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Vol. 40. Núm. 3.Julio - Septiembre 2018
Páginas 213-336
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Vol. 40. Núm. 3.Julio - Septiembre 2018
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Artigo original
DOI: 10.1016/j.rbce.2018.03.002
Open Access
Tradução e adaptação cultural da Escala de Perfeccionismo para Aparência Física (PAPS) para a língua portuguesa no Brasil
Translation and cultural adaptation of Perfectionism Scale or Physical Appearance (PAPS) for portuguese in Brazil
Traducción y adaptación cultural de la Escala de Perfeccionismo del Aspecto Físico (PAPS) al portugués de Brasil
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Lucilene Ferreiraa,
Autor para correspondencia
luci_ferreira2003@yahoo.com.br

Autor para correspondência.
, João Fernando Corazzab, Jéssica Naira Franciscob, Angela Nogueira Nevesc
a Universidade Federal de São Carlos, Programa de Pós‐Graduação em Fisioterapia, São Carlos, SP, Brasil
b Universidade do Sagrado Coração (USC), Laboratório de Pesquisa em Fisioterapia (Lapefis), Escola de Educação Física do Exército , Bauru, SP, Brasil
c Escola de Educação Física do Exército, Seção de Pesquisa e Extensão, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
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Tabela 1. Frequência das respostas para os itens da Versão em Português Brasileiro da PAPS
Resumo

O presente artigo objetivou fazer a adaptação cultural da Physical Appearance Perfectionism Scale (PAPS) para o Brasil. Seguiu guideline que preconiza traduções, síntese das traduções, retrotraduções, reunião de comitê de peritos e pré‐teste. Todo o material das traduções, síntese e retrotraduções foi discutido pelo comitê de juízes que estabeleceu uma versão em português brasileiro com equivalências conceitual, cultural, idiomática e semântica, que foi aprovada pelos 50 participantes do pré‐teste. A análise da frequência das respostas dos itens indicou ser necessária atenção ao item 3 em futuro estudo psicométrico. O processo de adaptação cultural da PAPS foi um rigoroso processo. Todavia, para seu uso em pesquisas, ainda é necessário estudo psicométrico.

Palavras‐chave:
Aparência física
Perfeccionismo
Inquéritos e questionários
Tradução
Brasil
Abstract

The aim present article was made the cultural adaptation of Physical Appearance Perfectionism Scale (PAPS) to Brazil. We followed a guideline that advocates the accomplishment of translations, synthesis of translations, back‐translations, committee and pre‐test. All the translations, synthesis and back‐translations material were discussed by the experts?? committee, which established a Brazilian Portuguese version with conceptual, cultural, idiomatic and semantic equivalence, which was approved by the 50 participants of the pre‐test. The analysis of the frequency of the answers of the items indicated that attention should be given to item 3 in a future psychometric study. The process of cultural adaptation of PAPS was a rigorous process. However, for its use in research, it is still necessary to psychometric study.

Keywords:
Physical appearance
Perfectionism
Surveys and questionnaires
Translating
Brazil
Resumen

El objetivo del presente artículo fue realizar la adaptación cultural de la Escala de Perfeccionismo del Aspecto Físico (PAPS) a Brasil. Seguimos una guía que aboga por la realización de traducciones, síntesis de traducciones, traducciones retrospectivas, comité de expertos y pretest. Todo el material de traducción, síntesis y traducciones retrospectivas fue valorado por el comité de expertos, que estableció una versión en portugués brasileño con equivalencia conceptual, cultural, idiomática y semántica, que fue aprobada por los 50 participantes del pretest. El análisis de la frecuencia de las respuestas de los ítems indicó que se debe prestar atención al ítem 3 en un futuro estudio psicométrico. El proceso de adaptación cultural de la PAPS fue riguroso. Sin embargo, todavía es necesario un estudio psicométrico antes de utilizarla en investigaciones.

Palabras clave:
Apariencia física
Perfeccionismo
Encuestas y cuestionarios
Traducción
Brasil
Texto Completo
Introdução

A busca por perfeição e padrões de realização excessivamente elevados, aliados a uma tendência de avaliar o próprio comportamento de forma excessivamente crítica, podem ser caracterizados como comportamentos perfeccionistas. Pessoas perfeccionistas valorizam demasiadamente a avaliação que outras pessoas fazem de si e geralmente sentem‐se pressionadas a não decepcionar o outro e submetem‐se a padrões elevados de níveis de desempenho (Flett e Hewitt, 2002).

Os sujeitos perfeccionistas adotam um estilo de vida demarcado por um esforço intensivo, persistente e compulsivo para atingir metas dificilmente acessíveis, acompanhado por avaliações pessoais críticas, excessivas e severas. O perfeccionismo e seus excessos podem acarretar danos à saúde do indivíduo, tem que ser estudado não apenas pelos profissionais de saúde mental, mas por todos os profissionais de saúde. O entendimento atual é que não existe um traço perfeccionista geral. Antes, o mesmo tem domínios específicos que se dirigem a variados aspectos da vida do indivíduo. Nesse sentido, evidências mais marcantes entre os domínios trabalho, área acadêmica, esporte, relações interpessoais no âmbito familiar e aparência física (McArdle, 2010; Mitchelson, 2009; Stoeber e Stoeber, 2009; Yang e Stoeber, 2012).

O perfeccionismo em relação à aparência pode ser definido como uma forma de domínio‐específico do perfeccionismo que compreende dois componentes: esperança de perfeição e preocupação com a imperfeição (Yang e Stoeber, 2012). Esperança de perfeição se relaciona com os esforços perfeccionistas para conquistar a aparência física desejada, ideal. A preocupação com a imperfeição relaciona‐se com os aspectos de preocupação com as falhas ainda existentes e o julgamento externo (Stoeber e Yang, 2015).

Essa lógica conceitual se apoia na concepção de que o perfeccionistas teriam duas grandes dimensões – cada qual com seus domínios específicos. Uma das dimensões é denominada “esforço positivo”. Ela abrange o esforço de auto‐orientação, estabelecimento de altos padrões pessoais e a necessidade de parecer perfeito. É nessa dimensão que estaria alocado o fator esperança para perfeição do perfeccionismo da aparência (Yang e Stoeber, 2012). A outra dimensão é denominada “Preocupações de avaliação negative”, que capta o perfeccionismo socialmente prescrito, crítico, autoavaliativo, preocupações sobre erros acerca da avaliação dos outros, a necessidade de evitar a imperfeição (Bieling et al., 2004). Nessa dimensão é que se localiza o segundo fator do perfeccionismo da aparência (Yang e Stoeber, 2012).

Já foi reportada forte associação entre perfeccionismo e insatisfação corporal (Ruggerio et al., 2003), ansiedade físico‐social (Haase et al., 2002) e excesso de exercício físico (Gulker et al., 2001) e sintomatologia de dismorfia corporal (Hanstock e O’Mahony, 2002) e dos transtornos alimentares (Bardone‐Cone et al., 2009; Stoeber e Yang, 2015). Sugere que indivíduos perfeccionistas estão frequentemente insatisfeitos com corpo e que exigem de si altos níveis de rendimento para alcançar um padrão ideal de corpo.

Davis et al. (2005) e Grammas e Schwartz (2009) observaram que homens com tendências perfeccionistas eram muito centrados em sua aparência e aptidão física e demonstravam maior propensão a buscar um corpo musculoso, fomentavam pensamentos preocupantes sobre a forma do corpo ideal e comportamentos pouco saudáveis em busca do elusivo padrão de perfeição de corpo masculino. Em mulheres, o perfeccionismo social – que se relaciona ao perfeccionismo da aparência por estabelecer crenças ou a percepção de que o mundo a avalia de acordo com os padrões sociais ideais – foi associado a níveis mais elevados de insatisfação da imagem corporal e evitação de situações sociais na qual o peso e a aparência pudessem estar em foco (Hewitt, Flett e Ediger, 1995).

Apesar dessas diferenças, parece haver concordância de que o perfeccionismo da aparência não é essencialmente distinto entre homens e mulheres. Está associado a ansiedade físico‐social, às crenças distorcidas sobre a importância, influência e significado da aparência física em ambos os sexos (Sherry et al., 2009). Strelan e Hargreaves (2005) constataram em homens e mulheres que a associação entre auto‐objetificação, exercício físico e satisfação corporal relacionada a saúde é negativamente correlacionada, porém houve associação positiva quando o exercício era feito com o objetivo de melhorar a aparência física. Esses resultados demonstram que homens e mulheres preocupam‐se em praticar exercício físico com vistas a melhorias na aparência física, e não especificamente na saúde.

No Brasil, não há um instrumento de medida para a avaliar o perfeccionismo para aparência física. Nesse caso, modificar um instrumento existente em outra língua, com tradução e adaptação transcultural é o caminho mais econômico para o pesquisador, além de favorecer diálogo com outros estudos que usaram os mesmos instrumentos em outros países (Beaton et al., 2002). O objetivo do estudo foi adaptar culturalmente para a Língua Portuguesa no Brasil a Physical Appearance Perfectionism Scale (PAPS; Yang e Stoeber, 2012). Após a tradução e adaptação cultural da escala, o instrumento estará apto para a feitura do estudo psicométrico, para estabelecer as devidas validades e a confiabilidade do instrumento.

Métodos

Este é um estudo metodológico, que trata da adaptação cultural de escala de medida. Foi autorizada pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade do Sagrado Coração sob o parecer n° 1.734.372.

Amostra

A seleção da amostral foi não probabilística, por julgamento (Malhotra, 2008), recrutada para realização do pré‐teste. De acordo com o guideline adotado (Beaton et al., 2002), o número amostral adequado está entre 30 a 50 participantes. Os critérios de inclusão adotados foram: ter entre 18 e 59 anos, ser praticante de musculação em treinamento regular havia pelo menos um ano, preferencialmente com frequência de seis a três vezes na semana e duração mínima de 30 minutos cada sessão.

A amostra foi então constituída por 50 participantes, 27 homens e 23 mulheres, com média de 29,04 (± 10,42) anos. Em relação à prática de exercício resistido, 18% relataram fazer essa atividade em intensidade pesada, 16% em intensidade moderadamente pesada, 38% em intensidade moderada e 28% em intensidade leve. A duração de cada sessão de treino para 44% excede 30 minutos e os demais ficam até esse período máximo de tempo. A frequência do treino é diária para 28% da amostra, de três a cinco vezes por semana para 38%, uma a duas vezes por semana para 26% e esporadicamente treinam 8% da amostra.

Instrumentos

Physical Appearance Perfectionism Scale (PAPS; Yang e Stoeber, 2012). A PAPS é uma escala desenvolvida para avaliar especificamente o perfeccionismo da aparência. Foi originalmente desenvolvida em mandarim sendo constituída por 12 itens distribuídos em dois fatores: Preocupação com Imperfeições (#1, 3, 5, 8, 9, 10 e 11) e Esperança para Perfeição (#2, 4, 6, 7 e 12). Para validação psicométrica foram recrutados 2.139 universitários chineses e o modelo de dois fatores gerados na análise fatorial exploratória foi confirmado com análise fatorial confirmatória (CFI = 0,92, NNFI = 0,90, RMSEA = 0,079). Foram geradas evidências satisfatórias de validade de constructo e confiabilidade interna (α = 0,83–0,90). As respostas estão dispostas numa escala tipo Likert que varia de 1 (discordo fortemente) a 5 (concordo fortemente). Maiores escores indicam maior adesão aos comportamentos e atitudes relacionados ao perfeccionismo da aparência. No desenvolvimento da PAPS os autores ainda fazem a adaptação cultural do instrumento para inglês. As duas versões, em mandarim e inglês, foram consideradas nessa pesquisa.

Procedimentos metodológicos

Inicialmente, foi requerida a permissão junto aos autores da PAPS para a adaptação cultural do instrumento em português. O guideline adotado recomenda cinco passos para a execução do processo de adaptação cultural de escalas, a saber: (l) traduções independentes; (2) síntese das traduções; (3) retrotraduções; (4) reunião de um comitê de peritos e (5) pré‐teste (Beaton et al., 2002).

Para a primeira fase – tradução – dois brasileiros com fluência na língua inglesa e dois brasileiros com fluência em mandarim fizeram as traduções de forma independente. Posteriormente, na segunda fase, as traduções (T1inglês, T2inglês) e (T1mandarim e T2mandarim) foram sintetizadas por um juiz de síntese com fluência na língua inglesa e mandarim que redigiu a versão duas versões de síntese em português, denominadas T12inglês e T 12mandarim. Na terceira fase, a versão de síntese T 12mandarim foi encaminhada para dois chineses nativos da língua mandarim com fluência na língua portuguesa. A versão de síntese T12inglês foi enviada a dois americanos nativos da língua inglesa e fluência na língua portuguesa. Foram então produzidos mais quatro documentos – RT1inglês, RT2inglês, RT1mandarim e RT2mandarim – de forma independente.

Em seguida, fez‐se a reunião de peritos, na qual o instrumento original e todas as versões produzidas (T1inglês, T2inglês, T1mandarim, T2mandarim, T12inglês,T 12mandarim, RT1inglês, RT2inglês, RT1mandarim e RT2mandarim), bem como as dúvidas e anotações que surgiram nas etapas anteriores, foram enviadas por meio de um material único para análise. Além dos tradutores, juiz de síntese e retrotradutores, compuseram o comitê de peritos: um psicólogo, um profissional de educação física, um metodologista, um linguista e um representante da população‐alvo. Os peritos tiveram o papel de discutir os itens de cada instrumento e julgar a equivalência entre o instrumento original e o instrumento traduzido em quatro áreas: equivalências semântica, experimental ou cultural, idiomática e conceitual. Cada item foi julgada por cada equivalência e usaram‐se os escores: (‐1) não equivale – e nova versão foi sugerida pelos peritos; (0) equivale – e o item da escala estava adequado; e (1) equivale muito – o que indicava total adesão à equivalência. Os itens aceitos e reformulados pelos peritos resultaram na versão de pré‐teste.

Para o pré‐teste, foi recrutada amostra em academias em Bauru (SP) e cidades vizinhas. Com a permissão do responsável pela academia, foi colocado cartaz na entrada da academia que divulgava a pesquisa e o pesquisador se colocou à disposição para esclarecer aos que procuravam espontaneamente por mais informações e convidar o aluno a participar. A pesquisa foi também divulgada no sistema de áudio da academia. A todos os interessados foi oferecido o termo de consentimento livre e esclarecido para leitura e assinatura e em seguida o pacote com a escala. Cada aplicação ocorreu de forma individual, em sala cedida pela academia. Após o preenchimento do instrumento, cada participante foi entrevistado sobre as dificuldades de preenchimento, clareza dos itens, adequação dos itens ao que era avaliado no instrumento, adequação dos itens à população de interesse. Todas as respostas foram registradas em formulário específico.

Análise dos dados

O processo de adaptação cultural foi apresentado de forma descritiva e analítica por meio de quadros e tabelas, seguiu padrões de estudos do tipo metodológicos. Foi apresentada a distribuição das respostas para análise preliminar da sensibilidade do instrumento, com o propósito de indicar erros e bias que pudessem ter sido gerados na adaptação cultural.

Resultados e discussãoTraduções, síntese e retrotraduções: inglês e mandarim

Tanto as duas traduções em inglês quanto as duas traduções em mandariam tiveram poucas dissemelhanças entre si. Na versão inglesa, os tradutores buscaram consenso para a T12inglês em relação às instruções da escala e os itens 3, 4, 5 e 10, já que nesses se encontravam as diferenças de tradução. Em relação à instrução do instrumento, adotou‐se a proposta da T1inglês e adicionou‐se a observação de que foi avaliada ainda como insatisfatória pelos tradutores para o comitê de peritos. A T1inglês foi igualmente escolhida para ser a versão de síntese para os itens 4 e 5 consensualmente. Já o item 10da versão de síntese é uma reformulação na qual mesclaram‐se a T1inglês e a T2inglês.

Na síntese das versões em mandarim, T12mandarim, foi necessário alcançar o consenso para os itens 2, 3, 4, 5, 9, 10 e 11 e as instruções da escala. Quanto a esses três últimos, em consenso, todos decidiram adotar a T2mandarim para a T12mandarim. Entretanto, foi sugerida a revisão da instrução da escala e dos itens 10 e 11 na reunião de comitê de peritos, pois suas traduções levavam a interpretações distintas acerca dos itens. Os itens 1, 3, 4 e 5 foram escritos na T12mandarim assim como propostos na T1mandarim. As divergências entre os itens 2 e 7 foram analisadas tendo como pano de fundo o conceito e a teoria sob a qual se apoia a PAPS. A T1mandarim do item 2 propôs: “Desejo ter um corpo perfeito“e a T2mandarim propôs: “Espero ter um corpo perfeito“. Optou‐se pela T2mandarim, pois ao investigar palavras sinônimas para os dois verbos (Desejar = ambicionar, ansiar, almejar, aspirar; esperar = acreditar, confiar, almejar, aguardar) concluiu‐se que o perfeccionista pode desejar ter um corpo perfeito, mas pode esperar não alcançar sua meta. No caso do item 7, as possibilidades “Desejo ser mais atraente“(T1mandarim) ou “Espero que outros me achem atraente“(T2mandarim) relatam conceitos distintos. Observando o item na escala original, concluíram que o sentido da assertiva assemelhava‐se ao proposto pela T2mandarim. Por fim, foi consensual a escolha da T2mandarim para o item 8.

Em relação às retrotraduções da T12inglês e da T12mandarim, observou‐se que os quatro documentos estão muito próximos da versão original da PAPS em inglês e mandarim. Isso é um indício de que as primeiras fases de tradução e síntese foram bem executadas. Vale destacar que a fase de retrotradução dos instrumentos é de suma importância para verificar se as traduções anteriores não perderam o sentido proposto no instrumento original (Weeks, Swerissen & Belfrage, 2007). A figura 1 apresenta a versão de síntese, bem como os itens originais da versão em inglês e mandarim da PAPS.

Figura 1.
(1,42MB).

Versões originais, sínteses das traduções (T12ingles e T12mandarim) e conclusões da apreciação do comitê de peritos

Fonte: elaborado pelos autores.

A reunião de peritos e as equivalências

A reunião do comitê de peritos teve uma duração de quatro horas e 37 minutos. Cada equivalência – semântica, experimental, idiomática e conceitual – de cada item e da instrução foi discutida, considerando todo o material produzido. O comitê teve por objetivo produzir uma versão pré‐teste que fosse equivalente ao original e compreensível para uma criança de 12 anos. Os peritos tiveram a liberdade para modificar instruções e os itens – sem contudo alterar seu propósito original – e o layout da escala.

O nome da escala não sofreu alteração e apresentou a mesma tradução em todas as fases. Os peritos apenas optaram por manter a sigla em inglês (PAPS) em referência ao nome original da escala e sua visibilidade no cenário internacional. Divergências maiores foram observadas nas instruções da escala e os membros do comitê orientaram o pesquisador a avaliar cuidadosamente seu entendimento no pré‐teste.

Em relação aos itens, os que foram mais profundamente modificados foram 1, 10 e 11. Eles deixaram de atender a uma ou mais equivalências na T12mandarim e /ou T12ingles. Pesquisas anteriores de adaptação cultural relataram a dificuldade do participante com assertivas com duplas negativas (Ferreira et al., 2014). Considerando esse ponto, o item 1 foi reescrito: “Estou insatisfeito com a minha aparência“.

O item 10, tanto como apresentado na T12inglês e na T12mandarim, foi julgado como tendo equivalência semântica insuficiente pelos membros do comitê. Sua redação no pré‐teste é baseada nessas duas versões mescladas. Para também atender à equivalência semântica, no item 11 foi substituída a palavra shortcomings (defeitos) por “imperfeições“, evitou‐se um sentido pejorativo em relação ao corpo. Além disso, considerou‐se que a palavra “imperfeições“está relacionada ao constructo de estudo “perfeccionismo“. Por fim, vale mencionar que os itens 2, 3,5, 6, 7, 8 e 9 foram enviados para a versão pré‐teste assim como propostos na T12inglês. A figura 1 sumariza as conclusões do comitê de peritos.

Pré‐teste da versão brasileira da PAPS

Todos os 50 participantes preencheram a PAPS integralmente e depois foram entrevistados pelo mesmo pesquisador. Na entrevista pode‐se verificar que não foi relatada dificuldade de entendimento, o layout da escala foi aprovado, as possibilidades de resposta foram julgadas adequadas, assim como a pertinência dos itens ao que se deseja avaliar e à população alvo. Logo, não houve necessidade de retornar ao comitê de peritos.

Verificamos a distribuição das respostas para cada item. Uma distribuição relativamente equilibrada ente as cinco opções de resposta indicaria baixa possibilidade do item provocar uma tendência à resposta. Essa tendência pode ocorrer por itens mal redigidos, confusos ou que levam o respondente à desejabilidade social (tabela 1).

Tabela 1.

Frequência das respostas para os itens da Versão em Português Brasileiro da PAPS

Itens  Respostas (%)
  Discordo fortemente  Discordo  Neutro  Concordo  Concordo
fortemente 
1. Insatisfação com aparência  24  12  36  22 
2. Esperança de perfeição  12  14  32  36 
3. Infelicidade com aparência  64  18  12 
4. Aparência atraente  12  16  26  34  12 
5. Não ter boa aparência  30  20  28  14 
6. Esperança de admiração  26  16  28  14  16 
7. Esperança de atração  26  16  30  14  14 
8. Desejo de mudar aparência  52  18  16  10 
9. Aparência longe da expectativa  36  26  20  10 
10. Preocupação com crítica  54  20  12  10 
11. Pensamento de imperfeição  40  22  14  14  10 
12. Desejo de ser bonito  14  16  30  26  14 

Fonte: elaborado pelos autores.

Com exceção do item 3, todos parecem equilibrados, o que indica não haver tendência gerada pela redação do item. Voltamos aos materiais do comitê de peritos, relemos as anotações desse item e das entrevistas do pré‐teste. O item 3 foi um daqueles modificados pelo comitê de peritos por baixa equivalência conceitual. Mas no pré‐teste foi muito bem compreendido, julgado adequado e pertinente. Assim, cabe ficar atento num próximo trabalho de validação psicométrica ao item 3, que nessa nossa breve análise se mostrou mais frágil. A versão final da PAPS adaptada ao Brasil está disposta na figura 2.

Figura 2.
(0,55MB).

Versão Brasileira da Escala de Perfeccionismo para Aparência Física Fonte: elaborado pelos autores.

Conclusão

O presente estudo descreveu o processo de adaptação cultural da Escala de Perfeccionismo para Aparência Física (PAPS) para a língua portuguesa no Brasil. As instruções da escala e cada item foram cuidadosamente discutidos, seguindo criteriosamente os procedimentos do guideline adotado.

Cabe ressaltar que apenas esse processo inicial não é suficiente para que a escala possa ser imediatamente empregada em pesquisas. A adaptação cultural – por melhor que seja – não garante que o instrumento traduzido e adaptado seja válido e confiável. Por isso, é necessária uma continuidade dessa pesquisa metodológica, destinada à verificação das qualidades psicométricas do instrumento.

Financeiro

O presente trabalho não contou com apoio financeiro.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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