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Vol. 40. Núm. 1.Janeiro - Março 2018
Páginas 1-108
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Vol. 40. Núm. 1.Janeiro - Março 2018
Páginas 1-108
Artigo original
DOI: 10.1016/j.rbce.2018.01.004
O circo na formação inicial em educação física: um relato autoetnográfico
The circus in initial training in physical education: an autoethnography report
El circo en la formación inicial en educación física: un informe autoetnográfico
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Rita de Cassia Fernandes Mirandaa,
Autor para correspondência
rifernandes36@gmail.com

Autor para correspondência.
, Marco Antonio Coelho Bortoletob
a Universidade Federal de Uberlândia, Faculdade de Educação Física, Departamento de Educação Física, Uberlândia, MG, Brasil
b Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação Física, Departamento de Educação Física e Humanidades, Campinas, SP, Brasil
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Tabela 1. Distribuição das aulas/conteúdos e estratégias da disciplina (edição 2016)
Resumo

O estudo apresenta, a partir da perspectiva autoetnográfica, uma possibilidade de sistematização dos saberes circenses na formação inicial em educação física. Para tal, recorremos à observação participante durante um semestre letivo (40 horas) numa instituição de ensino superior pública do Estado de São Paulo. O diário de campo, os registros fotográficos das aulas e as conversas informais dos discentes constituíram‐se os instrumentos de pesquisa. Os resultados demonstraram a excelente receptividade dos alunos, com experiências que favoreceram a autonomia e a tomada de decisão. Identificamos que a existência pregressa da disciplina no currículo foi um agente facilitador. Outros fatores dificultadores foram o elevado número de alunos por turma e a reduzida carga horária da disciplina.

Palavras‐chave:
Ensino superior
Educação Física
Currículo
Circo
Abstract

The study presents on autoethnography as a research method, a possibility of systematisation circus knowledge in initial training in physical education. To this end, participant observation was used during an academic semester (40hours) in a public institution of higher education in the State of São Paulo in Brazil. Field journal, photographic records of classes in addition to the informal conversations students were research instruments. Results demonstrated excellent receptiveness on the part of the students, with experiences that favored the autonomy and decision making. Early existence of the discipline in the curriculum was an agent facilitator. Other factors the process were the large number of students per class and the reduced workload of the discipline.

Keywords:
Higher education
Physical education
Curriculum
Circus
Resumen

El estudio presenta, desde la perspectiva autoetnográfica, una posibilidad de sistematización del conocimiento circense en la formación inicial en educación física. Para ello, se ha recurrido a la observación participante durante un semestre lectivo (40 horas) en un centro público de enseñanza superior del estado de São Paulo. En la investigación se utilizaron un diario de campo, registros fotográficos de las clases, así como conversaciones informales con los alumnos. Los resultados demostraron la excelente receptividad por parte del alumnado, con experiencias que favorecieron la autonomía y la toma de decisiones. La temprana existencia de la disciplina en el plan de estudios fue un agente facilitador. Otros factores, como el elevado número de estudiantes por grupo y la reducida carga horaria, se identificaron como dificultades.

Palabras clave:
Enseñanza superior
Educación física
Currículo
Circo
Texto Completo
Introdução

A multiplicidade da arte circense plasmada no seu rizomático modo de produção, socialização e organização do trabalho (Silva e Abreu, 2009) tem possibilitado ressaltar sua contemporaneidade e analisar a ampliação de sua implantação em diferentes contextos. Sem desconsiderar os inúmeros aspectos constitutivos desse processo, nos parece evidente que a cena circense do século XXI mantém‐se plural e multifacetada, mostrando‐se um terreno fértil para a educação física contemporânea, além de uma possibilidade ímpar de reencontro com a expressividade e a diversidade artística (Price, 2012; Garcia, 2013; Duprat, 2014; Bortoleto, Ontañón e Silva, 2016, Bortoleto e Silva, 2017).

Ao serem observadas com maior critério as aproximações entre o circo e a educação física, constatamos intenso diálogo, mas também inúmeros distanciamentos, disputas e contradições historicamente constituídos ao longo dos séculos XIX e XX (Soares, 2002; Hauffe e Góis Junior, 2014); um conjunto de sentidos e significados do corpo e do gesto discursivamente amparados por uma multiplicidade de agentes e formas de produção.

Desse modo, dentre as múltiplas relações educacionais observadas atualmente entre o circo e a sociedade, que incluem o contexto da escola básica, os projetos sociais, as escolas profissionalizantes de circo, entre outras, optamos por abordar o cenário da formação inicial em educação física, cujas experiências curriculares foram objeto de análise de recentes produções de pesquisadores brasileiros (Abrahão, 2011; Bortoleto e Celante, 2011; Silveira, 2013; Miranda, 2014; Tucunduva, 2015).

Estudos como os de Miranda (2014) e Tucunduva (2015) constataram que apenas um número reduzido de instituições de ensino superior (IES) brasileiras está sensibilizado para o trato dos saberes circenses na formação inicial em educação física, desenhando ações isoladas nas matrizes curriculares que, em sua maioria, não contam com o devido apoio institucional e político para as demandas surgidas. Entretanto, nos casos investigados, a participação dos docentes e discentes nas ações extensionistas, de ensino e de pesquisa propiciou possibilidades de construção de conhecimentos e contribuiu para a legitimação desses saberes no currículo. Panorama esse que parece ter encorajado os egressos a incorporarem esses conhecimentos em diferentes contextos da atuação profissional em educação física (Bortoleto e Celante, 2011).

Esse movimento, ainda que recente, nutre‐se das novas demandas do campo profissional, articula seus primeiros passos, concomitantemente à ampliação da produção acadêmica e ao maior diálogo com o universo circense. Por outro lado, Tucunduva (2015, p. 110) sinaliza algumas fragilidades, como a carência de fundamentos para a sistematização dessas manifestações, pois muitas propostas, “apesar de profícuas em promover o acesso à prática corporal circense para distintos públicos, são limitadas em suas abordagens à criação artística”.

Outros trabalhos recentes (Tiaen, 2013; Caramês, 2014) também debateram experiências curriculares com o circo na formação profissional em educação física e ressaltaram a pertinência desses saberes, bem como o amplo interesse e motivação dos sujeitos participantes. Ora, se por um lado a produção acadêmica indica que há uma significativa demanda pela sistematização de propostas que embasem a atuação profissional, por outro esses docentes já têm construído experiências curriculares bem‐sucedidas, tensionando a produção e ressignificação da linguagem circense na universidade.

Mesmo sendo possível ressaltar o pioneirismo dessas experiências ao ampliarem os diálogos e nexos com o campo da arte em busca de práticas que fomentem uma educação corporal, artística e estética (Bortoleto, 2011), parece cauteloso apontar a fragilidade presente nessas iniciativas, cenário que justifica o desenvolvimento da presente pesquisa.

Considerando o currículo como artefato cultural produzido discursivamente e que não prescinde de análises das relações de poder que o constituem (Silva, 2004), destacamos algumas questões orientadoras: Como sistematizar o processo de ensino‐aprendizado dos saberes circenses na formação inicial em educação física? Os temas de estudo propiciam a valorização das diferentes vozes existentes na sala de aula? Que tipo de contribuição uma investigação com esse propósito poderia oferecer ao repensar dos currículos de formação inicial? Com base nos questionamentos anteriores, delineia‐se o objetivo da pesquisa, qual seja analisar as possibilidades de sistematização dos saberes circenses na formação inicial em educação física, na perspectiva do docente universitário como pesquisador de sua própria prática.

Por uma metodologia para o estudo da experiência docente

Nas últimas décadas tem se discutido o papel do pesquisador nos processos de produção de conhecimento no âmbito das investigações empíricas, acerca do impacto da subjetividade nas pesquisas na área das ciências sociais (Ellis e Bochner, 2000; Smith, 2005; Scribano e De Sena, 2009). De igual modo, no âmbito da educação física esse movimento, embora incipiente, tem se intensificado e ampliado tais questionamentos nas pesquisas voltadas para a formação inicial e continuada de professores. Os trabalhos de Bossle et al. (2009), Lopes (2012), Bossle, Molina Neto e Wittizorecki (2013) são alguns exemplos que discutem as potencialidades metodológicas da autoetnografia na perspectiva supracitada.

Nessa direção, a presente pesquisa está centrada nos pressupostos da autoetnografia (Jones, Adams e Ellis, 2013) como estratégia de investigação qualitativa por meio da qual conhecimento e experiência se põem em ação, assumindo o circo como conjunto de saberes que visam a contribuir para a formação inicial do professor de educação física.

O “gesto autoetnográfico” (Scribano e De Sena, 2009) matiza a oportunidade de o pesquisador ser sujeito e objeto de forma ativa no exercício dialógico da pesquisa. Propõe, através do engajamento e da reflexividade, o enfrentamento político de questões como a valorização da objetividade e a falta de reciprocidade entre o pesquisador e sujeitos.

Pesquisa que se teceu “in‐mundo”, ou seja, “imundizada” naquilo que de mais rico existe na troca e no confronto, num modo implicado de se fazer pesquisa (Abrahão et al., 2014). Para Abrahão et al (2014, p. 157‐158): “O pesquisador in‐mundo emaranha‐se, mistura‐se, afeta‐se com o processo de pesquisa, diluindo o próprio objeto, uma vez que se deixa contaminar com esse processo, e se sujando de mundo, é atravessado e inundado pelos encontros”.

Ellis e Bochner (2000) atestam que a autoetnografia permite intercambiar diversas fontes de informação. A observação participante feita de forma engajada, visto que um dos autores era docente responsável da disciplina, foi realizada de fevereiro a junho de 2016 e agregou os seguintes instrumentos: diário de campo, em torno de 50 páginas de registros (distribuídas entre planejamento das aulas, observações sobre os envolvidos, o material e o ambiente, acompanhamento e avaliação das práticas feitas), conversas informais com os discentes, registros fotográficos das aulas, além de consulta a documentos de registros do desenvolvimento da disciplina em anos anteriores.

Com base nesse referencial, apresentamos possibilidades do circo na formação inicial em educação física a partir de uma experiência concreta, a qual intencionou legitimar e ampliar o espaço/tempo de discussão e aprofundamento dos aspectos histórico‐sociais, políticos, simbólicos, técnicos e estéticos do circo no currículo.

Do cotidiano das aulas e das experiências compartilhadas

A disciplina de atividades circenses aplicadas à educação física, objeto da presente investigação, foi analisada durante o primeiro semestre de 2016. Com carga horária de 40 horas distribuídas entre atividades teórico‐práticas e de pesquisa, tinha o caráter de “componente curricular livre”, similar aos créditos eletivo‐optativos, ou seja, os discentes possuíam autonomia para escolher cursar a disciplina. Foram quatro turmas de primeiro semestre, duas do período diurno e duas do noturno, com em média 60 alunos ao longo do semestre.

No intuito de melhor organizar a sequência de exposição, considerando as anotações feitas no diário de campo, optamos pela subdivisão em dois momentos: o planejamento (feito não somente, mas prioritariamente antes do início das aulas) e os aspectos pedagógicos das aulas. Embora tenhamos optado por essa forma de organização do texto, entendemos que tanto o planejamento quanto a implantação e avaliação das atividades caminharam juntos, construídos cotidianamente.

Planejamento

Tendo em vista que a primeira autora deste trabalho foi aprovada no processo seletivo feito pela instituição pesquisada semanas antes do início do semestre letivo, tivemos aproximadamente 15 dias para a elaboração do plano de ensino da disciplina. Assim, nossa primeira ação foi a leitura do projeto político‐pedagógico (PPP) do curso. Posteriormente, procuramos o docente da instituição que desde o oferecimento inicial da disciplina em 2009 havia ministrado as aulas e desenvolvido pesquisa e extensão relacionadas a essa temática. A ideia era compreender a trajetória construída naquela IES, visto que já havia experiências pedagógicas com o circo como componente curricular por mais de cinco anos e que não poderiam ser negligenciadas, mesmo sabendo que precisaríamos adentrar aquele continente e suas latitudes pelos nossos pés.

Por certo sabemos que as ações de planejamento e implantação envolvem processos de luta e de relações de poder pelos diferentes interesses dos grupos representados, demarcam as condições de produção do documento como discurso que se materializa, em ato, na sua relação com o cotidiano.

Corroborando os dizeres de Corazza (2002a), entendemos que o planejamento de ensino exercido como textualidade pode ser repensado no trabalho pedagógico, assume sua função de estratégia de política cultural. Para a mesma autora, planejar só faz sentido se ilumina a posição historicamente constituída do sujeito que planeja e se, de fato, antagoniza com o “currículo oficial” e coloca sob suspeição o próprio planejamento com seus regimes de verdade.

Não obstante, sempre estarão presentes nas escolhas feitas os recortes gestados por determinados interesses. Por isso mesmo, procuramos estabelecer critérios claros e justificados. Com base nos pressupostos mencionados, não compactuamos com uma pedagogia que faz assepsia dos desejos docentes e discentes, mas que confronta as diferentes produções discursivas sobre o próprio planejamento e seus limites, “artistando” o currículo (Corazza, 2002b), o que implica atribuir outros significados para o planejamento, a execução e a avaliação da tarefa educacional.

Claro está que a ementa da disciplina de fato forneceu “pistas” para a definição dos temas, além das experiências prévias e expectativas dos alunos mapeadas no início do semestre através de instrumento diagnóstico. Algumas perguntas foram empregadas, tais como: Quais memórias, ideias ou sentimentos surgem quando falamos em circo? Quais modalidades circenses são conhecidas? Onde o circo ou as modalidades circenses podem ser vistos ou vividos na atualidade? Já praticou alguma modalidade circense? O que você espera aprender nesta disciplina?

Constatamos que a maioria dos alunos tinha um conhecimento pouco amplo quanto às inúmeras modalidades circenses, a gama de profissionais envolvidos, além de ter poucas vivências prévias com essas práticas corporais, embora a maioria já tivesse a exercido na condição de espectador. Identificamos diferentes representações sobre o circo, em especial sobre a figura do palhaço e do artista de rua, vistos a partir de estereótipos ou preconceitos. Frases do tipo “se nada der certo vamos para o semáforo ali do shopping”, “eu tenho medo de palhaço”, “circo é alegria e sonho” foram ouvidas, algo que posteriormente tornou‐se objeto de discussão nas aulas.

Buscamos contemplar a maior variedade possível de saberes circenses e abordar algumas categorias básicas, tais como: acrobacias; manipulação de objetos; equilíbrio sobre e de objetos; aéreos; encenação – palhaço, numa organização similar à proposta de Duprat e Bortoleto (2007). A distribuição equilibrada dos temas nos pareceu coerente, valorizou os saberes discentes, a ancoragem social dos conteúdos e a articulação com o PPP da IES.

Na tabela 1 estão os conteúdos e as estratégias desenvolvidos na disciplina.

Tabela 1.

Distribuição das aulas/conteúdos e estratégias da disciplina (edição 2016)

Aulas  Conteúdos  Estratégias de ensino 
01  Avaliação diagnóstica. Apresentação do programa da disciplina. As atividades circenses e o contexto da educação física.  Aula expositiva e dialogada. 
02  Aspectos históricos do circo no mundo e no Brasil: uma introdução.  Aula expositiva e dialogada. 
03  Manipulação de objetos: vivência com sacolinhas plásticas, tules e bolas.  Aula prática com jogos em grupo. 
04  Oficina de construção de materiais artesanais: malabares. Discussão sobre aspectos pedagógicos.  Aula prática com jogos em grupo. 
05  Manipulação e equilíbrio de objetos: bolas, aros, claves, devil stick, cigar box, diabolô, bolas de contato, pratos.  Aula prática com jogos e circuito. 
06  Relato de experiência de artista circense.  Relato de experiência. 
07  Aspectos de segurança nas atividades circenses. Comentários das pesquisas dos locais de prática do circo.  Aula expositiva e dialogada. 
08  Vivência de equilíbrio sobre objetos: bola de equilíbrio, rola‐rola, monociclo, perna de pau.  Aula prática. 
09  Vivências de acrobacias de solo individuais e coletivas. Discussão de texto.  Aula prática e discussão de texto. 
10  Vivências aéreas: tecido acrobático.  Aula teórico‐prática. 
11  Vivências aéreas: trapézio e lira.  Aula teórico‐prática. 
12  Encenação e dramatização: Palhaço  Aula teórico‐prática. 
13  Avaliação teórica individual.  Avaliação. 
14  Devolutiva das avaliações. Entrega dos fichamentos dos textos. Videodocumentário Bravo Ramón!.1  Devolutiva da avaliação. 
15  “Gincana circense”. Orientação para a construção do trabalho final da disciplina.  Aula prática. 
16  Elaboração do trabalho final.  Acompanhamento dos grupos. 
17  Elaboração do trabalho final.  Acompanhamento dos grupos. 
18  Elaboração do trabalho final.  Acompanhamento dos grupos. 
19  Apresentação do trabalho final.  Apresentação e discussão. 
20  Devolutiva das avaliações.  Encerramento da disciplina. 
Aspectos pedagógicos das aulas

Como apresentado na tabela 1, o desenvolvimento da disciplina se deu a partir de aulas teórico‐práticas, discussão de materiais audiovisuais, análises de textos, pesquisa em diferentes locais de prática do circo, além de trabalhos individuais e coletivos. Contamos também com depoimento de artista circense convidado como possibilidade de relato de experiência profissional.

Desenvolvemos uma oficina de construção artesanal de malabares que fomenta o envolvimento dos discentes, a valorização do aparelho criado e o entendimento de sua funcionalidade. Para Lopes e Parma (2016), o baixo custo e o uso de material opcional são aspectos facilitadores dessa proposta, pois a construção do aparelho circense “possibilita a aproximação de todos a uma das características que persistem até os dias de hoje: a criação e confecção de suas próprias ferramentas de trabalho” (Lopes e Parma, 2016, p. xvi), é um relevante meio para entendimento da riqueza do circo.

Essa diversidade de estratégias metodológicas mostrou‐se interessante ao possibilitar que os discentes entrassem em contato com diferentes fontes e formas de produção de conhecimento, contemplou a polifonia da cultura circense (Silva e Abreu, 2009). Demos ênfase ao trabalho com jogos circenses como ferramenta de grande potencial formativo, a ludicidade e a criatividade permearam os objetivos educacionais das propostas (Bortoleto et al., 2011).

Na maioria das aulas, optamos pela aplicação de vivências individuais e também coletivas. Ressaltamos os aspectos contextuais, as questões pedagógicas e de segurança relevantes na formação dos futuros docentes. Orientando‐nos pelos pressupostos do currículo cultural da educação física (Neira e Nunes, 2009a, 2009b), foi relevante favorecer a interpretação da gestualidade e o reconhecimento dos marcadores sociais como as questões de gênero, etnia, classe social presentes nas práticas corporais estudadas, contexto esse no qual a vivência restrita das diferentes modalidades circenses não era suficiente.

Adotamos alguns encaminhamentos didáticos sugeridos por Neira e Nunes (2009a). Começamos pelo mapeamento do patrimônio da cultura corporal dos estudantes acerca do circo conforme já afirmamos, passamos pelas ações de ampliação, aprofundamento e ressignificação. Tais mediações buscam favorecer aos estudantes os conhecimentos da prática corporal tematizada quanto aos aspectos culturais, políticos, históricos, entre outros, além de subsidiar condições de reconstruí‐la, transformá‐la num novo texto a ser lido.

Notamos que esse processo posiciona centralmente os discentes como produtores de conhecimentos, modifica suas representações iniciais. Na maior parte das aulas, identificamos boa receptividade dos alunos, como sugerem as anotações feitas no diário de campo referentes às aulas de manipulação de objetos desenvolvidas em março de 2016: “Em todas as aulas com as quatro turmas percebi ampla participação dos alunos, inclusive criando outras possibilidades, variações, principalmente a partir dos trabalhos em grupo” (Trecho extraído do diário de campo, p. 6), condição que vai ao encontro das observações feitas por Garcia (2013).

Evidentemente, a depender do grau de dificuldade da atividade, dos conhecimentos prévios, do tipo de modalidade abordada, entre outros aspectos, o nível de envolvimento dos discentes apresentou oscilações. Um exemplo do que mencionamos foram as atividades feitas no tecido acrobático e na perna de pau, que, apesar de gerar certo medo e agitação de início, sofreram, até pelo número elevado de discentes na turma, com a dispersão devido ao tempo de espera.

Aliás, o número elevado de alunos por turma e a ausência de um monitor auxiliar durante o processo dificultaram em muitos momentos a condução e a qualidade das atividades desenvolvidas, quadro esse que também foi relatado pelos próprios discentes. Nesse ínterim, adotamos estratégias de ensino colaborativas que pudessem contribuir com a dinâmica da aula. Uma possibilidade encontrada foi a criação e vivência de jogos circenses a partir dos temas trabalhados com base na proposta de Bortoleto et al (2011).

Os recursos materiais estavam disponíveis em número suficiente e eram diversificados, tais como: dois trapézios fixos, uma lira, três tecidos acrobáticos, uma corda lisa, dois trampolins acrobáticos, dois minitramp, diversos materiais para malabares (bolas, aros, claves, caixas, devil stick, bastões, bolas de contato, swing‐poi, bandeiras), quatro monociclos, 20 rola‐rolas, duas bolas chinesas de equilíbrio, 15 pares de perna de pau de alumínio e 10 de madeira, vários colchões de queda, sarneige, entre outros. Não obstante, no que tange ao material ou mesmo pelo fato de a instituição já ter tido experiências anteriores na temática, vemos como um aspecto positivo e facilitador para a proposta ora analisada. Como foi relatado pelo docente responsável anteriormente pela disciplina, houve um investimento inicial da IES na aquisição desse material, porém, com cortes de verba, a reposição e compra não eram frequentes. De fato, ao observar o material antes do início do semestre, verificamos alguns problemas, por exemplo, tábuas de rola‐rola com fissuras, pernas de pau com fivelas de fixação quebradas, colchões de queda já sem condições de uso. Os tecidos acrobáticos muito sujos e um deles desfiado indicavam o desgaste e a necessidade de substituição imediata do material, fato que não ocorreu naquele período, salvo a lavagem.

Nesse sentido, destacamos que houve intensa preocupação quanto à gestão do risco e a construção de uma “cultura de segurança” nas aulas a ser construída por todos os envolvidos, e não somente pela docente. Para isso, organizávamos previamente o espaço das vivências e fazíamos a checagem das condições do material semanalmente, pois reconhecemos os riscos próprios das atividades circenses (Ferreira, 2012; Ferreira; Bortoleto e Silva, 2014). Apesar disso, tratamos da questão do risco estético e simbólico do circo como elemento fundante e atrativo desse universo, levando‐nos a enfatizar a relevância do processo histórico de construção desses saberes (Wallon, 2009; Guzzo, 2009).

Destacamos a relevância da montagem correta dos aparelhos, da avaliação frequente de suas condições, além da armazenagem adequada do material (Sugawara, 2008). Prioritariamente para a prática dos aéreos é indispensável o uso de colchões de queda. Corroborando as ideias do mesmo autor, salientamos a necessidade da preparação corporal adequada, a fim de evitar possíveis lesões e tornar a feitura das atividades a mais segura possível.

Buscamos proporcionar atividades didáticas nas quais os discentes pudessem acessar outras referências para o aprofundamento dos temas de estudo. Uma dessas possibilidades foi solicitar a visita a diferentes espaços nos quais o circo tem sido ensinado no município, a fim de conhecer os objetivos, o público‐alvo, além das demandas e dificuldades encontradas pelos professores desses locais. Os resultados dessa dinâmica ampliaram o entendimento dos discentes e mostraram que o circo ocupa a cidade em diferentes contextos e com objetivos diversificados.

Parte relevante dessas atividades foi a mediação feita para a construção dos trabalhos finais da disciplina, os quais tinham como mote a articulação dos conteúdos aprendidos numa apresentação. Salientamos que esse processo foi muito enriquecedor, embora no início, “ouvi algumas vezes de alguns alunos: professora nós não sabemos fazer nada! Como vamos fazer?” (Trecho extraído do diário de campo, p. 19). Reforçamos que a proposta era organizar o que aprenderam, a partir de uma ideia‐guia e que não seriam exigidos “movimentos perfeitos”, como havíamos já discutido no início do semestre. Essa possibilidade favoreceu aos estudantes a experimentação de uma situação com público, equipamento de som e luz, figurino, maquiagem, algo que muitos nunca haviam vivenciado. Os temas escolhidos foram bem diferentes, com modalidades e temáticas diversas, traduziram a polissemia do circo.

Considerações finais

Como buscamos analisar ao longo do texto, centramos esforços na sistematização dos saberes circenses na formação inicial em educação física e priorizamos estratégias metodológicas que possibilitassem uma visão contextualizada do circo. Identificamos que a autoetnografia favoreceu a produção de um conhecimento interessado que valoriza a pesquisa sobre a própria prática. Mais do que os resultados, os efeitos investigativos do processo de pesquisa. Fica evidente que investigações dessa natureza têm determinadas consequências, não só porque os seus efeitos incidem sobre o objeto, mas porque deslocam a perspectiva do pesquisador.

A “reimplantação” dos saberes circenses no curso investigado, apesar da receptividade grande que tem tido nessa instituição, ainda encontra alguns fatores que restringem a possibilidade de êxito da proposta, tais como: o elevado número de alunos por turma; os estereótipos e preconceitos presentes nos discursos de alguns discentes e também de outros docentes da própria instituição; a reduzida carga horária da disciplina; a incipiência desses conhecimentos na área; as poucas referências bibliográficas que orientam o trabalho com o circo na formação inicial em educação física; a dificuldade de diálogo com outras disciplinas do currículo e com o próprio PPP. Tais aspectos reforçam, na nossa visão, certa sensação de isolamento decorrente do pioneirismo da experiência. Não obstante, entendemos que plantamos uma “semente” que pode despertar os estudantes para uma área em pleno desenvolvimento e muito promissora.

Sabemos que o debate sobre o tratamento dado ao circo na formação inicial não pode ficar restrito às experiências feitas/vividas numa única disciplina durante um semestre letivo. Reconhecemos os limites do recorte, mas as conquistas também foram muitas. Talvez numa outra oportunidade pudéssemos fomentar mais o diálogo com artistas circenses e com os inúmeros projetos de circo social espalhados pelo Brasil, algo que foi feito em poucas oportunidades. Por outro lado, seria interessante se esses conhecimentos pudessem ser tematizados transversalmente no currículo, por exemplo, ao serem abordados os aspectos históricos da educação física, as possibilidades pedagógicas do circo na educação infantil, os jogos circenses como estratégia de ensino, dentre outras possibilidades.

Inferimos que os cursos nos quais há o oferecimento de disciplinas obrigatórias ou eletivas que permitam o contato com temáticas emergentes, como é o circo, além da formação de grupos de estudo/pesquisa, feitura de projetos de extensão e outras ações acadêmicas poderão auxiliar no fomento dessas temáticas e, por conseguinte, sua implantação na ação dos profissionais formados nessas instituições. Outra questão que nos permite uma breve reflexão está relacionada ao fato de que a ausência de cursos superiores específicos em circo no Brasil pode incentivar a participação dos professores de educação física na tematização desses saberes, cujo perfil de formação é um dos que mais se aproximam.

Temos clareza dos limites e possibilidades de qualquer contexto formativo e conosco não foi diferente. Certamente, foi percurso e picadeiro, campo de pesquisa desafiador, assim como, ao longo dos séculos, tem se constituído o rico universo circense, com o qual na contemporaneidade temos tido enquanto área de conhecimento chances de estabelecer um diálogo mais profícuo e franco.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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O circo no risco da arte. Trad. Ana Alvarenga Augustin de Tugny e Cristiane Lage
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Bravo Ramón! Videodocumentário em DVD. Produção de Daniel de Carvalho Lopes e Ermínia Silva, tempo aproximado de 48 minutos, legendado, colorido, livre. Esse vídeo pode ser solicitado por intermédio de Daniel de Carvalho Lopes (circonteudo@circonteudo.com.br).

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