma tentativa de desmistificar ou romper com certos ideais de corpos cultuados pelos alunos. Os profissionais buscam impor suas racionalidades biomédicas a partir do que supostamente seria melhor para o corpo do aluno, pois esse, na maioria das vezes no cotidiano da academia de ginástica, conforme relatado, carece de informações ou tem uma visão “errada” de como se engajar nas práticas corporais. De modo semelhante à relação hierárquica entre médico‐paciente descrita por Boltanski (2004), pode‐se argumentar que profissional de Educação Física assume o papel de detentor do conhecimento perante os seus alunos. Os discursos dos profissionais apontam e privilegiam a questão do ensinar, mudar, orientar ou explicar o que se deve fazer com o corpo, aproximando‐se da perspectiva de que, independentemente do âmbito de atuação, o profissional de Educação Física é um professor ou educador (Lüdorf, 2004).

Nesse sentido, as formas de aparências físicas mais brutas privilegiadas pelas classes ditas aqui como populares das academias de ginástica da Baixada Fluminense, estudadas neste trabalho, pareciam, por vezes, ser questionadas criticamente pelos profissionais de Educação Física. Orientar os alunos em relação ao corpo seria uma tarefa, nesse caso, mais relevante do que propriamente vender as práticas corporais, como ocorreu na perspectiva mercadológica.

Conclusão

Apesar de haver ideais de beleza valorizados pelos alunos em ambas as regiões, detectou‐se que os modelos e a forma de se chegarem a eles são construídos de modo distinto nas academias de ginástica de diferentes portes e localidades do Rio de Janeiro.

Observaram‐se diversas maneiras de ser um profissional de Educação Física de academia de ginástica, uma vez que, durante o seu cotidiano laboral, as suas relações com o outro podem variar, a depender das condições socioeconômicas e culturais que enredam o espaço das práticas corporais. Na perspectiva de mercantilização, há um processo de compra e venda das práticas corporais em que o profissional pode ficar relegado a segundo plano e seu conhecimento parece ficar aquém dos desejos dos clientes. Por outro lado, a relação pode ser mais próxima e o profissional orienta ou mesmo tenta dissuadir o aluno de comportamentos, a princípio, destoantes do ponto de vista técnico.

Independentemente dos anseios dos alunos por corpos mais delgados ou musculosos, os dados indicam a relevância de se pensar como a atuação do profissional de Educação Física em academias de ginástica pode ser contextualizada e particularizada a partir de determinados grupos sociais.

Vale lembrar que a ideia neste trabalho não foi essencializar ou rotular a forma dos usos de corpo nas academias de ginástica do Rio de Janeiro, tampouco apontar, de modo determinista/reducionista, que na Zona Oeste ou na Baixada Fluminense estão presentes exclusivamente certas maneiras de cultuar o corpo. Contudo, o que foi possível apreender é que a depender principalmente do público frequentador e do porte, o ambiente das academias de ginástica pode apresentar diferentes realidades e múltiplas concepções de corpo, na medida em que não existe “o corpo carioca” nem “o corpo fluminense”, mas “corpos no plural” do/no Rio de Janeiro.

Financiamento

O presente trabalho não contou com apoio financeiro de qualquer natureza.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Há outros estudos feitos em academias de ginástica em locais “populares” fora do Estado do Rio de Janeiro (Iriart e Andrade, 2002; Chaves, 2010).

Este estudo foi derivado do projeto de pesquisa intitulado “O corpo na contemporaneidade e o professor de Educação Física atuante em academias de ginástica”, desenvolvido no Núcleo de Estudos Sociocorporais e Pedagógicos em Educação Física e Esportes (NESPEFE), da Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob coordenação da Profª. Drª. Sílvia M. Agatti Lüdorf.

Resultados da primeira etapa da pesquisa foram publicados em Freitas et al. (2011).

Ao longo da apresentação e discussão dos dados, os profissionais da Zona Oeste foram identificados por “PZO” e os da Baixada Fluminense por “PBF”.

Foram encontrados sujeitos ainda não graduados atuando com todas as atribuições de um profissional já formado. Alguns dos profissionais atuantes havia mais tempo na região, antes de receber a graduação, já trabalhavam legalmente através de concessões dadas pelo Conselho Regional da área de Educação Física (CREF), chamados de provisionados.

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