Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:355-61 - Vol. 39 Núm.4 DOI: 10.1016/j.rbce.2017.09.001
Artigo original
“Olhos masculinos nascidos para a contemplação do belo”: a relação entre esporte e mulher na crônica esportiva brasileira
“Male eyes born for contemplation of beautiful”: The relationship between sport and woman in brazilian sports chronic
“Ojos masculinos nacidos para la contemplación de lo bello”: la relación entre deporte y mujer en la crónica deportiva brasileña
Maria Thereza Oliveira Souza, , André Mendes Capraro, Larissa Jensen
Universidade Federal do Paraná, Programa de Pós‐Graduação Stricto‐Sensu em Educação Física, Curitiba, PR, Brasil
Recebido 07 Julho 2015, Aceitaram 06 Setembro 2017
Resumo

O presente artigo se propõe a analisar como a mulher atleta foi retratada por renomados literatos brasileiros (homens) e como o esporte feminino, com destaque para o futebol, é manifesto em algumas crônicas esportivo‐literárias brasileiras, para fins de delimitação foram selecionadas aquelas de Armando Nogueira e Nelson Motta. A pesquisa é de caráter histórico, centrada na análise de fontes literárias. Ao analisar as crônicas cujo assunto era a prática feminina, foi perceptível a supervalorização da estética corporal. Assim, naturalizadamente os cronistas colocaram suas impressões masculinas nas palavras que deveriam ser destinadas ao desempenho atlético das mulheres.

Abstract

This article aims to analyze how the female athlete was portrayed by renowned Brazilian writers (men) and how women's sports, especially football, appears in some brazilian sports / literary chronicles. For delineation were selected those of Armando Nogueira and Nelson Motta. The research has historical character, centered in analysis of literary sources. By analyzing the chronic whose subject was the female practice was perceived overvaluation of body aesthetics. So, naturally, the chroniclers put their male impressions in words that should be aimed at the athletic performance of women.

Resumen

El presente artículo propone analizarse cómo la mujer atleta fue retratada por renombrados literatos brasileños (hombres) y cómo el deporte femenino, sobretodo el fútbol, se manifiesta en algunas crónicas deportivas / literarias brasileñas. Para delimitar el análisis se seleccionaron las crónicas de Armando Nogueira y Nelson Motta. La investigación es de carácter histórico y está centrada en el análisis de fuentes literarias. Al analizar las crónicas, cuyo tema era la práctica femenina, se percibió la sobrevaloración de la estética corporal. Así, de forma natural los cronistas pusieron sus impresiones masculinas en las palabras que deberían estar destinadas al desempeño atlético de las mujeres.

Palavras‐chave
Mulheres, Escritores, Crônicas, Estética
Keywords
Women, Writers, Chronicles, Esthetics
Palabras clave
Mujeres, Escritores, Crónicas, Estética
Introdução

A presente pesquisa consiste em uma análise sobre a posição da atleta no esporte brasileiro segundo crônicas esportivas de renomados escritores. Sabe‐se que, mundialmente, elas, apesar de terem praticado atividade física, tiveram a sua participação proibida ou dificultada em distintos períodos, ora sob o argumento de que não teriam condições biológicas para tal, ora pela crença que isso as masculinizaria (Oliveira et al., 2008). Após a consolidação dos esportes, as mulheres ainda seriam renegadas ao segundo plano e mesmo atualmente, embora tenham a participação assegurada nos principais eventos esportivos, muitas vezes a sua importância é subvalorizada se comparada ao masculino (Goellner, 2005a).

O sucesso do esporte é, sem dúvida, dependente de meios de divulgação, como reportagens jornalísticas, estudos acadêmicos e publicações em periódicos. Desde os meios mais tradicionais, como jornais em papel, passando pelo surgimento da televisão e chegando ao uso avassalador da internet, comentários esportivos estão sempre presentes no cotidiano do brasileiro, muitas pessoas dedicaram‐se a contar histórias de atletas, jogos e competições. Nesse contexto surgiu um modelo de escrita tipicamente brasileiro, conhecido como crônica.1 Vários escritores nacionais discorreram, então, sobre assuntos esportivos em tom muitas vezes artístico, literário e até poético, sem obrigação rigorosa de relatar os fatos com a objetividade típica do jornalismo. Como exemplo, tem‐se esse excerto da crônica de Armando Nogueira sobre a estreia do Brasil e, consequentemente, de Oscar Schmidt nas Olimpíadas de 1996, intitulada de “O inventor do basquete”:

“Reencontro Oscar em Atlanta. Na estreia assombrou o ginásio com a conta soberba de 45 pontos. Ele é o mesmo herói consagrado em quatro olimpíadas. Vinte anos de cintilações nas quadras de Moscou, Los Angeles, Seul e Barcelona. Louvada seja a trajetória de Oscar, o sempiterno cestinha do basquete mundial, em cujo coração de atleta exemplar arde uma chama olímpica que não se apagará jamais” (Nogueira, 1998,p. 122).

Assim, são consideráveis as páginas destinadas a narrar singularidades e feitos de atletas, equipes e selecionados, principalmente em relação ao esporte considerado a paixão nacional e que praticamente dita o rumo esportivo do país – o futebol (Damatta, 1982; Rodrigues Filho, 2003; Wisnik, 2008). Todavia, percebe‐se que a produção jornalística e literária em torno do futebol masculino é significativamente maior em relação ao feminino. Diariamente, em quase todo periódico, há um cronista falando sobre futebol, e futebol de homens, contado por homens.

A partir desse quadro, apresenta‐se a seguinte pergunta norteadora: como é manifesta artisticamente a mulher atleta na crônica esportivo‐literária brasileira? Para fins de delimitação foram selecionadas as crônicas de dois literatos de destaque nacional, Armando Nogueira e Nelson Motta. A pesquisa, então, se propõe a analisar como a mulher atleta foi vista por renomados literatos brasileiros (homens) e como o esporte feminino foi retratado em algumas crônicas esportivas e literárias brasileiras.

Metodologia

O tipo de pesquisa é definido como qualitativo, de caráter histórico – centrado na análise de fontes literárias – com ênfase em crônicas. O recorte para a escolha das crônicas foi feito primeiramente segundo a relevância literária reconhecida de seus autores em meio tão competitivo (Capraro, 2007). Após disso, foi feita uma triagem entre eles, teve como critério de inclusão principal a representação2 de atletas mulheres em seus textos e também que esses tenham sido coletaneados e publicados em formato de livro3 – essas coletâneas são seleções geralmente feitas pelos próprios autores, ou seja, comportam aquilo que eles consideram relevante em sua produção. Vale salientar que as crônicas sobre atletas mulheres não constituíram grande relevância quantitativa na obra de Nelson Motta (Resenha esportiva), já que dentre aproximadamente 60 textos, três faziam referência ao esporte feminino. Já nas obras de Armando Nogueira (A chama que não se apaga e O canto dos meus amores) a temática da atleta mulher apareceu com mais frequência – entre 220 crônicas, aproximadamente 50 mencionaram mulheres e para a presente pesquisa foram usadas aquelas nas quais elas apareceram com maior protagonismo.

Acentuando a relação entre a pesquisa histórica e a literatura é argumentado que “Qualquer obra literária é evidência histórica objetivamente determinada – isto é, situada no processo histórico –, logo apresenta propriedades específicas e precisa ser adequadamente interrogada” (Chalhoub e Pereira, 1998,p. 8).

Esses autores reforçam que o uso de documentos literários como fonte histórica é possível por esses retratarem o contexto da época na qual os autores estavam inseridos ao produzir suas crônicas, mesmo que elas não tenham amarras tão fortes com a realidade e nem um compromisso perene com a verdade, ou seja, os escritores são livres para dar tom artístico ao texto, mas suas palavras são carregadas de representações em relação aos fatos. Os parâmetros para análise dos textos seguem o modelo metodológico adotado por Capraro (2007).

Torna‐se assim necessário também apresentar conceitos que fundamentaram a pesquisa e balizaram as análises nas páginas que se seguem. Quanto ao conceito de gênero, coadunado a Louro, crê‐se que:

“É necessário demonstrar que não são propriamente as características sexuais, mas é a forma como essas características são representadas ou valorizadas, aquilo que se diz ou se pensa sobre elas que vai constituir, efetivamente, o que é feminino ou masculino numa dada sociedade e num dado momento histórico” (Louro, 2003,p. 21).

Partindo‐se, então, da premissa de que sexo e gênero não têm a mesma representação social, podem‐se apresentar tais diferenças a partir das formulações da antropóloga Maria Luiza Heilborn:

“Gênero é um conceito das ciências sociais que se refere à construção social do sexo. Significa dizer que a palavra sexo designa agora no jargão da análise sociológica somente a caracterização anatomofisiológica dos seres humanos e a atividade sexual propriamente dita. O conceito de gênero existe, portanto, para distinguir a dimensão biológica da social” (Heilborn, 1997, p. 1).

Armando Nogueira – Estética literária e a beleza da mulher

Armando Nogueira, um dos mais afamados cronistas brasileiros, foi um declarado incentivador do esporte feminino, tanto que frequentemente opunha‐se aos ideais remotos de exclusão das mulheres das Olímpiadas – “[...] é de lastimar que o preconceito do barão tenha retardado tanto tempo a entrada na cena olímpica de atletas admiráveis como Fanny Blankers, Wilma Rudolph, Nadia Comaneci, Florence Joyner, Rosa Mota e Vera Caslavska. [...] Uma legenda consagra de vez a força e o talento das mulheres” (Nogueira, 2000,p. 54). É comum em suas crônicas, a maioria “poesia em prosa”,4 a presença de delicadas e elegantes palavras destinadas a atletas mulheres, que em alguns casos se tornam quase deusas nos contornos dados pelo literato.

Nos livros analisados, Nogueira dedica páginas consideráveis a falar do sexo feminino. Um exemplo é a crônica “A deusa da fertilidade”, na qual ele relata que nos Jogos Olímpicos da Antiguidade apenas homens competiam, e mais, eles disputavam nus, como medida preventiva para que o sexo oposto não frequentasse o estádio de Olímpia. A única mulher que tinha esse privilégio era Demeter, considerada deusa da fertilidade, ou seja, a permissão para que contemplasse os jogos era relacionada à crença de seu poder de abençoar os mortais com a proliferação da raça. Em mais um excerto, no qual faz uma ponte com o passado, simula um diálogo com um escultor grego e ainda defende o lado feminino do esporte, é argumentado o seguinte: “Meu bom Fídias, a Olimpíada hoje já não tem a simplicidade dos velhos tempos de Olímpia. [...] Uma coisa, porém, é mais legal hoje em dia: as mulheres estão podendo competir” (Nogueira, 2000,p. 89).

Em “A mulher está em todas”, o escritor exalta o grande contingente de atletas mulheres que participavam das Olimpíadas (década de 1990), enquanto lembra que na primeira edição olímpica (Atenas – 1896) elas foram terminantemente proibidas de participar, assim como já o era na Antiguidade. Isso acontecia porque os organizadores, principalmente o idealizador Pierre de Coubertin, defendiam que o esporte degradava a suave imagem da mulher, teoria reforçada até por especialistas em medicina daquela época. Armando Nogueira faz questão de deixar clara sua oposição a esses ideais, usa as seguintes palavras: “A oposição à mulher nos Jogos Olímpicos vinha de estúpidos preconceitos moralistas, reforçados pela própria ciência” (Nogueira, 2000,p. 52). As mulheres só estreariam na edição de Estocolmo (1912). Apesar dessa simplificação feita por Nogueira, havia debates dentro do higienismo, ou seja, essa oposição não era unânime e várias teorias circulavam em defesa a participação feminina.5

Apesar do respeito e da credibilidade dados ao esporte feminino, suas crônicas falavam majoritariamente do corpo, da beleza ou da graciosidade das atletas. Numa dessas oportunidades, descreve Florence Griffith‐Joyner, velocista estadunidense: “Além de bonita, é simpática; além de simpática é saudável; além de saudável é mulher” (Nogueira, 2000,p. 117). O entusiasmo pela figura feminina encontra‐se também na crônica “As garotas de Ipanema”, na qual enaltece as medalhas de ouro e prata conquistadas pelas duplas femininas de vôlei de praia: “As quatro moças, bronzeadas, esculturais, eram o símbolo perfeito e acabado da jovem mulher brasileira” (Nogueira, 1998,p. 53). Ou ainda em “Magic Paula”, oportunidade na qual Nogueira expõe que era contrário ao uso de calções longos pelas atletas do basquete, defende a tese de que Paula – aos seus olhos uma linda mulher – não deveria usar aqueles trajes. Nas palavras do escritor: “Os calções do basquete feminino me lembram, na feiura, a velha cueca chamada samba‐canção. [...] Paula não merece uma roupa tão bizarra. Nem ela, nem os olhos masculinos nascidos para a contemplação do belo” (Nogueira, 2000,p. 150). Ele ainda sugere que a seleção brasileira adote os colants usados pela equipe da Austrália, os quais garantiriam muito mais sensualidade.

Aqui fica claro que o escritor considera a estética como um dos fatores importantes para o interesse masculino no esporte feminino. Isso é um assunto pertinente para o autor, tanto que ele o cita mais uma vez, na crônica “A quadra e os quadris”: “O ‘short’ das moças é um dos ‘gimmecs’ desse esporte. Foi criado na Califórnia, foi encurtado no Brasil e acabou aprovado, com louvor, pela Federação Internacional de Voleibol” (Nogueira, 1998,p. 75). Nogueira se referia aos curtíssimos shorts usados por atletas do voleibol, que retratam cuidadosamente o corpo feminino. Ele conclui que esses são docemente sensuais e atiçam as fantasias do homem e que, assim, sua adoção foi uma grande jogada de marketing, já que antes disso as moças ainda usavam calções que “sonegam ao olhar masculino as ardentes carnações femininas”.

Nogueira não faz questão de deixar essas ideias subentendidas, ele as coloca explicitamente. Entretanto, há de se enfatizar novamente que a literatura trabalha com representações e que não há como ser contundente ao afirmar que existe por parte do autor um machismo exacerbado, haja vista que “[...] os dispositivos formais – textuais ou materiais – inscrevem em suas próprias estruturas as expectativas e as competências do público a que visam, organizam‐se, portanto, a partir de uma representação da diferenciação social (Chartier, 1991,p. 186), ou seja, o cronista atua como um sujeito ajustado ao seu contexto histórico, as décadas de 1980 e 1990, nas quais a notória valorização da estética feminina ainda não estava cercada pelos debates encontrados e pelo conceito de politicamente correto da atualidade. Atua ainda segundo uma linha predominante de representação presente na literatura, haja vista que existe o estereótipo de mulher dócil e responsável por fantasias e fetiches masculinos (Brandão, 2006), na qual tentativas de fuga desse padrão são algumas vezes tratadas com grande criticidade (Baggio, 2006). Há assim em suas palavras sinais da generificação que atuava e, nesse caso ainda atua, pautava as relações sociais (Louro, 2003), o que acaba por perpetuar as diferenças, visto que “[...] as obras e os objetos produzem sua área social de recepção, muito mais do que as divisões cristalizadas ou prévias o fazem” (Chartier, 1991,p. 186).

Nelson Motta – Um voyeur da crônica esportiva

Nelson Motta – jornalista, compositor, produtor musical e escritor – em sua obra Resenha esportiva reuniu crônicas produzidas durante a cobertura de sete copas do mundo de futebol, além das Olimpíadas de Atlanta (1996) e Londres (2012), e uma única crônica sobre o Pan‐Americano do Rio Janeiro (2007), exatamente sobre o futebol feminino.

Porém, antes desse texto destinado à conquista do futebol feminino, o escritor, na crônica “Collant e liga”, fala das Olimpíadas de Atlanta, segue o mesmo rumo de Armando Nogueira e dedica algumas palavras ao corpo da mulher. Refere‐se aos collants adotados pela equipe australiana de basquete e usa as seguintes palavras: “A força do sex appeal contou na decisão das australianas pela adoção do audacioso uniforme para promover o esporte no país: e deu certo, a liga profissional delas vai muito bem, embora o jogo não seja lá essas coisas. Mas como elas também não são lá grandes gatas... Se o time das italianas usasse esse uniforme, seus jogos seriam proibidos para menores” (Motta, 2014,p. 167).

Tal excerto traduz um pouco da maneira com que as mulheres, muitas vezes, são vistas na prática esportiva (Goellner, 2005b; Souza e Knijnik, 2007). Nesse caso, as atletas australianas, segundo Motta, usaram um instrumento muito comum para conseguir interesse e credibilidade. Elas tentaram, por meio de uma exposição maior de seus corpos, atrair o interesse do público. Existem indícios de que conseguiram, já que esse assunto está em pauta ainda hoje em redes sociais. Aqui cabe uma reflexão sobre o papel que a própria mulher desempenha na construção do imaginário masculino, pois ao escolher usar aquele modelo de vestimenta as australianas se dispuseram a usar seus corpos como mais um atrativo para evidenciar seu desempenho técnico, mesmo que soubessem que isso chamaria a atenção, em grande maioria, dos homens. Isso pode até ser entendido como uma espécie de emancipação da mulher, tendo em vista que elas próprias decidiram que seria válido o uso daquele modelo de uniforme, apesar de que, provavelmente, interesses masculinos também estavam presentes, ou seja, nunca essas relações de gênero podem ser entendidas como algo simples, mas sim como ambientes constantemente permeados por tensões (Scott, 1986). As brasileiras também adotaram o uniforme colante, ressaltaram as formas corporais, a partir das Olimpíadas de Sidney (2000) até 2006, quando decidiram voltar ao modelo tradicional. Esses fatos, porém, muito diferem do que ocorreu na Europa em 2012. Os dirigentes da liga de basquete feminino do Velho Continente acharam justo obrigar as atletas a usarem uniformes mais “delicados” e que retratassem melhor seus corpos para atrair mais público e diferenciar a prática feminina da masculina (Globo Esporte, 2012). Essa, sim, atitude que aponta para uma possível dominação masculina,6 na qual homens impuseram suas decisões sobre o corpo e a prática feminina, estabeleceram normas e regulamentaram as atividades conforme seus interesses. Outra evidência dessa dominação é justamente o quadro quase hegemônico de homens que tomam as decisões nos cargos mais elevados de direção, ou seja, é raríssima a presença de mulheres dirigentes e técnicas em suas próprias modalidades.

Ainda nessa crônica, o escritor afirma que aprova o modelo de uniforme usado pelas australianas, dá a entender que, até certo ponto, esse compensaria o jogo apenas razoável da equipe, ou seja, mais uma vez o apelo estético se sobrepõe aos aspectos técnicos e esportivos. Nelson Motta ainda revela seu gosto particular, ou seja, no imaginário estético do autor a Itália “venceria” a Austrália, tranquilamente. Apesar de sua análise parecer um tanto ofensiva, deve‐se atentar que o escritor – exatamente por produzir uma forma artística, a literatura – tem relativa autonomia criativa (Candido, 1992) e, portanto, esses relatos podem ter sido escritos a partir de uma leitura crítica sobre seu público, que seria marcadamente masculino.

Como já afirmado, o escritor incluiu em sua seleção de crônicas algumas referentes ao futebol feminino. Uma delas, escrita durante as Olimpíadas de 1996, intitulada “Bolas e belas, ricas e pobres”, faz referência às diferenças entre as atletas brasileiras e as americanas ou norueguesas.

Nelson começa com o relato de como chegou ao estádio da Universidade da Geórgia e como o encontrou lotado, com 64 mil pessoas ansiosas para assistir ao selecionado de futebol feminino dos Estados Unidos contra a equipe da Noruega, que seria o jogo principal. Ele estava lá para presenciar a rodada preliminar entre Brasil e China, que, segundo as palavras do escritor, não eram seleções capazes de desempenhar um bom papel futebolístico: “Nenhuma habilidade ou imaginação. Não estivesse o Brasil jogando, seria tudo muito chato, mesmo para um militante do futebol feminino” (Motta, 2014,p. 170).

Logo a seguir, ele enaltece o jogo entre americanas e norueguesas:

“[...] louras, grandes, fortes, combativas, preparadas. Várias de uma beleza, digamos, viril. Em dramático contraste com nossas pobres garotas, imagens recorrentes de retirantes, faveladas, caboclas – que também contrastam com a riqueza, a saúde, a beleza e a arrogância das estrelas de nosso futebol masculino” (Motta, 2014,p. 171).

Nesse trecho dois pontos evidenciam‐se na narrativa de Motta. Primeiro, ele elogia o preparo físico das atletas americanas e norueguesas, as contrapõe ao modelo “fraco” das brasileiras. É possível que isso seja em decorrência da diferença de treinamento entre os dois opostos, pois se sabe que o apoio ao futebol feminino no Brasil sempre foi deficitário e, portanto, essas mulheres não reuniam todas as condições necessárias para uma dedicação exclusiva ao esporte (Goellner, 2005b). Segundo, ao compará‐las com os atletas do futebol masculino, o escritor denota seu entendimento sobre essas dificuldades citadas e sobre as diferenças encontradas em relação ao tratamento dado aos homens futebolistas no país, evidencia que aquelas meninas desamparadas de projeto esportivo não tinham obrigação de garantir bons resultados frente aquelas outras que faziam um... “Jogaço de bola, técnica e habilidade, tática, aplicação, belas guerreiras em ritmo vertiginoso. Força e velocidade, potência e precisão. Sem desrespeito, parecia até futebol de homem” (Motta, 2014,p. 171). De certa forma, Motta recorre à “velha” explicação por meio do biofísico brasileiro, como se esse não fosse apto à vitória. Explicação essa tão criticada por Mário Filho no clássico O negro no futebol brasileiro, sobretudo, na segunda edição da obra, após a conquista do Mundial de 1958.

Nelson Motta, no fim da crônica, elogia o futebol feminino bem jogado, fala que até parecia com aquele praticado por homens, ou seja, para ele o sucesso das mulheres nesse esporte depende de uma aproximação bem‐sucedida com a prática masculina, tira a possibilidade de o futebol feminino ser atrativo fundado apenas em sua própria natureza.

Chega‐se, então, ao comentado título pan‐americano da seleção brasileira de futebol feminino. E Nelson Motta já inicia sua crônica referente ao assunto com a seguinte frase: “Sempre detestei a expressão ‘futebol é jogo para homem’, machismo tosco usado para justificar toda sorte de violência e deslealdade contra adversários talentosos e contra o próprio jogo” (Motta, 2014,p. 199). O escritor tentava, nesse sentido, demonstrar que era um indivíduo teoricamente liberal, dá a entender que a mulher no esporte seria mais do que uma situação aceitável, um digno e justo avanço social.

Motta recorre à estratégia literária de usar as próprias reminiscências, prossegue e relata a experiência do primeiro jogo feminino com o qual teve contato, no início da década de 1980. Era Itália versus Suécia, na cidade de Roma, pelo campeonato europeu e o autor reconhecia que tinha interesse em presenciar uma disputa que estava longe de ser esportiva:

“Levado pelo machistinha que vive nas profundezas até dos mais liberais, fui para o estádio menos pelo jogo e mais pela fantasia de belas mulheres, correndo, chutando e se chocando no gramado, brigando pela bola – como se ela fosse um homem” (Motta, 2014,p. 199).

Motta fez essa “confissão” para explicar que foi a partir daquele momento que passou a respeitar o futebol das moças, que, segundo o próprio, eram rápidas, fortes e algumas muito habilidosas, além de existirem (assim como no masculino) aquelas que se sobressaíam em relação à beleza e assim geravam um atrativo a mais, o qual em muito se assemelhava ao jogado por homens até a década de 1960 – “menos violento e mais aberto”. Ao fazer essa comparação, o autor se mostra novamente saudosista ao relembrar de um esporte de menos contato praticado pelo sexo masculino nos anos de Pelé e companhia, que se perdeu conforme o preparo físico ganhou avassaladora importância na prática desse esporte – ao menos como concebido por alguns admiradores do futebol (Damatta, 1982; Wisnik, 2008).

Após relatar como admirava o futebol feminino nos Estados Unidos e como tinha certa “inveja” daquele selecionado, Motta trouxe as futebolistas brasileiras para o centro da análise, ao comentar o desempenho delas no Pan‐Americano em 2007 e a evidente (ao menos para o escritor) evolução que elas tiveram:

“Ninguém mais pode reclamar que lhes falta técnica, ou força, ou velocidade, ou disciplina tática, ou talento individual. Mesmo os mais empedernidos machões da crônica esportiva se renderam à graça do futebol das garotas e estão empolgados com as sensacionais performances da genial Marta, de Rosana, Cristiane, Daniela e, ainda e sempre, da veterana Pretinha” (Motta, 2014,p. 201).

Pela primeira vez, Nelson não faz qualquer referência ao corpo ou à beleza das atletas, sua análise é referente aos quesitos técnicos das brasileiras, que, segundo o literato, surpreenderam naquele torneio – é provável que nesse momento o autor já estivesse adaptado ao contexto do século XXI, quando minorias antes relegadas ou silenciadas ganharam voz e representatividade. Mesmo assim, a comparação com o futebol masculino continuava presente: “Elas têm muitas qualidades e até alguns dos defeitos dos craques machos: paradoxalmente, jogaram de salto alto o primeiro tempo contra o México” (Motta, 2014,p. 201). Ou ainda: “Mas quem resistiria, com um saldo de 26 gols em quatro partidas, média de 6,5 por jogo? Jamais a seleção masculina, nem em suas fases de maior glória, sonhou com esses números” (Motta, 2014,p. 201).

Essa constante comparação com o futebol jogado por homens não é exclusividade desse escritor. Pelo contrário, na maioria das vezes os escritos sobre o futebol feminino fazem essa relação. Contudo, há de se ressaltar que Motta, assim como os demais, usa os parâmetros que tem, já que a prática feminina regulamentada desse esporte, principalmente no Brasil, é muito recente7 e escassa. Ou seja, não existe um número adequado de competições, jogos e exposição para que esse assunto alimente à crônica. Torna‐se necessário, então, avaliá‐la tendo como referência o que se tem de mais sólido no país: a vasta história construída pelo futebol masculino, história que já adquiriu status social e de identidade nacional (Damatta, 1982; Wisnik, 2008).

Cabe ressaltar também que, ao citar “os machões da crônica”, o escritor reforça a ideia de que o meio esportivo é dominado por homens, há alguns que até subvalorizam a prática feminina. Motta se incluiu nesse grupo, admite que algumas vezes compartilhou de ideias semelhantes às desses “machões”.

Motta finaliza sua crônica em tom de esperança: “[...] depois do que esse time já fez, milhares, milhões de garotas brasileiras vão encontrar no futebol um esporte, uma diversão e até um meio de vida. E mais uma forma de dar alegria e orgulho aos brasileiros” (Motta, 2014,p. 201). Com o recurso linguístico do exagero, característica muito presente em suas crônicas, provavelmente o autor fora movido pela empolgação da recente vitória.

Considerações finais

Primeiramente, apresenta‐se uma situação paradoxal. Vinda “de baixo”, a crônica, que até então nasceu com prazo de validade pré‐determinado, tornou‐se uma importante ferramenta de análise histórica, logo, tal pesquisa serviu para consolidar essa permanência do texto momentâneo.

Especificamente em relação às crônicas investigadas, foi constatada uma predominância de textos relacionados ao futebol, reveliu‐se, assim, que a cobertura jornalística/literária é mais um dos fatores que colaboram para colocar o “esporte bretão” à frente dos demais na preferência nacional. No que se refere ao conteúdo dessas crônicas esportivas ou futebolísticas, a maioria pauta suas análises e reflexões na prática masculina. As atletas ainda não conquistaram uma igualdade de interesse, tanto no que diz respeito ao público quanto à cobertura jornalística. Provavelmente, isso se explique pela precariedade dos campeonatos, ou seja, somente as competições internacionais entre seleções despertam interesse maior. A crônica, nesse sentido, é apenas um reflexo da sociedade.

Ao analisar as crônicas centradas em atletas mulheres foi perceptível a supervalorização da estética de seus corpos. Muitas vezes, os cronistas colocam suas impressões masculinas nas palavras que deveriam ser destinadas ao desempenho atlético das mulheres, falam até do modelo de roupa que deveriam usar, como foi visto em algumas crônicas de Armando Nogueira e Nelson Motta. Tais impressões são geralmente naturalizadas – isto é, sequer causam estranhamento no público leitor, tendo em vista que esse também é basicamente composto por homens – e permeadas pelo contexto histórico em que os escritores estão inseridos, ou seja, não há como analisar suas palavras sem pensar no sistema por meio do qual elas foram construídas: um país que sempre foi e ainda é dominado significativamente pelo masculino.

Outro indício de que o meio esportivo ainda é significativamente machista é o fato de haver grande contraste quanto ao número de cronistas homens em relação às mulheres. Apesar de existirem várias delas altamente inseridas no meio literário e jornalístico (seja ele político, econômico, social, entre outros), a presença delas como escritoras especializadas em esportes ainda é muito baixa.

Financiamento

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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O negro no futebol brasileiro
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Scott, 1986
J.W. Scott
The American Historical Review, (1986)pp. 1053-1075
Souza e Knijnik, 2007
J.S.S. Souza,J.D. Knijnik
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Wisnik, 2008
J.M. Wisnik
Veneno remédio – O futebol e o Brasil
Companhia das Letras, (2008)

“Ora, a crônica está sempre ajudando a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas. Em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas” (Candido, 1992,p. 14).

Roger Chartier define como uma das modalidades da relação com o mundo social, ou seja, de representações, “[...] as práticas que visam fazer reconhecer uma identidade social, exibir uma maneira própria de estar no mundo, significar simbolicamente um estatuto e uma posição” (Chartier, 2002,p. 23).

Foram verificadas obras dos seguintes autores: Nelson Rodrigues, Luis Fernando Verissimo, Lima Barreto, Coelho Neto, Graciliano Ramos, Gilberto Amado, Monteiro Lobato, José Lins do Rego, Mario Rodrigues Filho, João Saldanha, Paulo Vinicius Coelho, Tostão, Juca Kfouri e somente os dois autores escolhidos e retratados aqui tinham entre seus escritos crônicas sobre a participação da mulher no esporte.

“[...] o poema em prosa propõe acima de tudo e de forma inequívoca a ideia de liberdade ou de libertação, como motor da criação literária” (Álvares, s/d, p. 244).

Com os ventos de modernidade vindos da Europa, alguns médicos higienistas passaram a incentivar determinadas práticas físicas às mulheres brasileiras [...] como forma de manutenção da saúde. (Goellner, 2005a).

“A força de ordem masculina se evidencia no fato de que ela dispensa justificação: a visão androcêntrica impõe‐se como neutra e não tem necessidade de se enunciar em discursos que visem a legitimá‐la” (Bourdieu, 2002, s/p).

Apenas em 1979 o Conselho Nacional Desportos (CND) revogou uma deliberação que proibia a prática feminina de futebol, assim como outras modalidades esportivas consideradas masculinizantes.

Autor para correspondência. (Maria Thereza Oliveira Souza mariathereza_souza93@yahoo.com.br)
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Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:355-61 - Vol. 39 Núm.4 DOI: 10.1016/j.rbce.2017.09.001