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Vol. 36. Núm. 3.
Páginas 617-625 (Julho - Setembro 2014)
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Vol. 36. Núm. 3.
Páginas 617-625 (Julho - Setembro 2014)
DOI: 10.1590/2179-325520143630002
Open Access
A invasão no estádio Couto Pereira em 2009: considerações sobre os discursos da imprensa escrita e da torcida organizada
The invasion at Couto Pereira stadium in 2009: considerations about the discourses of press media and organized fans
Invasión en el estadio Couto Pereira en 2009: observaciones sobre las conferencias de prensa escrita e hinchada
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Natasha Santosa,
Autor para correspondência
nata.shas@ig.com.br

Autor para correspondência.
, André Mendes Caprarob, Riqueldi Straub Lisea
a Programa de Pós-Graduação em Educação Física, Departamento de Educação Física, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
b Departamento de Educação Física, Setor de Ciências Biológicas, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
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Resumo

Na última rodada do Campeonato Brasileiro da Série A, de 2009, o Coritiba F. C. empatou com o Fluminense F. C. e foi rebaixado para a série B. A torcida da equipe local invadiu o campo, deixando torcedores e policiais feridos, em uma batalha que durou pouco mais de meia hora. O objetivo da presente pesquisa é tratar das justificativas dadas ao ocorrido no dia 6 de dezembro, com base nos discursos da imprensa escrita e da torcida Império Alviverde, representada pela figura do seu presidente, Luiz Fernando Corrêa. Intenta-se, assim, responder ao seguinte questionamento: quais as divergências entre as explicações dadas pela imprensa escrita e pela torcida, a fim de justificar o ocorrido? Com o intuito de solucionar a questão, parte-se da utilização da análise do discurso.

Palavras-chave:
Torcida organizada
Violência
Imprensa escrita
Análise do discurso
Abstract

In the last round of Brazilian Soccer Championship, for A Series, in 2009, Coritiba F. C. tied with Fluminense F. C. and is relegated to B Series. The supporters of the local team invaded the field. Supporters and police were hurt in a battle that lasted just over half an hour. The objective of this research is to investigate the arguments about that December 6th, based on the discourses of the press and the one of Império Alviverde supporter, represented by the figure of its president, Luiz Fernando Corrêa. The intention is, therefore, according to the precepts laid down by Ginzburg (1996) as “evidential paradigm”, answer the following question: what are the differences between the explanations given by the press and the fans to justify what happened? In order to solve the problem, it is also necessary the use of discourse analysis.

Keywords:
Supporters
Violence
Press media
Discourse analysis
Resumen

En la última ronda del Campeonato Brasileño de la Serie A de 2009, Coritiba F. C. empató con el Fluminense F. C. y fue relegado a la Serie B. Los seguidores del equipo local invadieron a la cancha, dejando a los aficionados y policías heridos en una batalla que duró poco más de media hora. El objetivo de esta investigación es hacer frente a las justificaciones de diciembre 06, baseado en los discursos de la prensa y de la hinchada Alviverde Imperio, representado por la figura de su presidente, Luiz Fernando Correa. La intención es, por lo tanto, siguiendo los preceptos establecidos por Ginzburg (1996) como “paradigma de evidencia”, responder la siguiente pregunta: ¿Cuáles son las diferencias entre las explicaciones dadas por la prensa y los aficionados, para justificar lo que pasó? Con la intención de resolver el problema, también es necesario el uso del análisis del discurso.

Palabras clave:
Hinchada
Violencia
Prensa
Análisis del discurso
Texto Completo
Introdução

Torcedores reunidos e uniformizados já existiam no fim da década de 1930 (Toledo, 1996), os quais, envolvidos com o clube, tinham o objetivo de incentivar seus times. Entre as décadas de 1970 e de 1980, estabeleceu-se outro modo de torcer. O comportamento do torcedor nas arquibancadas se modificou de maneira considerável. Essa mudança se efetivou especialmente pelo surgimento de grupos que estabelecem o que seria uma nova categoria de torcedor: a torcida organizada (Pimenta, 2000).

A violência nas torcidas organizadas é assunto recorrente, sobretudo em dias de clássico. E é esse o foco do debate proposto pela presente pesquisa. Vamos aos fatos: 6 de dezembro de 2009, última rodada da Série A do Campeonato Brasileiro. O Coritiba F. C. empatou com o Fluminense F. C. e foi rebaixado para a Série B. A torcida da equipe local invadiu o campo, instalando a desordem. Torcedores e policiais ficaram feridos, em uma batalha que durou pouco mais de meia hora (Folha de S. Paulo, 07.12.2009; Tribuna do Paraná, 07.12.2009). A repercussão do caso no país foi intensa, sendo noticiado na mídia de maneira recorrente, em programas como Fantástico (Globo), Terceiro Tempo (Bandeirantes), Troca de Passes (SporTV), Mesa Redonda e Gazeta Esportiva (TV Gazeta), assim como Pontapé Inicial e Bate-Bola (ESPN Brasil), além de noticiários que retomaram o evento ao longo da semana.

Nesse sentido, o objetivo do presente estudo é comparar os discursos da imprensa escrita com o da torcida Império Alviverde, representada pela figura do seu presidente, Luiz Fernando Corrêa, sobre o dia 6 de dezembro. Intenta-se, assim, responder ao seguinte questionamento: quais as divergências entre as explicações dadas pela imprensa escrita e pela torcida, a fim de justificar o ocorrido?

A fim de contribuir para a resolução da questão, opta-se pela utilização da análise do discurso, que não trata da língua nem da gramática – embora ambas lhe interessem, mas sim do discurso. Ou seja, busca-se observar o homem falando (Orlandi, 2000). Esse método aborda a subjetividade dos processos de significação da linguagem, seja ela verbal ou não verbal, indo, portanto, para além do conteúdo exposto na fonte: adentrando os meandros da significação.

O depoimento de Luiz Fernando foi adquirido durante uma palestra, cuja temática envolvia torcida organizada e violência, realizada na Universidade Federal do Paraná. A escolha dos periódicos Folha de S. Paulo e Tribuna do Paraná se deu por dois motivos. Em primeiro lugar, porque um apresenta forte circulação local – isto é, em Curitiba –, mantendo assim um envolvimento mais próximo com a invasão do campo do Coritiba F. C. – já que este é um time curitibano. A Folha de S. Paulo, por sua vez, pelo fato de ser de São Paulo e de circular em âmbito nacional, representaria um maior distanciamento ao abordar o fato. Além disso, o jornal paulista se caracteriza, sobretudo, pela sobriedade ao tratar das notícias, ao passo que o paranaense é sensacionalista e reconhecido, em especial, pelas matérias de seu caderno policial.

O jogo

Na última rodada do Campeonato Brasileiro de 2009, dois times disputavam uma vaga para permanecer na Série A. Coritiba F. C. e Fluminense F. C. jogaram em Curitiba, no estádio Major Antônio Couto Pereira, no dia 6 de dezembro de 2009. Os donos da casa tinham a vantagem do empate, que só seria efetiva caso o Palmeiras vencesse o Botafogo. Para não depender de outros resultados, o time curitibano precisava da vitória. Mas não foi o que aconteceu. A partida acabou empatada em 1 a 1, enquanto o Botafogo vencia o Palmeiras, resultando na queda do “Coxa” para a segunda divisão, no ano de seu centenário (Tribuna do Paraná, 7.12.2009, p. 7). Com este resultado e o fim do jogo, alguns torcedores locais invadiram o campo, iniciando, então, um confronto entre polícia e torcida.

O jogo acabou e a tragédia anunciada ocorreu quando mais de 300 torcedores, na maioria trajando camisetas da torcida organizada Império Alviverde, invadiram o gramado. O resultado foi uma verdadeira batalha campal, protagonizada por adeptos revoltados com a queda coxa-branca para a 2ª Divisão do futebol brasileiro (Tribuna do Paraná, 07.12.2009, p. 7).

Quanto a esta notícia, deve-se atentar para dois pontos. Em primeiro lugar, é usado o termo “tragédia anunciada”; ora, pode-se pensar em duas hipóteses que justifiquem tal expressão: ou o jornal se refere ao fato de que já era sabido que poderia ocorrer a barbárie, considerando que o clube fora avisado; ou o termo a que se faz menção constitui um discurso preconceituoso, segundo o qual a tragédia estava anunciada, tendo em vista o baixo preço pelo qual alguns ingressos foram vendidos. Em segundo lugar, cabe destacar o trecho: “na maioria trajando camisetas da torcida organizada Império Alviverde”. Ou seja, assumindo uma posição especulativa; ao mesmo tempo em que o periódico buscava noticiar quem foram os principais responsáveis, tinha o cuidado de não afirmar, categoricamente, que apenas os membros da torcida organizada invadiram o campo.

O jornal paranaense ocupou, pelo menos, oito páginas do caderno esportivo com a descrição do evento, que também foi noticiado em jornais de veiculação nacional:

Policiais militares cercaram o campo para tentar, sem sucesso, impedir a entrada de torcedores que depredaram parte do estádio. Bancos, pedaços de madeira tirados das placas publicitárias e tripés de câmeras filmadoras usadas por jornalistas foram arremessados em direção aos soldados (Folha de S. Paulo, 07.12.2009, p. D6).

Após cinco minutos de confusão, a polícia conseguiu refugiar jogadores e funcionários. Entretanto, a torcida passou a enfrentar os próprios soldados, em uma batalha que durou mais de meia hora, espalhando-se, também, pelas ruas da cidade. Alguns policiais ficaram feridos. “A briga se alastrou para as arquibancadas e os torcedores do Coxa também passaram a se agredir mutuamente, tornando o estádio palco de uma verdadeira cena de caos” (Tribuna do Paraná, 07.12.2009, p. 9).

Nesse dia, mais de 32 mil pessoas estavam presentes no jogo (Folha de S. Paulo, 07.12.2009), e os poucos policiais que faziam a segurança dentro do estádio estavam desarmados e sem escudos protetores. Pelo menos três hospitais da região receberam feridos.

O discurso da torcida alviverde

Em palestra realizada na Universidade Federal do Paraná, pelo Núcleo de Estudos Futebol e Sociedade,1 Luiz Fernando Corrêa – o “Papagaio” –, presidente da torcida Império Alviverde, fez algumas considerações a respeito do incidente no Couto Pereira, do dia 6 de dezembro de 2009. A temática da exposição foi a relação entre torcidas organizadas e a violência, em dias de jogo, e contou com a participação dos presidentes das duas outras torcidas organizadas de Curitiba, Márcio Alexandre Silvestre, da Fúria Independente (Paraná Clube), e Julio César Sobota, “Julião”, da Os Fanáticos (Clube Atlético Paranaense). Como o presente estudo trata do desfecho ocasionado pela torcida do Coritiba F. C., as falas dos presidentes das torcidas de Atlético Paranaense e Paraná não serão contempladas nesta ocasião.

Inicialmente, uma das supostas razões apontadas pela imprensa local para a invasão do campo foi o preço do ingresso a R$5,00, já que se buscava a participação de um grande número de torcedores em apoio à equipe, no que seria uma partida decisiva. “‘Representantes da nossa bateria pagavam apenas R$5,00 o ingresso’, disse um jovem que pediu para não ser identificado” (Tribuna do Paraná, 09.12.2009, p. 13). Quando questionado sobre a eficácia do cadastramento de torcedores, bem como da elevação do preço de ingressos, Luiz Fernando afirma que:

Há muito tempo não acontecia um problema sério no campo. Essa questão da identificação dos torcedores, por si só, não vai resolver e, na realidade, vai acabar atrapalhando o acesso das pessoas para o campo. A questão do valor do ingresso: das pessoas que invadiram o gramado, a grande maioria, senão a totalidade, eram pessoas de dinheiro, pessoas com estudo, com posse e acabaram invadindo o gramado. Algumas por sacanagem, outras pelo momento (Informação verbal).

O presidente afirma que o motivo para a invasão no campo do Couto Pereira não foi consequência do valor do ingresso e fala de uma “teoria da conspiração” por parte da diretoria do clube.

Existem vários problemas que a mídia acaba falando depois, e ninguém entende o que aconteceu. A própria invasão do Couto no dia 6 de dezembro foi isso. A polícia sabia, o clube sabia, eu avisei no dia para o delegado que teria esse problema, e o que eles fizeram? Não contrataram segurança adequada, não tinha policiamento. Houve a invasão, e aí tem uma teoria da conspiração, de que eles fizeram de propósito, para tirar o foco da queda, porque, se o clube caísse, a diretoria cairia junto. Então, eles deixaram acontecer; só que eu acho que eles não imaginavam que daria todo aquele problema. E tiraram o foco, realmente; até hoje eles batem naquilo e ninguém fala na queda. Então, são coisas que acontecem… (Informação verbal).2

Em se tratando de um jogo decisivo, é muito provável que o público compareceria ao estádio de qualquer maneira. Ou seja, realmente foi uma medida populista da diretoria tentando atenuar a relação com a torcida. Entretanto, não se pode dizer que a causa da invasão foi o baixo custo do ingresso. Em vez disso, é estabelecida a hipótese de que a imprensa local tomou uma postura preconceituosa, já que o próprio “Papagaio” afirmou – e depois a polícia comprovou, ao prender alguns dos envolvidos – que os indivíduos não eram de baixa renda. Segundo as informações da polícia, tratava-se de jovens desregrados de classe média.

A partir da fala supracitada, Luiz Fernando coloca a torcida organizada no papel de vítima da mídia, uma vez que, tendo ele mesmo avisado sobre possíveis incidentes, a responsabilidade da briga após o rebaixamento do Coritiba F. C. não poderia lhe ser atribuída. O presidente indica, então, um novo culpado: o próprio clube, que, na tentativa de minimizar os efeitos da queda para a segunda divisão no ano de seu centenário, teria estimulado o mau comportamento dos torcedores.

Michel Foucault (1998), em A ordem do discurso, fala sobre três princípios de exclusão dos discursos por parte da sociedade, que seriam: (1) a interdição, (2) a separação/rejeição e (3) a vontade de verdade. Tais princípios se estabelecem sob uma lógica foucaultiana bastante reforçada: o lugar do discurso enquanto definidor de poder.

Quanto à interdição, esta seria a mais evidente forma de exclusão discursiva. Afinal, “não se pode falar de tudo em qualquer circunstância” (Foucault, 1998, p. 9), assim como não é qualquer um que pode falar sobre qualquer assunto, já que somente os instituídos são ouvidos (Bourdieu, 1996). O sujeito do discurso precisa ser instituído para tal. Ora, Luiz “Papagaio” é presidente de torcida e, sendo instituído para falar pela Império, dificilmente discursaria contra a sua própria instituição. Assim, ele defende a torcida organizada, mas reconhece que não é possível manter o controle sobre todos os membros de sua instituição, deixando clara sua oposição aos torcedores de “má índole”: “O que nós queremos que aconteça? Que aqueles torcedores que têm má índole, que vão para o jogo a fim de criar problema, sejam presos e responsabilizados pelo prejuízo que causaram. As situações têm que mudar” (Informação verbal).3 Ou seja, o presidente alicerça sua fala a favor da torcida organizada, mas se exime de qualquer responsabilidade quanto ao inegável vandalismo ocasionado por determinados grupos que a integram.

No que se refere ao segundo princípio, a separação, Foucault (1998) trata da oposição entre razão e loucura, sob o argumento de que o discurso do louco não pode circular como o das pessoas inscritas no padrão de normalidade social. Desse modo, é na palavra do louco que se dá a exclusão. Afinal, é por meio dela que se reconhece a loucura, o que acaba por anular esta palavra.

Por fim, a vontade de verdade se coloca em um sentido muito próximo aos dois princípios expostos aqui. Para que determinada ideia seja considerada “verdade”, ou pelo menos para ser aceita, é preciso obedecer a regras (tácitas) discursivas presentes no contexto ao qual se faz parte. Ou seja, é necessário que o discurso se insira no chamado “verdadeiro”. Portanto, não se trata de opor verdadeiro e falso, mas de compreender a coerção exercida no discurso, a qual é reconduzida pelo modo como o saber é aplicado em uma sociedade (Foucault, 1998). E é essa exclusão que determinará o que será interditado e/ou separado – a partir de sua inserção (ou não) no socialmente “verdadeiro”.

Dessa maneira, ao se referir à suposta teoria da conspiração, Luiz “Papagaio” expõe uma hipótese que a sabedoria dos outros parece incapaz de perceber, podendo ser compreendida como uma formulação no sentido de defender a Império Alviverde. Ou seja, ao mesmo tempo em que o presidente é instituído pela torcida organizada, estando imbuído de capital simbólico para representá-la, no que se refere ao público comum – aquele que não se insere no contexto da torcida –, o discurso do presidente em defesa dos seus pode ser concebido sob desconfiança. O presidente é enfático ao listar mídia, clube e polícia enquanto os grandes responsáveis pelas confusões nos estádios, isentando a torcida organizada de quaisquer responsabilidades.

Quanto à mídia, Luiz “Papagaio” é recorrente ao sensacionalismo que, via de regra, assimila violência e vandalismo à torcida organizada, atraindo, assim, torcedores de “má índole”:

A questão da imprensa: antes do Atletiba, no Couto Pereira, na sexta-feira, a Globo fez uma reportagem da briga do dia 6 de dezembro. Quer dizer, ao invés de mostrar a família no estádio, a festa da torcida, eles mostraram uma briga dois dias antes do jogo. Assim, o torcedor já vai com aquilo: “ah, é jogo de briga, é jogo de confusão”. E, muitas vezes, essa questão da mídia passar que a torcida organizada é só para quebrar ônibus e fazer vandalismo acaba trazendo aquele menino que mora lá não sei onde, que gosta de briga e acha que no estádio é lugar de brigar. E se eles realmente mostrassem a parte social da torcida, a gente teria mais pessoas comprometidas com questão da festa e da parte social (Informação verbal).4

Neste caso, “Papagaio” expõe uma suposta manipulação dos fatos por parte da imprensa, regida por uma lógica comercial, que deprecia a imagem da torcida organizada, ao mostrar apenas as confusões. Essa propaganda pejorativa é o que remeteria à violência, pois, para o entrevistado, o vandalismo está vinculado aos indivíduos que “gostam de brigar” e que são atraídos para a torcida, não pela identificação futebolística, mas pelo gosto pela confusão. Daí a vitimização da Império Alviverde, enquanto um alvo para sujeitos desregrados que se passam por torcedores, sem corresponder ao ideal da torcida.

Na tentativa de mais uma vez defender a torcida, Luiz Corrêa estabelece uma importante contradição. Se outrora, tal como exposto anteriormente, o presidente opunha-se ao discurso jornalístico, defendendo que “das pessoas que invadiram o gramado, a grande maioria, senão a totalidade, eram pessoas de dinheiro” (Informação verbal); agora, o mesmo presidente condena o “menino que mora lá não sei onde” (Informação verbal) – isto é, o indivíduo da periferias – como principal responsável pela briga nos estádios, sendo a mídia um importante catalisador desse encontro entre vândalos e torcida organizada.

Outro ator relevante nesta depreciação seria o policial.

Em relação ao policiamento, nós procuramos a polícia e o Ministério Público para fazer reuniões, porque tem muito clássico e é complicado. Eles não querem fazer reunião, nós temos que ligar e forçar a reunião. Hoje não existe mais esse diálogo. Então, tem que partir da polícia, porque nós temos a boa vontade, como falei anteriormente. Os problemas acontecem e quando tem esses problemas nós precisamos da ajuda das autoridades para fazer o levantamento do que aconteceu e identificar as pessoas (Informação verbal).

Reforçando a ideia de punição aos torcedores de “má índole”, o diretor da torcida organizada culpa os policiais por grande parte das brigas envolvendo torcidas, tendo em vista o descaso com que estes agiriam. Se, para Luiz “Papagaio”, a mídia veicula apenas notícias ruins relacionadas à torcida organizada, a polícia dificulta a preparação para dias de jogos, inclusive clássicos. Sem dizer com todas as letras, Luiz Corrêa acaba por abordar o que se pode compreender como uma segunda teoria da conspiração. Desta feita, não seria o clube tentando amenizar a queda para a Série B do campeonato nacional, mas os meios de comunicação, em parceria com a polícia, apontando para a torcida como desencadeadora de violência e vandalismo, sem retratar a omissão das autoridades públicas, no que se refere ao policiamento.

Nesse sentido, o presidente alviverde cita outra ocasião, um jogo entre Coritiba e Marília, quando houve enfrentamento entre policiais e torcedores:

A polícia muitas vezes cria problemas gigantescos com torcedores. Às vezes, dá um problema entre dois ou três garotos, você vai em um líder de torcida e consegue amenizar. A gente tenta separar uma confusão, mas a polícia chega descendo a porrada em todo mundo. O que era três ou quatro vira trinta, quarenta. Vira uma guerra (Informação verbal).5

Ou seja, de acordo com Luiz Fernando, as intervenções da polícia em desordens entre torcedores acabam por piorar a situação. A partir deste excerto, percebem-se contradições em dois pontos do discurso do presidente. Em primeiro lugar, em um trecho anterior, Luiz afirma que existem problemas nas torcidas e que não é possível manter o controle das ações de todos os torcedores, membros da organizada. Nessa última fala, entretanto, é cabal ao criticar a atuação da polícia, dizendo que “um líder de torcida consegue amenizar” uma confusão, ao passo que os policiais estabelecem um confronto ainda maior. Isto é, fica a impressão de que a todo o momento a torcida é vitimada, o que estabelece o paradoxo da fala de Luiz “Papagaio”.

Em segundo lugar, Luiz Corrêa mais uma vez critica a polícia, mas, desta feita, a mesma se fazia presente e seria este o problema. Ora, o presidente faz uma crítica aos policiais estando eles presentes. Quando ausente, as brigas entre torcidas acontecem porque a polícia não correspondeu aos pedidos das organizadas em realizar reunião anteriores às partidas; todavia, quando presente, as depredações acontecem exatamente porque a polícia agiria de maneira equivocada, ao tentar minimizar as confusões.

A fala de Luiz “Papagaio” se estabelece, assim, permeada de paradoxos identificados por Foucault (1998) como uma característica discursiva que seria a descontinuidade, de acordo com a qual o discurso segue uma coerência segundo o momento. Desse modo, o sujeito pode mudar de posição e, consequentemente, mudar o discurso. No caso do presidente da Império Alviverde, a sua mudança de posição está relacionada ao fato de a discussão se estabelecer de forma tensa, tanto que a todo momento ele rebate “acusações” contra a torcida, no sentido de defendê-la. Daí as contradições na linha argumentativa, fiel a um único propósito: a defesa da organizada.

De acordo com as falas analisadas, é perceptível que Luiz Papagaio reconhece que existem problemas na Império, mas, via de regra, estabelece a torcida organizada como vítima de três carrascos principais: a indiferença do clube, o sensacionalismo da imprensa (sobretudo da televisão) e o descaso dos policiais.

O discurso da imprensa escrita

Na década de 1970, poucos eram os trabalhos que se utilizavam de jornais e revistas como fonte para o conhecimento. Havia por certo o reconhecimento da importância de tais impressos, mas relutava-se em mobilizá-los para a escrita da história. A busca de uma verdade preconizada pelas escolas vigentes nesse período (séculos XIX e XX) e o uso de fontes marcadas pela objetividade, fidedignidade, neutralidade e credibilidade tornaram os jornais inadequados para recuperação do passado, já que essas eram características distintas daquelas encontradas nos periódicos. O jornal serviria somente como registros de fragmentos do presente, documentado sob a égide de compromissos, paixões e impulsos, os quais ainda estavam sujeitos a distorções, subjetividades e fragmentação (Luca, 2006).

A partir da História Nova, que propunha novos objetos, problemas e abordagens, o jornal passa a destacar-se como fonte plausível. Porém são imprescindíveis alguns procedimentos para que essa fonte tenha real valor.

Outra discussão importante reside na objetividade e neutralidade da imprensa, pois se os periódicos ordenam, selecionam, estruturam e narram de determinada forma aquilo que vai chegar até o público, como diferenciar objetividade de interpretação? A resposta está nos preceitos teóricos da análise do discurso, da qual se faz uso no presente estudo.

Pois bem, no dia seguinte à conturbada partida entre Coritiba e Fluminense, os jornais Folha de S. Paulo e Tribuna do Paraná buscaram noticiar a situação. Ainda era cedo para apontar responsáveis. No entanto, sob caráter especulativo, os periódicos destacaram, por exemplo, o número de policiais presentes no Estádio Couto Pereira, que estava lotado, diante de um jogo com conotação semelhante a uma típica final de campeonato.

Nos dias que se seguiram, o assunto foi retomado por diversas vezes, ora marcando uma página inteira, ora apenas ocupando uma rápida nota de rodapé. Tendo em vista que a Tribuna do Paraná é de Curitiba, não é de se espantar que retomasse com maior afinco a confusão da partida. Além disso, trata-se de um jornal sensacionalista, reconhecido, sobretudo, pelas trágicas notícias policiais. Assim, o periódico dedicou ao menos uma página do caderno esportivo, por quase todos os dias do mês de dezembro, fazendo referência a novas resoluções do caso Coritiba.6 O jornal Folha de S. Paulo, por sua vez, cuja veiculação é nacional e assume uma característica menos sensacionalista e mais tradicional, também dedicou algumas de suas páginas à confusão de 06 de dezembro.7

Após o incidente, várias foram as especulações na busca por culpados. A quebra do silêncio, por parte do clube, veio no dia 9 de dezembro, sob o título de “Coritiba se exime e diz que é ‘vítima’ de organizada” (Folha de S. Paulo, 09.12.2009, p. D2). Assim, o jornal paulista anunciava que o presidente do clube, Jair Cirino dos Santos, “afirmou ter recebido ameaças de membros da organizada Império Alviverde na semana que antecedeu o jogo” com o Fluminense (Folha de S. Paulo, 09.12.2009, p. D2). Na mesma reportagem, consta a defesa de Luiz Fernando Corrêa, líder da organizada: “a Império tem mais de 10 mil integrantes, mas 200 invadiram o campo. Quer dizer agora que toda a torcida é culpada?” (Folha de S. Paulo, 09.12.2009, p. D2).

A análise do discurso busca a apreensão de uma singularidade – isto é, distinguir um discurso do outro –, ao mesmo tempo em que visa à construção de uma generalidade – inserir tal discurso em um domínio comum (Orlandi, 1983). Em outras palavras, faz-se necessário considerar o contexto em que determinada fala se constitui e a sua intertextualidade, ou seja, o fato de alguns discursos influenciarem outros. Assim, se confrontados os discursos da imprensa selecionada e a fala de Luiz “Papagaio”, é possível notar que tanto a torcida quanto o clube, principais alvos no que se refere à responsabilidade pela confusão do rebaixamento, procuram se colocar na posição de vítimas.

O presidente da Império Luiz Fernando Corrêa, o Papagaio, também defende sua entidade. Disse que os transtornos seriam maiores se ele não tivesse contido cerca de 400 pessoas que tentaram invadir o estádio durante o intervalo. “Elas também invadiriam o campo e a tragédia seria maior”, afirmou, solicitando que apenas os envolvidos sejam punidos (TRIBUNA DO PARANÁ, 09.12.2009, p. 13).

Nesse sentido, tem-se, por um lado, o clube acusando a Império Alviverde e, por outro, a torcida denunciando a negligência por parte dos policiais e da própria agremiação, uma vez que já haviam sido avisados que, caso o Coritiba F. C. fosse rebaixado, haveria invasão. Ora, nas entrevistas supracitadas, enquanto Jair Cirino se utiliza do termo “ameaças” – denotando uma tangência ao criminal –, Luiz Corrêa fala em “avisos”, no sentido de um amigo que avisa o outro que este corre algum tipo de perigo.

A fala do presidente da organizada, no que se refere à premeditação do alvoroço no campo do Coritiba, confirma-se com a seguinte notícia: “De acordo com as investigações da polícia, o site de relacionamentos Orkut foi um dos espaços virtuais usados por torcedores para fazer ameaças e anunciar, por integrantes da organizada Império Alviverde, que o gramado seria invadido” (Folha de S. Paulo, 09.12.2009, p. D2). Na mesma edição, o jornal Folha de S. Paulo revela que uma das mensagens do site de relacionamentos expunha uma facção Alviverde de 200 torcedores – número que, segundo a estimativa da Polícia Militar, corresponderia à metade dos que invadiram o campo. Na sequência da reportagem, o jornal expõe o apelo da torcida – diante dos seus 200 membros invasores estimados pela polícia –, com o argumento de que “a direção da torcida organizada Império Alviverde disse que tem 10 mil membros e que não pode ser considerada culpada pela ação de alguns. Fala ainda que alertou sobre a possibilidade de tumultos no jogo” (Folha de S. Paulo, 09.12.2009, p. D2).

Ora, diante de tais depoimentos, encontra-se mais uma contradição. Na entrevista publicada no dia 09 de dezembro, no jornal Folha de S. Paulo (citada mais acima), Jair Cirino foi categórico ao dizer que o clube foi vítima da torcida organizada. No entanto, em 12 de dezembro, o mesmo periódico publica a seguinte nota:

O clube avisou à Secretaria de Segurança Pública do Paraná três dias antes da partida contra o Fluminense, que definiu o rebaixamento do clube, sobre a hipótese de torcedores invadirem o campo. A informação está em ofício protocolado na secretaria relatando ameaças de membros da torcida organizada contra dirigentes. O órgão confirma ter recebido o ofício e diz ter feito tudo o que podia no Couto Pereira, sendo uma das ações a ampliação do efetivo (Folha de S. Paulo, 12.12.2009, p. D3).

E mais:

Embora o secretário estadual da Segurança Pública, Luiz Fernando Delazari, tenha afirmado que 700 policiais participaram da segurança da partida entre Coritiba e Fluminense, em 06 de dezembro, no Estádio Couto Pereira, um documento interno da Polícia Militar mostra que o efetivo era bem menor. (…) O documento revela que 206 policiais militares foram destacados para a partida contando-se policiamento dentro e fora do estádio (Tribuna do Paraná, 31.12.2009, p.11).

Tendo em vista tais excertos, pode-se afirmar que a negligência se deu por parte da Secretaria de Segurança. Cabe salientar que não se trata de defender a torcida, mas, sabendo das ameaças sofridas e do perigo que a invasão representaria, fazia-se imprescindível um policiamento mais rigoroso.

Ainda sobre o policiamento, na tentativa de justificar esse tipo de violência, o jornal Folha de S. Paulo tratou da dissertação de mestrado do tenente da Polícia Militar do Paraná, Alfredo Dias Netto – formado em Educação Física, bacharel em Segurança Pública e mestre em Ciências Sociais Aplicadas. No estudo, Dias Netto analisa outro caso de pancadaria, ocorrido dez anos antes entre as torcidas do Coritiba e do Atlético-PR. Na pesquisa,

fora realizado um estudo de caso acerca do jogo disputado entre o Clube Atlético Paranaense e o Coritiba Foot Ball Club, realizado no estádio Major Antônio Couto Pereira no dia dezessete de outubro de um mil novecentos e noventa e nove, considerado o mais violento da história do futebol paranaense (Dias Netto, 2009, p. 95).8

Para tal, o autor buscou apoio nas categorias desenvolvidas por autores como Norbert Elias e Eric Dunning (1995), referindo-se, por exemplo, às formulações empíricas sobre o processo civilizador, descrito por Elias (1994), quanto ao descontrole controlado das emoções que, por vezes, passa a ser descontrolado. Na obra A busca da excitação (1995), uma das perspectivas sob a qual Elias e Dunning tratam do esporte é a “mimese”, que corresponde à transferência de emoções da vivência sentida na vida real para a vivência sentida no que se poderia chamar de “imitação da vida” – que seria um esporte, um filme, uma encenação. A situação é fictícia, isto é, em nada afeta a vida real. Entretanto, as emoções percebidas são reais, assumindo assim um efeito purificador das pulsões (catarse) cotidianamente controladas. Essas sensações são classificadas pelos autores enquanto um “descontrole controlado das emoções”. Por vezes, no entanto, há um envolvimento tão forte que tal descontrole se torna descontrolado (Elias; Dunning, 1995) – este seria um dos elementos que podem justificar determinados casos de violência.

Com base no estudo de Dias Netto, o jornal Folha de S. Paulo estabelece as causas da invasão do campo do Coritiba como as mesmas do confronto do Atletiba de 1999, já que a polícia sabia dos riscos, mas não foi suficiente para evitar o confronto. Dias Netto afirma que “os aspectos levantados para a geração são muito semelhantes: em situações adversas que causam frustração, o indivíduo responde violentamente” (Folha de S. Paulo, 13.12.1009, p. D3). Entretanto, o autor faz uma importante ressalva, pouco levada em consideração pelo jornal: “O descontrole de torcedores não pode ser analisado de forma empírica. É preciso um estudo minucioso para se chegar a conclusões” (Folha de S. Paulo, 13.12.1009, p. D3).

No que diz respeito aos discursos analisados, de acordo com Eni Orlandi (1983), a classificação dos discursos segundo determinados tipos é um fator que direciona a análise proposta, segundo um recorte que define a relevância deste ou daquele fator. Entretanto, tal escolha deriva, ainda, da natureza do texto a ser analisado. Nesse sentido, deve-se considerar o modo com que os interlocutores interagem e, como consequência, o critério da reversibilidade, que diz respeito ao maior ou menor grau de troca de papéis entre os interlocutores. No discurso que tende ao polêmico, o sujeito leva em conta o seu destinatário sob determinada perspectiva e, nesse sentido, existe uma reversibilidade limitada; ou seja, “a verdade é disputada pelos interlocutores” (Orlandi, 1983, p. 143). No caso específico da fala de Luiz “Papagaio”, bem como a dos jornais utilizados, a verdade não é imposta como tal. Pelo contrário, busca-se dominar o objeto do discurso (os culpados pela invasão do campo), que se faz presente na enunciação, a fim de disputar essa verdade. Assim, no que se refere à tipologia do discurso em questão, pode-se classificá-lo como um discurso que “tende” ao polêmico. Isto é, tendo em vista a multiplicidade da linguagem, cabe lembrar que os tipos não se distinguem de maneira estanque. Pelo contrário, as tipologias se relacionam, sendo caracterizadas por aquilo que a autora chama de uma “relação não absoluta”, mas de dominância, tendência.

Considerações finais

Com base na análise inicialmente proposta, podem-se constatar algumas contradições no decorrer dos discursos. Antes de apontá-las, cabe enumerar diferenças entre as funções do texto dos jornais e das falas do líder da torcida Império. A justificativa para o uso de fontes de naturezas tão distintas se estabelece no sentido do jornal, enquanto um dos principais acessos de notícias por parte da população; e, no caso da fala de Luiz Corrêa, exatamente pelo fato de se configurar mais cristalina, sem as neutralizações realizadas pelo jornal, dado que o discurso foi realizado em uma palestra. Embora seja praticamente impossível manter um posicionamento neutro, ao tratar de determinado assunto, o compromisso dos periódicos selecionados é passar adiante certa informação. Nesse sentido, as variações dos discursos da Folha de S. Paulo e da Tribuna do Paraná acompanharam o surgimento de novos fatos sobre o caso Coritiba. Soma-se a isso, o processo editorial dos jornais, bem como fatores externos, que por vezes interdita determinada notícia. Isto é, não se pode contar apenas com a descoberta e publicação naturais de outras versões do ocorrido.

Apesar de a imprensa escrita analisada, em um primeiro momento, destacar os trajes de torcida organizada que os indivíduos que invadiram o campo usavam, bem como o preço de alguns ingressos (R$5,00), são mostrados depoimentos de diversos agentes envolvidos até se chegar à notícia de que, tanto o clube quanto a Secretaria de Segurança Pública do Paraná sabiam da ameaça de invasão (Folha de S. Paulo, 12.12.2009). O fato curioso é que Jair Cirino, presidente do Coritiba F. C., afirma que o clube foi vítima “do bando de baderneiros travestidos de torcedores” (Folha de S. Paulo, 09.12.2009, p. D2), sem sequer mencionar uma possível falha da Secretaria de Segurança, uma vez que, sabendo das ameaças sofridas e do perigo que a invasão representaria, fazia-se imprescindível um policiamento mais rigoroso. A hipótese que se estabelece é a de que se tratasse, provavelmente, de uma estratégia do clube, no intuito de se esquivar da punição imposta pelo STJD, culpando a Império. Mais uma vez, não se pretende aqui defender a torcida, mas buscar o sentido com que se estabeleceram determinados discursos.

Quanto ao discurso de Luiz “Papagaio”, faz-se notável o posicionamento de vítima atribuído à torcida, sobretudo ao afirmar a “teoria da conspiração”, elaborada pelo Coritiba, segundo a qual a confusão do dia 6 de dezembro não foi evitada com a finalidade de tirar os holofotes da queda, já que a diretoria cairia junto com o clube. Mesmo reconhecendo a existência de problemas relacionados à violência, exibida por alguns integrantes da Império, o presidente estabelece essa vitimização ora pela indiferença do clube, ora pelo sensacionalismo da imprensa (sobretudo televisiva), ou ainda pelo descaso dos policiais. Assim, é necessário relativizar sua fala, já que trata da defesa direta de interesses próprios da torcida, lembrando que Luiz Fernando foi instituído para realizar o discurso em nome da organizada.

Ou seja:

Não basta dizer que o uso da linguagem por parte de um locutor determinado, numa dada situação, com seu estilo, sua retórica e sua pessoa toda socialmente marcada, agrega às palavras “conotações” associadas a um contexto particular, introduzindo assim no discurso o excedente de significado que lhe confere sua “força ilocucionária”. (Bourdieu, 1996, p. 87).

Nesse sentido, pode-se dizer que tanto o conteúdo do discurso quanto a maneira de dizê-lo dependem da posição social do locutor, assim como de seus objetivos, o que justifica, portanto, o confronto entre os depoimentos do clube, expostos nos periódicos por meio de seu presidente, e o da torcida organizada, representada por Luiz “Papagaio”.

E mais, pode-se perceber que a mídia analisada – enquanto um agente de vínculo aparente e essencial com a briga do fatídico 06 de dezembro – busca uma série de elementos para compor as publicações a respeito do fato. Muito embora tais fatores não deixem de sofrer interdições por interesses escusos, como, por exemplo, beneficiar algum personagem envolvido, os jornais, em tese, permitiram o conhecimento de diferentes versões e possibilidades sobre o evento ocorrido, como em um sentido investigativo. Luiz Corrêa, por sua vez, discursa com um único objetivo: salvar a torcida Império Alviverde, enquanto instituição, das punições cogitadas pelas recorrentes acusações no que se refere à invasão do campo.

Ora, Eni Orlandi enfatiza que:

Falar em discurso é falar em condições de produção e, em relação às condições, gostaríamos de destacar que (…) são formações imaginárias, e nessas formações contam a relação de forças (os lugares sociais dos interlocutores e sua posição relativa no discurso), a relação de sentido (o coro de vozes, a intertextualidade, a relação que existe entre um discurso e outros) e a antecipação (a maneira como o locutor representa as representações do seu interlocutor e vice-versa). (Orlandi, 1983, p. 146).

Nesse sentido, as formações imaginárias do discurso são constituídas pelo sujeito falante, que não apenas produz linguagem como também se reproduz nela. Daí o discurso enquanto um fenômeno social, representante das visões de mundo correspondentes a cada enunciador (agente social).

E é aqui que se encontra o elemento fundador do discurso de Luiz Corrêa. Este, na posição de presidente da torcida organizada Império Alviverde, não visa pesar a situação no sentido de se aproximar de uma postura neutra. Muito pelo contrário. Luiz “Papagaio” coloca a si e a sua torcida enquanto desprivilegiados na relação de forças, haja vista que os mais fortes desta relação (clube, mídia e polícia) investem na anulação de seu discurso de defesa, a partir de assertivas contra a torcida organizada. Tais assertivas, compreendidas como acusações por parte do presidente-torcedor, estabelecem as relações de sentido, a intertextualidade a que Luiz Corrêa busca antecipar, recorrendo à construção discursiva que inocenta a instituição Alviverde.

No que se refere aos jornais analisados, por sua vez, estes buscam manter-se em harmonia com sua função social – o compromisso com os fatos e, portanto, a neutralidade ao tratar da notícia.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
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Data marcada.
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Até 30 mandos.
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Coxas também amam.
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Coritiba vai comparar invasão à força natural.
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[Valle, 2009]
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Curitiba aprova lei para cadastrar torcedores.
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[Vellinho et al., 2009]
M. Vellinho, N. Fontana, M. Comelsen.
Terror se espalha.
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[Vellinho et al., 2009]
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Enjaulados.
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O Núcleo de Estudos Futebol e Sociedade é um grupo acadêmico interdisciplinar de estudos e pesquisas, organizado a partir da Pós-Graduação em História, da Universidade Federal do Paraná, programa de nível 5 da CAPES. Mais informações em: <http: nefutebolesociedade.blogspot.com="" />

Palestra sobre “Torcidas organizadas e violência”, proferida por Luiz Fernando Corrêa, aos professores, alunos e pesquisadores da temática futebol na Universidade Federal do Paraná, em 31 de maio de 2010.

Palestra sobre “Torcidas organizadas e violência”, proferida por Luiz Fernando Corrêa, aos professores, alunos e pesquisadores da temática futebol na Universidade Federal do Paraná, em 31 de maio de 2010.

Palestra sobre “Torcidas organizadas e violência”, proferida por Luiz Fernando Corrêa, aos professores, alunos e pesquisadores da temática futebol na Universidade Federal do Paraná, em 31 de maio de 2010.

Palestra sobre “Torcidas organizadas e violência”, proferida por Luiz Fernando Corrêa, aos professores, alunos e pesquisadores da temática futebol na Universidade Federal do Paraná em 31 de maio de 2010.

Como, por exemplo, nas matérias: “Virou um inferno”, de 07 dez. 2009; “No cadeado”, de 08 dez. 2009; “Terror se espalha”, de 09 dez. 2009; “Nós somos vítimas!”, de 09 dez. 2009; “Data marcada”, de 10 dez. 2009; “Até 30 mandos”, de 11 dez. 2009; “Enjaulados”, de 13 dez. 2009; “Coxas também amam”, de 14 dez. 2009; “Pente-fino no torcedor”, de 15 dez. 2009; “Pena Máxima!”, de 16 dez. 2009; “Dispensados”, de 19 dez. 2009; “Baderneiros organizados”, de 20 dez. 2009; “PMs jogados aos leões”, de 31 dez. 2009.

Como: “Briga campal marca jogo em Curitiba”, de 07 dez. 2009; “Coritiba se exime e diz que é ‘vítima’ de organizada”, de 09 dez. 2009; “Torcedores utilizaram internet para combinar ação em Curitiba”, de 11 dez. 2009; “Governo diz ter sido alertado sobre invasão”, de 12 dez. 2009; “PM é qualificada, mas exagera, diz tese”, de 13 dez. 2009; “Coritiba vai comparar invasão à força natural”, de 15 dez. 2009; “Curitiba aprova lei para cadastrar torcedores”, de 16 dez. 2009; “MP denuncia 14 por tumultos no Couto Pereira”, de 24 dez. 2009; “A punição do Coritiba”, de 28 dez. 2009.

Para mais detalhes da pesquisa, ver: A violência nos estádios de futebol na perspectiva dos policiais militares de Curitiba: um estudo de caso (Dias Netto, 2009).

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