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Vol. 40. Núm. 2.Abril - Junho 2018
Páginas 109-212
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Vol. 40. Núm. 2.Abril - Junho 2018
Páginas 109-212
Artigo original
DOI: 10.1016/j.rbce.2018.01.006
Estádio do Maracanã: percepções a partir da reestruturação arquitetônica de 2010
Maracana Stadium: insights from the architectural restructuring in 2010
Estadio de Maracaná: puntos de vista sobre la reestructuración arquitectónica de 2010
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Ana Beatriz Correia de Oliveira Tavaresa,
Autor para correspondência
ana.tavares@ifrj.edu.br

Autor para correspondência.
, Sebastião Josué Votreb, Silvio de Cassio Costa Tellesc, Fabiano Pries Devided
a Instituto Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
b Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Programa de Pós‐Graduação de Ciência do Exercício e do Esporte, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
c Universidade Federal do Rio de Janeiro, Departamento de Corridas, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
d Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ, Brasil
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Tabela 1. Categorias centrais de análise
Resumo

Em 2013, o estádio do Maracanã passou por uma reestruturação arquitetônica. Investigamos percepções de funcionários sobre a reforma, no período de 2010 a 2013, com ênfase nas relações entre os discursos e o cenário do futebol contemporâneo. O conteúdo de dez entrevistas foi compulsado com atividades de observação sistemática em 2012 e 2013. Os resultados confirmam que o Maracanã se ajusta aos padrões de segurança, conforto, sustentabilidade ambiental e econômica, estabelecidos pela Fifa para construções de estádios de futebol.

Palavras‐chave:
Futebol
Maracanã
Configurações
Percepções
Abstract

In 2013 Maracanã stadium was remade. This study establishes perceptions of professional builders and discusses relations between discourses and the scenery of the stadium. We used content analysis to deal with data, collected with 10 officials and workers, and results of systematic observation, in the years 2012 and 2013. The study confirms Maracanã to be aligned with patterns of ambient sustainability, comfort and security for the fans.

Keywords:
Soccer
Maracanã
Configurations
Perceptions.
Resumen

En 2013 se reconstruyó el estadio de Maracaná. En este artículo se lleva a cabo un análisis de las percepciones de diez funcionarios implicados en la reforma del estadio y trata sobre las relaciones entre discursos y el entorno del estadio; a todo ello se le añaden datos y resultados de la observación sistemática en el período 2012‐2013. Los resultados confirman que el estadio de Maracaná se ajusta a los patrones de sostenibilidad ambiental y económica, comodidad y seguridad para los aficionados, establecidos por la FIFA en relación con la construcción de estadios de fútbol.

Palabras clave:
Fútbol
Maracaná
Configuraciones
Percepciones
Texto Completo
Introdução

Mudanças nos comportamentos, usos e costumes dos grupos sociais que ocorrem com o passar do tempo estão associadas ao processo de sua constituição histórica. No esporte não é diferente; a violência presente nos jogos ancestrais (folk football) é um exemplo de como as práticas corporais refletem as dinâmicas sociais. Ao narrar exemplos desses jogos, praticados a partir do século XIV, Elias e Dunning (1992) mostram, além de jogadas que hoje consideramos violentas, a passividade dos que testemunhavam essas práticas, sugerem que tal aceitação era característica da sociedade da época. Com o passar do tempo os jogos tornaram‐se menos violentos, com o estabelecimento de regras para controlar as emoções, bem como coibir e punir os atos mais violentos.

O futebol, como manifestação da cultura brasileira, também é um campo privilegiado para discutir e analisar questões sociais. Partindo de conceitos teóricos trabalhados por Elias (1970), postulamos que as constantes alterações que presenciamos ao longo do tempo, nesse campo de estudo, se justificam pelas diferentes configurações estabelecidas no decorrer dos processos históricos das sociedades esportivas.

Embora o esporte seja mercantilizado desde o início do século XX, apresentam‐se configurações recentes de uma nova ordem capitalista, mais globalizada. O futebol passa por diferentes fases, em termos mercadológicos. Entre 1960 e 1970, os objetos e as práticas esportivas adquiriram valor de mercado, instauraram‐se novas formas de pensar e se relacionar com o esporte. No fim da década de 1980, com a hipermercantilização, o futebol passou a bem de consumo. A época foi marcada por “maior migração de jogadores qualificados, proliferação gradual de competições continentais e globais, aumentos astronômicos nos salários de jogadores de elite e novos produtos de mídia para o futebol” (Giulianotti, 2012, p. 9).

Essas características acabaram por influir na dinâmica do espetáculo, nas relações dos torcedores com o futebol e na pressão por estádios condizentes com os cenários desse “novo” esporte. Dessa forma, com a mercantilização da cultura globalizada, o poder econômico, social e político difundido pelo mundo tornou “o futebol um dos mais extensos fios do emaranhado tecido da globalização hodierna” (Mascarenhas, 2007, p. 58). Os espaços/estádios, como cenários da cultura e equipamento esportivo, também se adequaram ao longo do tempo aos padrões postulados e exigidos, tanto pelo futebol quanto pelas dinâmicas sociais. Os movimentos das comunidades esportivas, no fim do século XIX e início do século XX, em busca de espaços delimitados para a prática do jogo, surgiram em função do aumento do interesse que o esporte despertava nas pessoas.

Devido ao contínuo aumento no número de torcedores, fruto da popularização e mercantilização do esporte, os estádios entraram em crise, ao se mostrar deficitários no quesito segurança; a superlotação era cada vez mais associada a acidentes em jogos em diferentes países, sobretudo europeus, como a tragédia ocorrida no estádio Hillsborough, na Inglaterra, em 1989, onde muitos torcedores morreram.

Na tentativa de eliminar o risco de repetição de tais ocorrências, o parlamento inglês exarou o Relatório Taylor (Sir Norman, 2002), com diversas recomendações para a construção e a reforma de estádios, como diminuição de sua capacidade, proibição de bebidas alcoólicas e inclusão de assentos nas arquibancadas. Esses e outros requisitos mudaram a configuração dos estádios britânicos, causaram efeito dominó na Europa e hoje fazem parte das exigências da FIFA (Fédération Internationale de Football Association) para qualquer país que se candidate a sediar torneios internacionais. O movimento inglês e europeu consagrou um futebol civilizado, ordeiro, com a presença de famílias, em que se atenua o risco de acidentes e tragédias. Alguns estádios brasileiros não escaparam às novas exigências do futebol e se tornaram objeto de discussão e de reformas.

O objetivo deste estudo é identificar e analisar as percepções de funcionários das empreiteiras responsáveis pela reforma do Maracanã, no período de 2010 a 2013, com ênfase nas relações entre os discursos apresentados pelos sujeitos da pesquisa e o cenário do futebol contemporâneo.

Decisões metodológicas

Este estudo1, de caráter qualitativo, usou a análise do conteúdo (Bardin, 2011) como recurso metodológico. Seguimos a tradição da análise categorial, estabelecemos como unidade de registro o tema – novo Maracanã –, buscamos nas comunicações os núcleos de sentido aparentes, presentes nos discursos dos informantes de nossa pesquisa.

Os dados foram coletados a partir de entrevistas semiestruturadas com dez funcionários envolvidos com a obra, entre 2010 e 2013. Esses dados foram complementados pela observação sistemática do processo de reestruturação do estádio, com registro em diário de campo, feita em três visitas guiadas ao canteiro de obras aberto ao público no período entre 2012 e seis jogos em 2013, três durante a Copa das Confederações e três durante o Campeonato Brasileiro no estádio, após a reabertura.

A indicação dos sujeitos da pesquisa foi feita pela assessoria2 de comunicação do Consórcio Maracanã/SA3, que nos apresentou a nove porta‐vozes, envolvidos com a edificação. Quatro deles têm nível superior: uma assessora de imprensa, um arquiteto e dois engenheiros. Os outros cinco são técnicos: dois da área de meio ambiente, um de segurança, um de implantação e manutenção de canteiros, um de manutenção de equipamentos. Eles são denominados líderes4. Além desses informantes, entrevistamos também o engenheiro da Empresa de Obras Públicas do Rio de Janeiro (Emop) responsável pela fiscalização da reforma. Todos os sujeitos da pesquisa concederam as entrevistas no canteiro de obras, em espaço próprio para interlocução, durante a jornada de trabalho. Nossa opção de buscar informações qualificadas com esses porta‐vozes do consórcio se deu em função de, comprometidos com a reestruturação do estádio, enquanto líderes, eles serem transmissores diretos de informações oficiais sobre o cenário que se construía, contribuíram para elaborar representações sobre o novo Maracanã, o que permite ao leitor identificar suas falas como “discursos oficiais” a respeito da obra que eles constroem.

Levando em conta que os informantes pertencem a uma mesma rede profissional, e que procuraram colaborar para que tivéssemos uma visão panorâmica e ao mesmo tempo detalhada das obras, consideramo‐los como sujeitos autorizados e reunimos suas respostas consensuais em blocos, que editamos e uniformizamos.

Em relação ao número de sujeitos, entrevistamos 10 funcionários, de acordo com o critério de saturação (Bauer; Aarts, 2011, p. 59). Verificamos que a partir do oitavo informante não apareceram dados que acrescentassem novos sentidos à pesquisa, tendo em vista a técnica de análise usada.

A partir da análise da fala dos informantes acerca da reforma do Maracanã, estabelecemos duas categorias centrais de análise (tabela 1). Tais categorias foram estabelecidas pela presença recorrente no discurso dos informantes, e não pela quantificação em números de aparecimentos.

Tabela 1.

Categorias centrais de análise

Sobre a reforma do Maracanã  Sobre os significados do novo Maracanã 
‐ Imposições da Fifa  ‐ Segurança 
‐ Visibilidade  ‐ Conforto 
  ‐ Sustentabilidade ambiental 
  ‐ Sustentabilidade econômica 
Análise dos dados

O processo de modernização pelo qual os estádios vêm passando está associado sobretudo aos fatores econômicos, segue o viés mercadológico, ratifica a ideia de que para cada conjuntura social se faz necessário um espaço que atenda aos objetivos comerciais dos empreendedores envolvidos com eventos esportivos naquele momento (Holzmeister, 2005). Tal processo contribui para a incorporação de novos significados das comunidades esportivas sobre o valor simbólico dos equipamentos.

Nesse contexto de novas configurações nos estádios brasileiros, é promulgada a lei 10.671 (Brasil, 2003), que dispõe sobre o estatuto do torcedor. Esse estatuto, ao estabelecer normas de proteção e direitos dos torcedores, aborda questões diretamente relacionadas aos estádios. Alguns dispositivos mostram a preocupação com a qualidade do serviço prestado nesses locais, como alimentação de boa qualidade e banheiros em número suficiente e em boas condições de uso pelo público.

Outros dispositivos estabelecem requisitos sobre a organização e disciplina dos torcedores nos estádios, como, por exemplo, a venda de ingressos numerados que garantam um assento específico para cada torcedor. O estatuto estabelece penas severas aos torcedores, para transgressões como promover tumulto e invadir campo, entre outros atos que interfiram na ordem do estádio. Pune também, com a perda do mando de campo por seis meses, o clube que vender um número de ingressos maior do que a capacidade ou permitir o acesso de torcedores em quantidade maior do que o estipulado e também não oferecer o número de portões de acesso estabelecido em função do número de espectadores.

Destacamos ainda que a inculcação e o desenvolvimento de normas promovem um exercício de repressão de desejos e sonhos, principalmente a partir de uma sociedade que busca um padrão comportamental que reflita uma divisão de classes. A criação de condutas, normas e leis é um reflexo dessa tendência padronizadora. Assim, o respeito ao próximo reside também no controle da liberdade de expressão e atitudes violentas ou descompassadas com o ideal comportamental em construção devem ser tolhidas para o bem da harmonia e solidariedade, pautadas em uma justiça e igualdade social (Elias & Dunning, 1992).

As questões postas em discussão pelas instâncias responsáveis pelo esporte competitivo e transformadas em lei pelo congresso nacional, que começavam a ser implantadas no cenário do futebol, precisaram ser prontamente solucionadas com a vinda da Copa do Mundo de 2014 para o Brasil. Os estádios que recebessem os jogos teriam que atender aos critérios recomendados pela Fifa, descritos com circunstância no caderno de encargos da entidade. Na introdução do referido documento, consta que nos últimos dez anos os estádios deixaram de ser locais onde apenas se assiste a uma partida de futebol para se tornar equipamentos multiuso, com serviços modernos e de qualidade, onde todos os tipos de público seriam beneficiados. Está em curso “uma nova era na construção dos estádios” (Fifa, 2011, p. 7).

Buscando atender a essa demanda, o Maracanã, definido como o palco da partida final da Copa de 2014, fechou os portões em 2010 para ser reestruturado.

Sobre a reforma do Maracanã: normas da FIFA e visibilidade

O consórcio Maracanã 2014, responsável pela reforma do estádio, elaborou o projeto cumprindo os itens recomendados pela Fifa. Do antigo estádio restou basicamente a fachada, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan, 2000).

Os depoimentos, tanto do engenheiro da Empresa de Obras Públicas, responsável por fiscalizar a obra, quanto dos funcionários do Consórcio (assessor, arquiteto, engenheiros e líderes de diferentes setores), seguiam uma mesma direção. O discurso, alinhado com o projeto orientado pela Fifa e bancado pelo governo, era retomado detalhadamente por todos eles. O consenso das falas, resultante da edição delas, é:

Todo o anel inferior foi demolido para atender a um prerrequisito da Fifa, hoje o primeiro assento tem que estar afastado aproximadamente 14 metros da linha do campo; camarotes, cabine de imprensa, tribuna de honra como era antigamente, isso a Fifa dita, tem que ser no oeste porque o sol da tarde está batendo no leste, nada aqui é por acaso.

Essa relação entre as normas da Fifa e as questões da reforma do Maracanã nos mostra a importância de levarmos em consideração a configuração social da época, não reduzir o estudo à compreensão de um elemento ou comportamento isolado, e, sim, buscar pensar em relações sociais provisórias e dinâmicas, síntese do movimento dialético da realidade (Elias, 1970).

Os informantes destacaram também que o Maracanã entraria, novamente, para o rol dos estádios mais modernos do mundo, na mesma linha dos europeus.

Você vai ter telões com tecnologia de última geração; é moderno; o lugar vai ficar de primeiro mundo; comparado a qualquer arena moderna do mundo.

O Maracanã já havia passado por duas reformas que trouxeram algumas modificações na sua estrutura original, atenderam aos requisitos da Federação. Em 2000, em função do Mundial de Clubes organizado pela Fifa, o estádio teve sua arquibancada coberta por assentos individuais. Em 2005/2007, para receber os Jogos Pan‐Americanos, as alterações mais significativas foram a extinção do setor Geral, que recebeu cadeiras, além da elevação do campo e reformas de modernização de vestiários, banheiros e bares.

Além das exigências da Fifa, também se ressaltaram as condições estruturais em que se encontrava o estádio. A cada proposta de adequação, em função dos campeonatos, o estádio se tornava centro de discussões sobre a estrutura danificada pelo tempo, os gastos para manutenção e a indagação sobre se, em função dessas questões, seria mais pertinente demoli‐lo5. É o que se depreende da edição seguinte:

Você tem uma estrutura de 1950, que não foi mantida adequadamente durante esses 60 anos, então ela estava com problemas estruturais sérios; a derrubada da marquise não fazia parte do projeto, a gente fez um estudo bem aprofundado de patologia da estrutura e vimos que não tinha condições nem de manter nem de reconstruir, tivemos que demoli‐la porque estava apresentando um processo de corrosão avançado; a gente está mexendo num pilar e vê que o concreto está lá no processo de deterioração e a gente tem que mexer; estava com a vida útil comprometida.

Os informantes também destacaram a relevância da reforma, em função da importância do estádio para a população, principalmente carioca. O simbolismo do estádio trazia para os funcionários uma responsabilidade muito grande, pois era necessário, a todo momento, responder às críticas sobre gastos exponenciais, sobre o tempo que levaria a reforma e sobre o cumprimento dos prazos.

Essa preocupação com o cronograma, recorrente em obras públicas colossais como a do Maracanã, dizia respeito ao risco de o consórcio não concluir os trabalhos, que eram acompanhados pela imprensa do Brasil e do mundo. É o que se depreende da edição abaixo:

Obra importantíssima, de ótima visibilidade; uma obra também emblemática né? Obra que tem uma importância mundial, você está levando o nome do país, se essa obra der errado o Brasil fica mal visto; quando se trata de Maracanã volta‐se todo mundo para esse lugar; uma obra com muita mídia; a sociedade cobra muito, essa paixão pelo futebol gera uma paixão pela parte física também, então nós temos que dar muita explicação, a sociedade toda quer saber passo a passo, essa é uma obra emblemática.

A visibilidade e o simbolismo do Maracanã suscitavam destaque para diferentes aspectos da obra, motivando polêmicas, com ressonância nas mídias, que “iam desde uso de recursos públicos, indícios de superfaturamento ou direcionamento das licitações e inadequação, às demandas do futebol local” (Damo, 2012. p. 42).

Observa‐se uma tendência de discussão, na sociedade civil, sobre o uso das verbas em setores públicos, com destinação social. O suporte financeiro6 oriundo das três esferas de poder para a construção das arenas se configurava como farto e abusivo. Assim, as diversas manifestações e discussões sobre os gastos na construção das novas arenas representavam, em parte, a reação e a resposta à sequência que vemos: primeiro o sucateamento, depois a privatização.

A partir dos discursos registrados acima, notamos a importância de compreender a reestruturação do Maracanã a partir das relações interdependentes entre os indivíduos. A sociedade é formada por nós e pelos outros e os elos devem ser considerados para um melhor entendimento do objeto estudado (Elias, 1970).

Sobre os significados do novo Maracanã: segurança, conforto, sustentabilidade ambiental e econômica

Em relação à reforma do Maracanã, os discursos dos informantes mostram novos significados sobre o estádio. Destaca‐se a sensação de segurança das pessoas, como primeira categoria de análise do processo de modernização, citada pelos funcionários da obra. Algumas mudanças foram adotadas, como: a redução da capacidade do estádio, o aumento do preço, que diminuiu assim o número de torcedores, atraiu novo público e incentivou o retorno de uma parcela dos antigos aficionados, que não frequentavam mais o estádio, em função das confusões e da violência.

A capacidade do estádio vai cair para em torno de 79.000 lugares; a área do camarote com certeza vai ter uma área especial num determinado trecho; tem os assentos mais próximos ao campo, os assentos vips e daí a arquibancada comum; você vai poder trazer criança, criança não vinha mais no Maracanã, adolescentes, senhoras, família, tem que vir família para cá, isso é um espetáculo.

A expectativa dos construtores era que as medidas facilitariam a vigilância e possibilitariam a um novo público, mais comportado, frequentar o estádio.

O Maracanã, ele vai ser monitorado, então briga, essas coisas, a tendência é acabar, porque você vai ter uma segurança dentro; vai ter esquema de detecção de metais; vandalismo não cabe mais no mundo; o torcedor pode levantar, torcer, brincar, berrar, mas ele não pode quebrar, quebrar banheiro; tem que ter educação.

Pela lógica do mercado, pode‐se cobrar um preço mais elevado do ingresso, se o serviço apresentar qualidade. Pensar no antigo Maracanã e lembrar‐se da violência, do caos das filas para compra de ingressos, dos perigos dos “bondes” nas rampas no fim dos jogos, não justificaria o aumento do valor do ingresso, nem a chegada de outro tipo de público. Logo, a estratégia adotada foi a de oferecer um estádio seguro, que atrairia pessoas de todas as idades e de uma classe social mais alta que, possivelmente, injetaria mais dinheiro no novo espaço.

Eu peguei a época em que a arquibancada não tinha cadeira, ficavam três em pé ali no meio da torcida organizada, questão de segurança; era tumultuado para entrar, era o bonde, eu mesmo deixei de vir ao Maracanã, jogavam saco de urina, isso é um absurdo, a população tem que ser gente, e não bicho.

As questões de segurança estão diretamente relacionadas às questões do segundo item de análise: o conforto. As recomendações sobre visibilidade do gramado, acessibilidade e evacuação aparecem nos discursos dos informantes e marcam suas percepções sobre o novo Maracanã.

Após a reforma, de qualquer ponto do estádio deve ser possível ver o campo do jogo, não haverá mais pontos cegos como no antigo estádio. Todos deverão assistir às partidas sentados e a distância dos torcedores em relação ao campo diminuirá, os deixará mais próximos da ação.

Agora você vai conseguir enxergar, de qualquer ponto do estádio. Antigamente tinha a geral, o pessoal assistia ao jogo de pé. Não pode mais. Todo mundo que tiver sentadinho lá pode ver tudo; acho que a condição de você assistir um jogo aqui vai ser infinitamente melhor por conta dessas exigências de visibilidade, de tamanho, do assento, de acesso facilitado, vai ser infinitamente melhor.

Este estudo complementa e comprova como o investimento econômico‐financeiro se associa ao processo de proteção do espaço contra os abusos do público, sob um discurso de melhoria de sua segurança e aumento de seu conforto, de Gaffney e Mascarenhas (2004, p. 3): “conjunto progressivo de intervenções diversas, na arquitetura e nos regulamentos de uso, vem promovendo um aumento significativo do controle sobre os corpos, ritos e manifestações coletivas e impactando na forma de uso desses espaços”.

As novas rampas melhoram o acesso e permitem a evacuação do estádio em poucos minutos, evitam assim as aglomerações, que favorecem conflitos. Portanto, se forma uma configuração singular, que atende tanto aos critérios de segurança da Fifa quanto à lógica do mercado, do conforto e do controle dos torcedores.

O acesso e a evacuação são muito mais balanceados, temos muito mais saídas; foi feito um estudo de fluxo dinâmico da saída dos torcedores pra balizar a largura dessas rampas, permitiu à gente ter uma dimensão de tempo, quanto tempo o cara leva para sair da cadeira dele até um local fora do estádio.

O uso das cadeiras numeradas, implantadas nos jogos da Copa das Confederações, primeira competição oficial no estádio após a reabertura em janeiro de 2013, foi outra estratégia com o objetivo de proporcionar conforto e também segurança. As cadeiras que individualizam o espaço, assim como os setores que são separados por divisórias e portões, destinam locais específicos em função do valor pago pelo ingresso, limitam a circulação dos torcedores, impedem que circulem livremente pelo estádio. Além disso, a nova cultura que possibilita a compra de ingressos pela internet evita as tradicionais filas, em nome da organização e do conforto e dificulta aglomerações antes dos jogos. As ações implantadas favorecem a interpretação de que “o evento esportivo adquiriu alto grau de previsibilidade, submetido a inúmeras regras, um concerto de gestos eficientes, um verdadeiro espaço disciplinar” (Mascarenhas, 2007, p. 64).

Os discursos dos construtores estão pautados em percepções que se formaram a partir de configurações que circulavam no cenário recente do futebol, distintas das configurações existentes em 1950, ano da inauguração do Maracanã. Com efeito, “o projeto do Maracanã teve pouca preocupação com conforto, segurança, design ou viabilidade econômica, estava muito mais concentrado em oferecer espaço suficiente para garantir a participação democrática de um número máximo de espectadores” (Curi, 2012, p. 299). Era importante, na época, mostrar ao mundo a força da nação brasileira, capaz de erguer, em tão pouco tempo, um monumento daquela proporção, para receber a competição internacional. O apelo para que a população se envolvesse com a construção foi enorme, tanto para participar de campanhas a favor da obra quanto para ajudar a financiá‐la. Expressões como “obra monumental”, “o mais belo”, “o mais moderno” e “estádio colossal”, usadas na época pela imprensa, auxiliaram na construção de representações que os torcedores têm sobre o antigo Maracanã (Tavares; Votre, 2013).

Já em 2010, com um cenário associado ao mercado, que define a segurança e o conforto como questões primordiais, verificamos que novos significados se propagam entre os indivíduos. Podemos verificar que os discursos “oficiais” dos funcionários vão construindo, ao lado do discurso midiático, um novo cenário para a “casa” do futebol carioca.

O terceiro item identificado no discurso coletivo dos dez informantes foi o da sustentabilidade ambiental. Além de ser um requisito da Fifa, também foi foco de atenção por parte de entidades nacionais. Havia um prêmio substancial se o cronograma da obra se cumprisse, atendesse aos prerrequisitos estabelecidos para ser considerada sustentável: receberia a certificação Leed (Leadership in Energy and Environmental Design) e seria beneficiada com um financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

A meta do Leed é que 75% do resíduo que a gente gera aqui dentro é para reaproveitar ou reciclar; hoje a gente está com 81% de resíduo que a gente gerou que foi ou reusado aqui dentro ou reciclado, para a gente não onerar mais os aterros sanitários.

O esforço para cumprir os requisitos era visível. Nas visitas ao canteiro notamos árvores sendo preservadas em meio aos materiais e máquinas de construção, o concreto do estádio assim como outros resíduos sendo reciclados, o uso de madeiras certificadas, a doação de cadeiras obsoletas, de modo que o que era possível foi sendo reaproveitado.

Todos os cuidados em relação à poeira, a caminhões no entorno, barulho, e a questão também dos materiais recicláveis; para que não agrida nem a atmosfera nem o trabalhador que está em contato, tudo é controlado. Na demolição, todo o material foi aproveitado aqui na obra, aproveitamos a ferragem, reciclando; o gramado foi reaproveitado para áreas da Prefeitura.

Em relação ao uso do estádio quando reaberto, o projeto também previu o reaproveitamento de água e economia de energia, com a implantação de um sistema de iluminação diferenciado. Logo, tanto no período da obra quanto no do funcionamento do estádio, as preocupações com as questões ambientais eram destacadas.

A cobertura vai propiciar captar a água da chuva para lavagem de uma forma geral, dos banheiros, e para irrigação, essa água de irrigação vai ser reciclada também; o fosso, a intenção não é isolar, é armazenar água no período de chuva, por 30 minutos. Vamos gerar energia solar, que vai cair na rede da Light, com parceria entre o estado e a Light.

Além de sustentável ambientalmente, o estádio se organiza para ser sustentável economicamente, ou ao menos ser pouco oneroso. Ele se divide em quatro grandes setores (leste, oeste, norte, sul), dois deles (leste e oeste) com a melhor visibilidade, destinados a um público diferenciado, com condições financeiras de pagar pelos serviços prestados. Nesses locais estão situados os camarotes e as cadeiras que oferecem serviço de buffet. Os setores atrás dos gols (norte e sul) são os de menor preço e, no acordo firmado entre o consórcio administrador e os times de futebol, são espaços do Flamengo e Fluminense, onde estão se concentrando as torcidas organizadas.

Os assentos de arquibancadas são os assentos atrás dos gols, no meio são os assentos mais caros; a previsão de ter mais camarote do que tinha antigamente, mais assentos especiais, que tenha alguma amenidade para o espectador, vai privilegiar isso para criar renda para o estádio; o Maracanã como foi feito não era autossustentável, digo economicamente. Então, para o Maracanã perdurar mais não sei quantos anos teria que mudar o modelo; é privilegiar, não estou falando aqui de classe social, mas é privilegiar o ticket mais caro, porque é ele que banca o estádio, os outros são importantes para o espetáculo, mas não o sustentam.

Embora para os clubes a venda de ingressos não seja a principal fonte de renda, como descrito anteriormente, para o consórcio que administra o estádio essa é uma prioridade, principalmente na perspectiva do conforto. O ticket com um valor mais elevado, mesmo que atraia um público menor, ajuda a financiar essas modernas arenas.

Entretanto, o valor do ticket nos primeiros jogos do Campeonato Brasileiro de 2013 foi considerado elevado em todos os setores, inclusive nos de menor valor, possivelmente afastou uma parte do público, o que se constata com o número de cadeiras vazias. Em outros jogos do mesmo campeonato os preços foram mais baixos, possibilitaram o retorno de muitos dos torcedores até então excluídos das primeiras partidas no novo Maracanã.

A organização com a venda de cadeiras numeradas, respeitada na Copa das Confederações/2013, não foi seguida para os jogos do Campeonato Brasileiro do mesmo ano, pois segundo os organizadores tal regra seria de difícil aplicação. As torcidas organizadas, entretanto, tiveram que se adaptar, arrumar outros recursos para pendurar suas faixas. As dinâmicas de entrada e saída do estádio também foram alteradas em função da nova estrutura arquitetônica, com novos portões, rampas, banheiros, bares e novos serviços, inclusive para as crianças, que recebiam pulseiras de identificação e brindes de balões no interior do estádio.

Além de desfrutar dos jogos, os segmentos de maior poder aquisitivo têm no estádio um espaço privilegiado para fazer negócios. A tendência é que os estádios se tornem espaços de multiuso e ofereçam, além de jogos de futebol, outros espetáculos como shows e convenções, contem ainda com museus, shoppings e estacionamento, transformem‐se em completos centros de entretenimento. O Maracanã já oferece, por exemplo, espaço para eventos sociais ou profissionais, além dos espetáculos do mundo do futebol.

Considerações finais

As categorias segurança, conforto, sustentabilidade ambiental e econômica verificadas em nosso estudo apontam para um novo paradigma, que deverá tornar‐se hegemônico nas principais arenas brasileiras, principalmente após a Copa do Mundo de 2014. As normas da Fifa seguem padrões universais de segurança, em que as condutas violentas cada vez mais têm dificuldade de se propagar, em virtude das restrições estabelecidas aos corpos, dentro dos estádios. Assim, essas modificações arquitetônicas não atingem somente as estruturas, mas também transformam as atitudes dos torcedores frente ao espetáculo.

Segundo Elias e Dunning (1992), o desenvolvimento do controle dos sentimentos busca atingir um aspecto da estrutura da personalidade mais profunda dos indivíduos, deixa com o tempo de ser uma ação que se faz de forma externa, revela‐se automática. Assim, o processo civilizatório continua em curso, das mais diversas formas e em diferentes âmbitos sociais.

A Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (Suderj) deixou de ser a administradora do estádio, a gestão passou para a iniciativa privada. O Complexo Maracanã Entretenimento negociou com os clubes interessados, Flamengo e Fluminense, que passaram à condição de parceiros do Complexo. Com isso, as novas configurações surgem marcadas por relações comerciais e esportivas.

O novo cenário, remodelado nos seus arredores e sobretudo no seu interior, propicia o surgimento e a consolidação de relações conflitantes entre grupos críticos às despesas com atividades esportivas e a priorização dos equipamentos esportivos. Por outro lado, no interior dos grupos que apoiam o esporte também há resistências ao novo, que foram antevistas por Mascarenhas (2004, p. 67).

A nova anatomia política dos estádios não se disseminará completamente. Tampouco será acatada plenamente por seus usuários. Há o torcedor contestador e as torcidas organizadas, com potencialidade de contraposição às estratégias de controle, geram constantes conflitos com a nova ordem constituída.

A contraposição às estratégias de controle mostra‐se insidiosa e, sobretudo, criativa. As punições contra manifestações racistas, depredação e atos de violência entre as torcidas, como jogos com portões fechados, recurso à justiça comum e proibição de entrada nos estádios, têm um tempo de saturação que não se pode medir em lustros ou mesmo em décadas, para surtirem efeito.

Apresentamos evidências de que as configurações que interferiram na reestruturação do Maracanã, estádio que se apresenta com uma nova estrutura e impõe novas práticas e comportamentos, auxiliam na construção de novas representações e vice‐versa (Moscovici, 1978). Trazem também um novo público para o estádio. O Maracanã, construído para o povo, se reconstrói com crise de identidade.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
[Bardin, 2011]
L. Bardin
Análise do conteúdo
Presença, (2011)
[Brasil, 2003]
Brasil. Lei n° 10.671 de 15 de maio de 2003. Dispõe sobre o Estatuto de defesa do torcedor e dá outras providências.
[Bauer e Aarts, 2011]
M.W. Bauer,B. Aarts
A construção do corpus: um princípio para a coleta de dados qualitativos
Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som., pp. 64-89
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M. Curi
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Construindo representações sobre o estádio do Maracanã: análises de periódicos de 1947 a 1950
Esporte e educação física ao redor do mundo: passado, presente e futuro,

Todos os procedimentos apropriados para obtenção do termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) foram adotados. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética sob o número do CAEE: 07820112.7.0000.5287.

A assessoria indicou pessoas das equipes técnicas, que conheciam o projeto em detalhes, capacitados para oferecer dados confiáveis sobre a proposta da reforma.

Formado pelas empresas IMX, Odebrecht e AEG.

Os funcionários entrevistados eram líderes de suas equipes, com desenvoltura e competência apresentada no ambiente de trabalho. Eram responsáveis por determinados setores da obra e coordenavam os demais funcionários pertencentes às suas equipes, passavam instruções da parte técnica e os incentivavam a se envolverem com o empreendimento.

A sugestão apontava para Wembley, que foi demolido em 2003.

Em setembro de 2010 a reforma do estádio do Maracanã foi orçada em 705 milhões de reais. Em 22 de julho de 2013 acresceu‐se um novo valor 69% maior, alcançou a cifra de 1,192 bilhão de reais, conforme consta no Diário Oficial do Rio e Janeiro, 22 de julho de 2013.

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